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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

ROTAS LISBOETAS

Nos próximos dias, as coordenadas musicais em destaque vão situar-se para os lados do Cais do Sodré, no MusicBox, a propósito do Festival Roots & Routes. Alguns dos nomes cimeiros do dubstep, do hip-hop e de territórios aparentados estarão por Lisboa entre hoje à noite e domingo. Kode 9, Various Production, Ty e Boxcutter, entre outros, são alguns dos nomes do cartaz. Line up completo, horários, preços e restantes informações aqui e aqui, e acompanhamento dos principais momentos neste espaço em breve.

Various Production - "Hater"

CATCH THEM IF YOU CAN

Começou, na quinta-feira passada no King, um ciclo dedicado ao Novo Cinema Inglês. "Topsy Turvy", de Mike Leigh, foi o filme inaugural, e nos próximos dias passarão por lá "Rapariga com Brinco de Pérola", de Peter Webber (dia 4, 5 e 6); "Nu", de Mike Leigh (dia 7); "Breakfast on Pluto", de Neil Jordan (dias 11, 12 e 13); "Trainspotting", de Danny Boyle (dia 14 e 15); "Estranhos de Passagem", de Stephen Frears (dia 18, 19 e 20); "28 Dias Depois", de Danny Boyle (dia 21 e 22); "Orgulho e Preconceito", de Joe Wright (dia 26 e 27) e "Mrs. Henderson", de Stephen Frears (dia 28 e 29). "Brisa de Mudança", de Ken Loach, será o último a ser exibido, a 2 e 3 de Janeiro, e todas as sessões são às 19h.
Vou tentar ver, pelo menos, o "Nu", e se possível rever alguns dos outros.

OS DIAS DO FIM

Realizador alvo de uma crescente internacionalização nos últimos anos, o mexicano Alfonso Cuarón tem sedimentado uma filmografia com tanto de versátil como de desequilibrado, iniciando-a com "A Princesinha" (1995) e "Grandes Esperanças" (em 1998, mais uma adaptação da obra de Dickens), títulos pouco mais do que curiosos, mas revelando contudo uma envolvente singularidade em "E a Tua Mãe Também" (2001), road movie que ofereceu um dos mais belos retratos da adolescência do cinema recente.

"Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban" (2004), a sua contribuição para as aventuras do jovem e mediático feiticeiro, acrescentou um recomendável negrume à saga, e se não se saiu mal enquanto trabalho de encomenda também não foi um filme à altura das expectativas geradas pelo seu projecto anterior.

Agora, com "Os Filhos do Homem" (Children of Men), transfere para o grande ecrã o livro homónimo de ficção científica de PD James, cuja acção decorre num futuro próximo (2027) onde o mundo é caracterizado por um caótico contexto de anarquia global, vitimado por sérios problemas de imigração e, sobretudo, por uma crise de infertilidade que se arrasta há anos.

É certo que as atmosferas futuristas que o filme apresenta não são propriamente originais, compilando elementos já vistos no cinema e, sobretudo, na literatura, mas Cuarón consegue, ainda assim, proporcionar uma visão suficientemente refrescante e pessoal, contando com uma convincente criação dos cenários e impondo uma aura que traduz um clima conturbado e contaminado pela repressão.
Para tal não é alheia a soberba fotografia de Emmanuel Lubezki, com variações cromáticas dominadas por apropiados tons de castanho e cinza, determinantes para a edificação de um ambiente nebuloso e intrigante, e principalmente o trabalho de realização de Cuarón, que em dois ou três momentos atinge a excelência pelo nervo e carga realista que imprime a algumas sequências de antologia (uma atribulada viagem de carro ou, já mais perto do desenlace, a autêntica guerra civil nos prédios em ruínas).

Infelizmente, este rigor técnico não tem contraponto na narrativa, seguidora de uma lógica de videojogo, onde as personagens vão saltitando de nível para nível ou, neste caso, de perigo para perigo, encontrando novos aliados e adversários à medida que a sua fuga decorre.

A escassa solidez do argumento, que não sabe como aproveitar as muitas e pertientes temáticas sugeridas (todavia não aprofundadas), desbarata assim a competência (e a espaços mestria) visual, limitando também as prestações de um elenco forte, mas que mal tem oportunidade de mostrar o que vale. Julianne Moore, Michael Caine e Chiwetel Ejiofor, secundários de luxo, mereciam maior tempo de antena, e cabe assim a Clive Owen carregar o filme às costas, tarefa para a qual se mostra à altura, compondo um protagonista simultaneamente intrépido e desencantado.

Mesmo sendo algo decepcionante no seu desenvolvimento, "Os Filhos do Homem" resulta enquanto um eficaz thriller apocalíptico, já que Cuarón é geralmente bem sucedido na gestão do suspense, sabe filmar imaginativas cenas de acção e mantém o interesse até ao final, encontrando ainda uma valiosa mais-valia no carisma de Owen. Mas não deixa de ser inevitável pensar no grande filme que poderia ter saído daqui...
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM