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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

UM BANQUETE NO COLISEU

Uma das melhores bandas a surgir em terras de Sua Majestade nos últimos tempos já incluiu Portugal na agenda de concertos para 2007. Os Bloc Party, que com "Silent Alarm" asseguraram um dos melhores discos de 2005, actuam no Coliseu de Lisboa a 18 de Maio, três meses depois da edição do seu novo registo de originais, "A Weekend in the City". As primeiras audições do segundo álbum não me convenceram muito, mas mesmo assim este é um dos concertos que merece desde já destaque na lista dos obrigatórios do próximo ano. Aqui fica uma amostra do que poderá ser visto:

Bloc Party - "Luno (live)"

MARCHA LENTA (E LONGA)

Tendo já concentrado o seu olhar em alguns dos habitantes do bairro das Fontainhas em dois dos seus filmes anteriores, “Ossos” (1997) e “No Quarto da Vanda” (2000), Pedro Costa retorna ao mesmo espaço em “Juventude em Marcha”, focando desta vez a mudança dos habitantes para um bairro social nas imediações.

As fronteiras entre a ficção e documentário voltam a esbater-se nesta obra de arriscada catalogação, pois as personagens são figuras reais e o filme apresenta alguns estilhaços do seu dia-a-dia, colocando-as face a uma câmara quase sempre imóvel, particularmente claustrofóbica nos momentos centrados em Ventura, que tem em “Juventude em Marcha” um protagonismo que no filme anterior pertencia a Vanda, agora moradora do bairro social.

Ventura é aqui a âncora de Costa, e através de episódios do quotidiano deste vai sendo construída uma perspectiva sobre um Portugal raramente mostrado, pelo menos desta forma, expondo uma realidade marcada pelo fenómeno da imigração (neste caso, cabo-verdiana) e pelas condições de vida precárias, e muitas vezes ignoradas, a que os habitantes do bairro estão sujeitos.

Filme-denúncia? Não, pelo menos não no sentido da adopção de intrusivas posições militantes, antes um retrato com um realismo levado ao extremo, estabelecendo relações entre um presente e um passado ainda muito próximo que despoletou drásticas mudanças. Igualmente extremas são as reacções que as opções tomadas por Costa na abordagem deste universo geográfico, social e humano podem trazer, uma vez que, se a temática é pertinente, a forma como é trabalhada arrisca-se a deixar cair por terra as suas potencialidades.

O verismo cru dos espaços e figuras começa por ser inquietante, mas “Juventude em Marcha” vai anulando esse efeito ao apostar em cenas de duvidosa pertinência, repetindo códigos e situações ao longo de duas horas e meia que se tornam cansativas, entediantes e, sobretudo, injustificadas.
Se por vezes se detecta alguma energia visual nos enquadramentos e, em particular, no trabalho de iluminação, tal não compensa a formatação em que o filme se vai afundando progressivamente, sendo vítima de um hermetismo que atinge o ponto de combustão nos inconsequentes planos fixos de quadros, portas, janelas ou paredes, prolongados até à exaustão.

Esta tendência, porventura identificada como marca de autor, é acompanhada por um miserabilismo que, de tão omnipresente, apenas conduz a que o desinteresse pelas personagens se vá instalando, a que não são alheias as apáticas expressões de todas elas, exceptuando Vanda, levando ao limite a rigidez e aridez do projecto.
Torna-se quase impossível encontrar aqui qualquer vestígio de densidade emocional, e embora Costa tente interromper a modorra através da carta que Ventura recita várias vezes, essa opção não passa de um mecanismo forçado, mais piegas do que poético e francamente ingénuo.

Ainda que os seus propósitos possam ser nobres, “Juventude em Marcha” apoia-se numa estrutura formal e narrativa tão impenetrável e alienante que se transforma num exercício de estilo destinado a testar a paciência do espectador.
Muito ambicioso mas pouco intenso e dominado por uma frustrante letargia dramática, fica refém de um esquematismo tão desinteressante como o dos mais banais blockbusters. Com a agravante de, ao contrário destes, “Juventude em Marcha” abusar da dose de pretensão, não estando à sua altura pois raramente consegue ser mais do que um soporífero arty com tiques de reality show.
E O VEREDICTO É: 1/5 - DISPENSÁVEL

PRESENTE QUE NÃO CORTA COM O PASSADO

Na passada sexta-feira, o Teatro Maria Matos marcou o início de uma mini-tournée que conduzirá A Naifa a outras três cidades nacionais: Aveiro, Braga e Faro. O projecto de Luís Varatojo (guitarra portuguesa), João Aguardela (baixo), Paulo Martins (bateria) e Maria Antónia Mendes, ou Mitó (voz), levou a palco algumas canções dos seus dois discos, quase todas caracterizadas por uma pop híbrida e estimulante que sabe conciliar referências próximas do fado com linguagens electrónicas recentes, propondo uma combinação que já se revelava promissora em "Canções Subterrâneas"(2004) e que encontrou formas mais definidas em "3 Minutos Antes de a Maré Encher"(2006).

Actuando perante uma sala cheia, o quarteto apresentou uma notória coesão e incidiu essencialmente nas canções do segundo álbum, e ainda bem, uma vez que é o registo que contém as suas melhores composições. É o caso da brilhante "A Verdade Apanha-se Com Enganos", da serena e envolvente "Da Uma da Noite às Três da Manhã" e da não menos cativante "Monotone", não esquecendo a muito aplaudida (e dançável) "Señoritas", cujo irresistível ritmo é acompanhado por uma letra plena de fina ironia.

As letras são mesmo um dos trunfos da banda, e embora não sejam da sua autoria, pois recuperam poemas de José Luís Peixoto ou Adília Lopes, entre outros, adaptam-se sem dificuldades ao seu universo musical, sendo caracterizadas tanto por uma considerável carga subversiva ("Fé", "Bairro Velho") como por domínios de um amargurado romantismo ("Todo o Amor do Mundo Não Foi Soficiente" ou "Quando os Nossos Corpos se Separaram").

Para além das canções originais, apresentadas sem arranjos muito diferentes dos dos discos, a noite incluiu ainda pelas versões de temas de nomes tão diversos como Simone de Oliveira ("A Desfolhada"), Três Tristes Tigres ("Subida aos Céus"), Fernando Tordo ("Tourada") ou Mler Ife Dada ("Alfama"), referências que A Naifa conseguiu adaptar com convicção e todas escolhas que fazem sentido tendo em conta as idiossincrasias do projecto.

Os contactos da banda com o público não foram frequentes, mas no encore grande parte dos presentes acedeu sem reservas ao pedido de Mitó (cada vez mais uma vocalista a seguir) e dançou ao som das repetidas "A Desfolhada" e "Señoritas" (muito provavelmente a canção da noite).

Num concerto que durou pouco mais de uma hora (e que soube a pouco), A Naifa voltou a evidenciar-se como um dos mais interessantes projectos nacionais a emergir nos últimos anos, apostando em canções onde tanto a música como a palavra são um elementou vital e, juntas, traduzem uma obra actual, refrescante e genuinamente portuguesa sem olvidarem a herança do passado.
E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

A Naifa - "Monotone"

DIZ-ME O QUE CANTAS...

Quero ser amada só por mim
E não por andar enfeitada
Ser adorada mesmo assim
Careca, nua, descarnada
Engano de alma ledo e cego
Ó linda inês posta em sossego imortal
Diz adeus

Com perfumes a presa é fácil
Com jóias, casacos de peles
Gosto do amor quando é difícil
E cheiro o meu hálito reles
Quero ser amada à flor da pele
Não quero peles de vison
Amada p’lo sabor a mel
E não pela cor do baton
Engano de alma ledo e cego
Ó linda inês posta em sossego imortal
Diz adeus

Com cabeleira a presa é fácil
Há quem se esconda atrás dos pelos
Gosto do amor quando é difícil
De ser amada sem cabelos
Guero que me beijem a caveira
E o meu ossinho parietal
Que se afoguem na banheira
P’lo meu belo occipital
Engano de alma ledo e cego
Ó linda Inês posta em sossego imortal
Diz adeus

Com carne viva a presa é fácil
É ordinário e obsoleto
Gosto do amor quando é difícil
Quando me aquecem o esqueleto
Quero ser amada p’la morte
P’los meus ossos de luar
Quero que os cães da minha corte
Passem as noites a ladrar
Engano de alma ledo e cego
Ó linda Inês posta em sossego imortal
Diz adeus
Sobe aos céus
Sobe aos céus

Acima, a letra de uma das versões que A Naifa apresentou no concerto de sexta-feira. Pertence a "Subida aos Céus", canção dos Três Tristes Tigres, e foi uma excelente recordação.

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