Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

A DUPLA SOFRÍVEL

Primeira longa-metragem do japonês Nobuhiro Suwa, "2 Duo", de 1997, revela já alguns dos traços que caracterizam as obras seguintes do realizador, nomeadamente o olhar sobre a vida conjugal, o realismo impresso pelas interpretações de actores que recorrem à improvisação e uma singularidade formal, com planos fixos e longos e enquadramentos incomuns.

Em "2 Duo" o cineasta foca a relação de dois jovens, Yu e Kei, que vivem no mesmo apartamento e aí partilham uma série de momentos que tanto se aproximam de uma terna placidez e cumplicidade como de emoções à beira da combustão, onde vem ao de cima o pior de cada um deles.

À medida que o filme progride, o relacionamento do casal vai evidenciando as suas fragilidades, tornando-se cada vez mais fracturado. Suwa apresenta um duo de personagens disfuncionais, imprevisíveis e desencantadas, mas pouco empáticas, pois estão tão imersas nas suas convulsões emocionais que a sua presença se torna maçadora e por vezes mesmo irritante e penosa.

Alternando sequências centradas no quotidiano do casal com outras onde cada protagonista se expõe individualmente ao espectador (respondendo a perguntas do realizador), esta ficção com elementos documentais nunca consegue, em nenhuma dessas vertentes, fazer com que as tensões das personagens ganhem interesse, convidando a um afastamento e recusa progressivos.

Com uma narrativa elíptica que cedo se esgota, cenas maioritariamente monótonas e sem densidade e personagens cujas motivações ficam por esclarecer, "2 Duo" é um poderoso soporífero de uma hora e meia que parece ter o dobro da duração. Recomenda-se a quem sofra de insónias ou tenha paciência de chinês.
E O VEREDICTO É: 1/5 - DISPENSÁVEL

NÃO HÁ DOIS SEM TRÊS

Tal como em "2 Duo" ou "Un Couple Parfait", Nobuhiro Suwa apresenta em "M/other", de 1999, um drama intimista alicerçado no relacionamento de um casal, mas a variação deste filme é que a repentina presença de uma criança irá alterar a dinâmica do par protagonista.

Ao fim daquele que parece mais um banal dia de trabalho, Aki surprende-se ao ver que o seu companheiro, Tetsuro, chega a casa acompanhado pelo filho, Shun, revelando-lhe que este terá de passar cerca de um mês com eles devido a um acidente da sua ex-mulher. Se inicialmente Aki recebe esta novidade com alguma amargura, uma vez que não foi consultada acerca dessa decisão, a situação complica-se ainda mais através de um considerável acréscimo das suas tarefas domésticas, fruto da chegada da criança.

"M/other" fornece um retrato das tensões e contrariedades deste casal que, apesar de não apostar à partida num compromisso sério, vê-se repentinamente transformado numa família, levando a que Aki reconsidere a natureza da sua relação e também aquilo que pretende da sua vida. Sentindo-se por vezes como uma estranha na sua própria casa e revoltando-se com a inércia de Tetsuro, envolve-se numa espiral de emoções conflituosas tentando superar uma situação inesperada que não domina.

Suwa deixa os actores praticamente entregues a si próprios, uma vez que o filme não tem propriamente um argumento e antes pede que estes recorram ao improviso, o que dá a "M/other" uma conseguida atmosfera realista, pois o elenco consegue tornar a acção plausível. Makiko Watanabe, que interpreta Aki, oferece o melhor desempenho, conciliando serenidade, apreensão e entrega e proporcionando alguns momentos de intensa carga dramática.

"M/other" é um filme promissor e intrigante, mas que peca pelo excesso de duração, já que ao longo das suas duas horas e meia Suwa nem sempre é capaz de manter o interesse, perdendo-se em sequências supérfluas e demasiado longas.
O recurso a planos fixos é a espaços saturante, impondo à película uma rigidez formal que por vezes gera distância.
O resultado é um drama familiar sensível e sóbrio, com uma boa história, mas que infelizmente não é contada da forma mais entusiasmante, tornando mediano um filme que poderia atingir um nível superior.
E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

O CASAMENTO É UM LUGAR ESTRANHO

No seu mais recente filme, “Un Couple Parfait”, de 2005, o cineasta japonês Nobuhiro Suwa recorre a um elenco totalmente francês para relatar o conturbado quotidiano de um casal à beira do divórcio que, após vários anos a viver em Lisboa, regressa a Paris para comparecer ao casamento de um amigo.

Casados há 15 anos, Nicolas e Marie entram em fricção constante e têm dificuldade em comunicar, mas insistem em permanecer juntos durante a viagem, partilhando os últimos momentos antes da separação.
Suwa segue-os ao longo desse período, originando um claustrofóbico e tenso retrato da intimidade (ou falta dela) e da frustração, colocando as suas personagens à beira do limite emocional mas nunca prescindindo de uma carregada sobriedade e contenção.

Dominado por cenas longas e recorrendo quase sempre a estratégicos planos estáticos, “Un Couple Parfait” é um interessante exercício sobre a crispação afectiva e os constrangimentos de uma vida a dois, onde a câmara está sempre colocada de modo a captar a vertigem dos protagonistas, implementando um seco e cortante efeito realista que a iluminação invernosa ajuda a consolidar.

Se este cuidado com as especificidades do espaço e da sua interligação com as personagens é um elemento fulcral do filme e gera algumas sequências fortes – sobretudo as primeiras no quarto de hotel -, também acaba por se tornar num dispositivo algo redundante e cansativo, proporcionando outras cenas inconsequentes ou desnecessariamente longas (em particular aquelas em que o casal está separado, como as do museu ou do bar).

“Un Couple Parfait” é assim uma película desigual, que só ganharia em abdicar de alguma palha narrativa que dilui o efeito dos bons desempenhos do par protagonista, Valeria Bruni-Tedeschi e Bruno Todeschini, quase sempre ancorados no improviso. Ela é especialmente credível, e os seus sussurros e olhares expõem a vulnerabilidade e a relutância de uma personagem em conflito, que tenta ainda reconstruir os estilhaços da sua relação em colapso.

Por vezes envolvente, noutros casos monótono e arrastado, “Un Couple Parfait” é um filme desequilibrado, de altos e baixos, que a espaços de aproxima de “5x2” (com o qual tem também em comum a actriz principal), e que embora fique um pouco abaixo do filme de Ozon é ainda um atento e revelador drama sobre as dificuldades conjugais.

E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

ESPELHO PARTIDO

Neil Gaiman e Dave McKean tornaram-se, desde os anos 80, numa das duplas mais influentes e criativas da banda-desenhada norte-americana, alargando os limites do formato e apostando numa linguagem própria, experimental e facilmente identificável.

“Mirrormask”, a primeira longa-metragem criada pelo duo (escrita por ambos e realizada por McKean) suscitava, por isso, alguma expectativa, pois se o filme fosse tão inventivo como os livros seria um título a não perder.

Infelizmente, o que a película proporciona é um amargo travo de desilusão, uma vez que fica muito aquém do que se esperaria dos nomes que nela estão envolvidos.
A temática recorrente nas novelas gráficas do duo mantém-se – as interligações entre o real e o onírico, o crescimento, a inadaptação e a diferença -, assim como um estilo visual algures entre o gótico e o surrealista que facilmente se atribui a McKean, mas estes elementos são trabalhados de forma tão superficial e formatada que dificilmente honram os pergaminhos dos seus autores.

Apoiando-se num argumento anémico e vulgar, “Mirrormask” é ainda mais prejudicado por apostar numa narrativa esquemática e linear, e os poucos momentos de alguma surpresa devem-se apenas a curiosas sequências visuais, que ilustram a realidade estranha e intrigante onde decorre a maior parte do filme.
Contudo, mesmo a nível visual o resultado é irregular, uma vez que a combinação entre animação e acção real já não é propriamente uma novidade e aqui acusa, não raras vezes, um óbvio artificialismo.

Menos misterioso e absorvente do que se exigiria a algo gerado pela dupla Gaiman/McKean, “Mirrormask” torna-se ainda mais frágil devido às suas personagens de papelão, autómatos sem intensidade que se limitam a seguir as etapas do argumento rotineiro. O filme nunca consegue implementar uma aura de tensão ou perigo palpáveis, oferecendo uma história infanto-juvenil com uma série de aborrecidas reviravoltas e enigmas, sem qualquer vibração emocional.

Vendo bem, as aventuras cinematográficas de Harry Potter, apesar de se assumirem como um claro produto industrial, acabam por nem estar muito distantes, e até têm mais doses de entusiasmo, valor lúdico e zonas de sombra do que este insípido “Mirrormask”.
E O VEREDICTO É: 1,5/5 - DISPENSÁVEL