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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

A escola da vida

Um professor e uma aluna. Ele, Dan, um dedicado mas algo controverso docente de um liceu de Brooklyn que encontra na sua profissão o único ponto de equilíbrio e motivação; ela, Drey, uma estudante de uma das suas turmas, que apesar de ainda estar a entrar na adolescência já sofreu a dor de um pai ausente e de um irmão preso por tráfico de droga.
Entre os dois começa a consolidar-se uma afinidade gerada pela partilha de um segredo - ela encontra-o a inalar droga numa das casas-de-banho da escola - e esta atípica ligação vem tirar algum espaço à solidão e desorientação que marca o dia-a-dia de ambos.

A partir desta premissa simples, mas muito bem aproveitada, "Half Nelson - Encurralados" oferece um complexo e absorvente estudo de personagens ancorado em dois desempenhos notáveis, que catapultam os protagonistas para a lista de actores a ter em conta: Shareeka Epps, uma jovem revelação que surpreende pela expressão de serenidade magoada, e sobretudo Ryan Gosling, actor que já tinha dado provas de talento em títulos como "Crimes Calculados" ou "Stay" mas que oferece aqui uma interpretação quase inexcedível.


Na pele de um homem cujo idealismo é cada vez mais um refúgio de curta duração, Gosling emana raiva, entusiasmo, desencanto, esperança e frustração ao longo de um quotidiano que lhe proporciona escassos pontos de fuga. O mais recorrente acaba por ser a cocaína, da qual se torna indissociável e cuja dependência começa a ameaçar a sua conduta como professor.

 
Aproximando-se da espontaneidade e vibração de um Edward Norton mais jovem, Gosling é sem dúvida o grande trunfo de "Half Nelson - Encurralados", tendo sido justamente nomeado para o Óscar de Melhor Actor Principal por este desempenho.
 

 
Felizmente, o filme tem ainda outras mais-valias, não se esgotando num one man show mas conseguindo enveredar por caminhos ardilosos sem nunca escorregar para um tentador moralismo, cenas de choque gratuito ou um choradinho auto-indulgente assente no triste fado do junkie. Aqui, reconheça-se o mérito de Ryan Fleck, realizador (estreante) e co-argumentista que conduz a sua obra com mão segura e consegue injectar-lhe uma contínua densidade emocional, criando um retrato sóbrio, inteligente e comovente de um jovem adulto incapaz de reestruturar a sua vida mas que tenta, ainda assim, impedir que a sua aluna caia na mesma espiral.


Fleck apresenta uma palpável atmosfera urbana com um acentuado recorte realista, apoiando-se num sólido trabalho de realização, numa outonal fotografia de tons turvos e na escolha de uma determinante (e viciante) banda-sonora, servida pelos Broken Social Scene. Nada mal para uma primeira obra de baixo orçamento, uma das mais estimulantes do cinema independente norte-americano dos últimos tempos e que, por isso mesmo, não merece ficar perdida no meio dos muitos títulos que vão estreando.

 

E O VEREDICTO É:
4/5 - MUITO BOM




 

 


Broken Social Scene - "Stars and Sons"

 

UM ADMIRÁVEL MUNDO NOVO DE ESCAPISMO

Terceiro romance de Michael Chabon, "As Espantosas Aventuras de Kavalier & Clay" (The Amazing Adventures of Kavalier & Clay) foi o que proporcionou ao escritor norte-americano ganhar o Pulitzer em 2001 na categoria de ficção, cimentando a boa reputação iniciada em "The Mysteries of Pittsburgh" (1988) e continuada em "Prodígios" (Wonder Boys, de 1995), este último adaptado para cinema por Curtis Hanson.


 

O livro alicerça-se na relação de amizade de dois primos que partilham a paixão pela banda-desenhada e acabam por se tornar numa das principais duplas criativas do género, durante os anos 40. Sam Clay, adolescente residente em Brooklyn, Nova Iorque, recebe uma noite a visita inesperada do seu primo checo que desconhecia, Joe Kavalier, cuja ascendência judia o obrigou a fugir de Praga, controlada pelas tropas nazis durante o início da Segunda Guerra Mundial. Se o primeiro teve até então uma vida pacata na companhia da sua mãe e, esporadicamente, do pai, o segundo foi o único elemento da sua família nuclear que conseguiu emigrar, após uma série de episódios arriscados, mas tem ainda a esperança de conseguir trazer para os Estados Unidos, pelo menos, o seu irmão mais novo.

Apesar de personalidades e vivências díspares, os dois jovens rapidamente travam uma amizade que os interligará durante anos, em parte motivada pela paixão que nutrem pela nona arte e pela parceria profissional que esse gosto comum os leva a gerar. Sam toma a seu cargo os argumentos, Joe ocupa-se do desenho e essa simbiose permite-lhes criar uma série de personagens mediáticas, a maior delas O Escapista, um dos muitos super-heróis que surgiram depois do sucesso de vendas do Super-Homem.

Através do percurso e crescimento dos seus dois protagonistas, "As Espantosas Aventuras de Kavalier & Clay" traça uma envolvente perspectiva sobre as contrariedades do american dream, centrando-se na evolução da cultura popular das últimas décadas, com especial incidência nos comics e no papel que os seus heróis adquiriram durante o Holocausto.
Genuína e cativante ode à capacidade de evasão que esta amálgama de artes gráficas e literárias proporcionou durante a Era Dourada, proporciona uma interessante análise às singularidades deste meio e ao contexto do seu surgimento.

Chabon impressiona pela riqueza histórica palpável ao longo do livro, fruto de uma longa pesquisa onde contactou com muitos argumentistas e artistas que iniciaram as suas carreiras na época, casos de Will Eisner (autor de "Spirit") ou Stan Lee (talvez o mais emblemático criador da Marvel Comics), entre muitos outros.
O escritor baseou-se nestes relatos para desenvolver a história de Joe e Sam, em especial os momentos que se referem aos bastidores editoriais, alguns dos que emanam maior verosimilhança ao longo da acção. Paralelamente, evoca outras figuras reais como Fredric Wertham, o psicólogo cujo livro "Seduction of the Innocent" desencadeou uma caça às bruxas que quase conduziu ao fim dos comics - devido, sobretudo, às supostas conotações sexuais que estes continham, por exemplo na relação "ambígua" entre Batman e Robin - ou Orson Welles, cujo trabalho na realização ajudou a redifinir os cânones da estrutura das pranchas.

No entanto, o livro não se esgota na exploração da natureza da banda-desenhada e oferece um olhar sobre a realidade americana - particularmente a nova-iorquina - da década de 40, focando ainda questões como o tratamento dos judeus, o núcleo familiar ou a homossexualidade, elementos que, com maior ou menor incidência, entrecruzam o caminho dos dois protagonistas.

Michael Chabon com as 'action figures' de Batman, Lanterna Verde e Super-Homem

Chabon nem sempre consegue equilibrar a gestão de tamanha diversidade ao longo das mais de 600 páginas, pois por vezes a acção torna-se demasiado dispersa e há capítulos que se prolongam para além do necessário (como o de Joe na Antárctida). O espaço dado a cada um dos protagonistas também é desequilibrado, uma vez que Sam é uma personagem menos presente do que Joe, embora talvez mais interessante devido aos conflitos com a sua sexualidade, à forma ambivalente com que encara a BD ou à solidão de que não parece conseguir escapar.

 
"As Espantosas Aventuras de Kavalier & Clay" pode nem sempre conseguir despertar o mesmo entusiasmo, mas nunca se torna previsível ou banal e é resultado de uma evidente paixão do escritor pelas personagens e dedicação aos temas focados. Apresentando uma sólida densidade dramática e uma imaginativa mistura de realismo e fantasia através de uma escrita acessível, embora exigente, é um livro especialmente recomendável a amantes da nona arte mas não deixa de possuir atributos capazes de seduzir um público mais abrangente.

Chabon viria a alargar a sua proximidade com os comics ao assinar o argumento de "Homem-Aranha 2", de Sam Raimi, não por acaso um dos poucos filmes de super-heróis dos últimos anos que funciona plenamente enquanto delicioso e irresistível escapismo. Resta esperar que semelhante impacto se registe caso "As Espantosas Aventuras de Kavalier & Clay" chegue a ser adaptado para cinema - com realização a cargo de Stephen Daldry ("Billy Elliot", "As Horas") -, mas mesmo que tal não aconteça, a (re)descoberta do livro será sempre uma hipótese bastante recomendável.

 

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

ESTREIA DA SEMANA: "O LABIRINTO DO FAUNO"

Estreia esta semana o muito elogiado "O Labirinto do Fauno" (El Laberinto del Fauno), nomeado para seis Óscares e vencedor de três (Melhor Direcção Artística, Melhor Fotografia e Melhor Caracterização). Depois de títulos como "Blade 2" ou "Hellboy", Guillermo del Toro apresenta aqui o filme que muitos consideram ser já a sua obra-prima, e há mesmo quem diga que é o melhor conto de fadas para adultos desde "Eduardo Mãos de Tesoura", de Tim Burton. Questões a esclarecer a partir de hoje.

Outras estreias:

"Dreamgirls", de Bill Condon
"Diário de um Escândalo", de Richard Eyre


Trailer de "O Labirinto do Fauno"

Pág. 5/5