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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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ESTREIA DA SEMANA: "HALF NELSON - ENCURRALADOS"

Esta semana chega finalmente a Portugal um dos filmes indie mais elogiados dos últimos tempos, e merecidamente. "Half Nelson - Encurralados", de Ryan Fleck, segue a cumplicidade que se forma entre um jovem professor dedicado mas toxicodependente e uma das suas alunas adolescentes que descobre o seu vício acidentalmente.
Proporcionando a Ryan Gosling uma brilhante personagem que o actor compõe com uma interpretação à altura (tornando-o num dos nomeados para os Óscares), o filme é um drama comovente sem cair em artifícios e uma muito auspiciosa primeira obra para o realizador Ryan Fleck. De entre as muitas estreias que têm proliferado nas salas ultimamente, esta será uma das poucas a não deixar passar.

Outras estreias:

"Lições de Condução", de Jeremy Brock
"Livro Negro", de Paul Verhoeven
"O Bom Pastor", de Robert De Niro
"Um Trunfo na Manga", de Joe Carnahan
"Venus", de Roger Michell
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Trailer de "Half Nelson - Encurralados"

SONHOS VENCIDOS

Segunda metade do díptico que começou com "As Bandeiras dos Nossos Pais", "Cartas de Iwo Jima" (Letters from Iwo Jima) centra-se na batalha travada entre americanos e japoneses durante a Segunda Guerra Mundial pela disputa de Iwo Jima, ilha do Pacífico, e debruça-se sobre a perpectiva dos soldados nipónicos sobre o conflito.

Ainda mais contido e lacónico do que o título anteriormente estreado, "Cartas de Iwo Jima" baseia-se nas cartas trocadas entre os militares japoneses em missão na ilha e as suas famílias que os esperavam no país-natal, oferecendo um interessante e envolvente testemunho do quotidiano da guerra e do sentimento de perda que já se sentia muito antes do momento da derrota.

Vincado por um heroísmo magoado e desencantado, este é um retrato inevitavelmente trágico das contradições humanas e dos absurdos da guerra, elaborado sem desrespeitar qualquer dos lados do conflito. Um dos momentos mais fortes do filme é mesmo quando alguns dos soldados japoneses se apercebem que partilham, afinal, mais semelhanças do que diferenças com os seus antagonistas, ainda que isso não coloque em causa o sentido da missão de que estão incumbidos.

Assente numa narrativa mais linear do que "As Bandeiras dos Nossos Pais", "Cartas de Iwo Jima" possui, à semelhança deste, uma impressionante energia cromática, com uma fotografia de tons turvos e esbatidos onde predominam camadas de cinzentos, dotando o filme de uma singular dimensão visual.
Também nas sequências de combate há paralelismos, tendo em conta a carga crua e seca com que Eastwood as filma, consolidando um realismo asfixiante que ecoa em toda a película. Fulcral para essa carga realista é a opção pelo idioma japonês, uma decisão arriscada, uma vez que esta se trata de uma obra americana, mas plenamente justificada, tornando a acção ainda mais verosímil.

No entanto, apesar de alguns momentos sublimes, "Cartas de Iwo Jima" não chega a impor-se como a notável experiência cinematográfica que se apregoa em alguns círculos e que certas sequências sugerem. É certo que se trata de um filme rigoroso, complexo e denso, mas também excessivamente longo e cuja acção não é imune a alguma redundância, contendo mesmo cenas desnecessárias e cansativas.
Apoiado num estilo demasiado contemplativo, nem sempre é capaz de gerar a tensão dramática que a história pede e acaba por se tornar arrastado a espaços, ainda que a direcção de actores (em particular Ken Watanabe e Kazunari Ninomiya) e a realização de Eastwood só mereçam elogios. Um título a descobrir, em todo o caso, ainda que longe do clássico a que poderia ascender.


E O VEREDICTO É:
3/5 - BOM

OSSOS COM BOA ESTRUTURA

Uma das bandas que revisitou o garage e o punk no início do novo milénio, os nova-iorquinos Yeah Yeah Yeahs entraram para a lista de entusiasmantes promessas com a edição de dois EPs e confirmaram ser uma banda a merecer atenção quando editaram o primeiro longa-duração, "Fever to Tell", em 2003. Directo, rude, tenso e dinâmico, foi um álbum imponente que colocou o trio, e especialmente a carismática vocalista Karen O., como porta-estandartes da geração que colheu influências na revolução sonora de finais dos anos 70 e no indie rock da década de 90.

Três anos depois, "Show Your Bones", o segundo álbum, prova que o grupo não foi apenas um curioso hype momentâneo mas é um projecto sólido e uma aposta segura, evitando repetir a receita do registo de estreia (ao contrário do que ocorreu com os Franz Ferdinand ou The Strokes) mas mantendo elementos suficientes que não desvirtuam a sua personalidade. Uma personalidade ainda em contrução, diga-se, já que ainda é muito evidente a herança de nomes como PJ Harvey, Siouxsie and the Banshees ou Sonic Youth, a que os Yeah Yeah Yeahs foram comparados desde o início. Mas esta é uma banda capaz de superar paralelismos óbvios, e seria injusto não o reconhecer quando "Show Your Bones" apresenta um conjunto de canções tão digno e cativante.


Yeah Yeah Yeahs - "Turn Into"

Mais apaziguado e sóbrio do que o seu antecessor, é um disco onde as explosões sonoras são agora a excepção e não a regra, sendo escassos os momentos de descarga de adrenalina que dominavam as composições do trio. Se isso lhes retira algum efeito surpresa e a desconcertante espontaneidade pela qual se distinguiram, permite-lhes explorar outros caminhos vincados por uma maior maturidade e apuro, tanto na sonoridade como nas letras. Também a voz de Karen O. alcança aqui outros voos, não se limitando a um registo reminiscente de outras riot grrrls e conseguindo sugerir um intimismo que já tinha dado bons resultados em ocasionais canções de "Fever to Tell", como a emblemática e sensível "Maps".

É precisamente nos momentos contidos e contemplativos que o álbum mais brilha, casos de "Dudley", uma deliciosa quase-balada, da arrepiante e amargurada "The Sweets", da não menos intensa "Warrior", onde Karen O. faz lembrar uma Courtney Love de outros tempos mais inspirados, e sobretudo de "Cheated Hearts", o tema de eleição do disco, pequeno milagre em forma de música e uma das grandes canções de 2006.

O "problema" de "Show Your Bones" é não manter sempre este nível, pois embora não tenha nenhum tema que envergonhe os seus autores também não são todos os que mantêm a fasquia tão alta. Nada que impeça a banda de superar, com distinção, o desafio do segundo álbum, algo que nos dias de hoje nem sempre é fácil de concretizar (vejam-se os exemplos dos Bloc Party ou The Killers). Se souberem evoluir como o têm feito até aqui, vale a pena esperar que os Yeah Yeah Yeahs continuem a mostrar mais de si.
 

E O VEREDICTO É:
3,5/5 - BOM