Mesmo antes da estreia, "O Caimão" (Il Caimano) era já alvo de alguma controvérsia por se tratar de uma suposta sátira a Silvio Berlusconi, e a dúvida prendia-se com o facto de saber qual seria a abordagem empregue por Nanni Moretti na sua perspectiva sobre o ex-primeiro-ministro italiano.
Ora, apesar desse ter sido o motivo pelo qual o filme gerou mais burburinho, comprova-se agora que esta está longe de ser uma obra que se reduza a uma arma de arremesso, não se centrando somente na crítica a uma figura política uma vez que conta com um argumento que engloba muitos outros elementos. Demasiados, talvez, porque esta história sobre Bruno Bonomo, um produtor de filmes de série-Z em crise - não só profissional como familiar - que encontra na parceria com uma jovem realizadora o impulso para dar um novo sentido à sua vida perde-se constantemente em indecisões e contrastes de tom.
Moretti tanto investe nos dilemas do drama conjugal do seu protagonista como nos episódios dos bastidores cinematográficos que preenchem o dia-a-dia deste, não deixando, claro, de oferecer um olhar sobre Berlusconi, que não por acaso é a figura sobre a qual o filme-denúncia de Bruno se debruça (e aqui entra a lógica de "filme-dentro-do-filme").
Muito para condensar numa só obra? A julgar pelo resultado de "O Caimão", sim, já que esta oscilação entre o retrato da crise da meia idade, do declínio do cinema italiano e das convulsões políticas e sociais da Itália dos últimos anos nunca atinge um ponto de equilíbrio, desperdiçando as potencialidades de um filme que raramemente entusiasma. O problema nem é só a dispersão do argumento, uma manta-de-retalhos que foca questões relevantes sem as desenvolver convenientemente, antes o facto de "O Caimão" falhar tanto quando tenta a comédia como o drama, tornando-se num objecto cada vez mais indiferente e arrastado e que convida ao bocejo durante as suas duas (longas) horas de duração. Face a estes desapontantes predicados, de pouco serve a competência do elenco, desperdiçado num filme sisudo e sem chama.
Moretti faz da tensa e angustiante situação do seu protagonista um eco dos sintomas que afectam a Itália de hoje, que de acordo com o filme se encontra imersa num contexto de hesitações - perdida, desnorteada e descaracterizada. Ironicamente, estes são também males de que "O Caimão" acaba por sofrer.
(Post "um pouco" atrasado, eu sei, mas não queria deixar estas escolhas de fora...)
2006 foi um ano de muitos bons filmes, mas poucos realmente marcantes e perto da excelência (ao contrário de 2005, por exemplo, quanto a mim com mais obras acima da média). Dos 145 que vi no cinema - não incluindo os que só foram exibidos em festivais - estes foram os meus preferidos:
1 - «Voltar»- tudo sobre as mães delas Longe do negrume claustrofóbico do anterior (e brilhante) "Má Educação", Almodóvar regressou com um filme que, se infelizmente não gerou o consenso de um "Tudo Sobre a Minha Mãe", não deixa de figurar entre os melhores momentos da sua filmografia. Comovente, sensível e maduro como poucos, "Voltar" é um prodígio a todos os níveis, da apurada realização ao sólido argumento, embora o maior destaque vá para o elenco, mais uma vez irrepreensível. Que o diga Penélope Cruz, actriz irregular que aqui arranca, provavelmente, o seu melhor desempenho de sempre, na pele da memorável Raimunda.
2 - «Munique» - guerra e paz Algumas obras recentes de Steven Spielberg ("Relatório Minoritário", "Guerra dos Mundos") têm sido contaminadas por interessantes zonas de sombra, mas em "Munique" esse carácter soturno vai mais além. Partindo do atentado nos Jogos Olímpicos de 1972 para propor um olhar complexo e inquietante sobre o conflito israelo-árabe e, em última instância, sobre a ambiguidade humana, "Munique" não se limita a lançar bases de reflexão, pois é também um thriller feito com um profissionalismo ímpar e um drama implacável, dispensando facilitismos hollywoodescos. E um dos grandes filmes do ano.
3 - «O Segredo de Brokeback Mountain» - amor e ovelhas Um dos mais mediáticos filmes de 2006, este é igualmente um dos mais estimulantes, confirmando não só a versatilidade de Ang Lee, realizador que raramente desaponta independentemente do registo em que se mova, como a dos seus dois protagonistas: Jake Gyllenhaal e Heath Ledger. Se as capacidades interpretativas do primeiro actor não são novidade, as do segundo revelam-se aqui como nunca antes, e juntos construíram uma das mais dolorosas e pungentes histórias de amor vistas no grande ecrã durante o ano.
4 - «Match Point» - o jogo O percurso recente de Woody Allen parecia colocá-lo entre os cineastas seguros e confiáveis, mas já pouco inovadores, limitando-se a repisar territórios que lhe proporcionaram, noutros tempos, epítetos mais auspiciosos. Com "Match Point", contudo, tudo muda. A acção passa de Nova Iorque para Londres, a omnipresente Scarlett Johansson recebe o título de nova musa e o filme apresenta uma elegância e engenho como há muito não se via na obra do realizador. Eis um regresso surpreendente.
5 - «A Senhora da Água» - o ilusionista Não era fácil superar "A Vila", o filme anterior de M. Night Shyamalan e o mais belo que realizou. Ainda não é "A Senhora da Água" que consegue fazê-lo, mas a espaços este conto de fadas para adultos está lá muito perto, evidenciando o perfeccionismo e a singular sensibilidade que distinguem o jovem realizador no cinema actual. Recheado de sequências de antologia com algumas das mais inesquecíveis imagens do ano (enriquecidas pela excelente banda-sonora de James Newton Howard ), o filme gerou reacções extremas mas, para quem estiver disposto a compreendê-lo, fica como um dos melhores momentos de uma filmografia irregular, mas muito interessante.
6 - «O Tempo Que Resta» - a última hora Já se suspeitava que François Ozon era um realizador a ter em conta, mas até agora ainda não tinha apresentado um filme tão envolvente e memorável como "O Tempo que Resta". Belo e sóbrio drama sobre os últimos dias de um jovem fotógrafo confontado com uma doença mortal, possibilitou também a Melvil Poupaud uma das interpretações mais comoventes do ano. A melhor surpresa do cinema francês de 2006 mora aqui.
7 - «Shooting Dogs — Testemunhos de Sangue» - África deles No mesmo ano em que levou às salas a malograda sequela de "Instinto Fatal", Michael Caton-Jones gerou também "Shooting Dogs — Testemunhos de Sangue", obra que compensa em falta de mediatismo o que oferece em densidade e acutilância. Propondo um olhar sobre o contexto conturbado do Ruanda, é um filme de uma rara intensidade e realismo, fugindo das armadilhas que facilmente surgem quando Hollywood decide abordar situações que vitimam países do terceiro mundo. A (re)descobrir.
8 - «Em Paris» - o meu irmão, eu e o meu irmão "Minha Mãe" já tinha provado que Christophe Honoré era um nome a ter debaixo de olho, e "Em Paris" felizmente confirma-o. Nos antípodas do filme antecessor, este é um drama familiar que incide em particular na relação de dois irmãos, interpretados por dois dos mais talentosos jovens actores franceses: Romain Duris e Philippe Garrel. Experimental mas longe de hermética, "Em Paris" é uma obra inspirada e calorosa, deixando muita curiosidade quanto ao próximo tabalho do realizador francês.
9 - «O Paraíso, Agora!» - coragem debaixo de fogo Inesperada surpresa oriunda da Palestina, este é um retrato de dois terroristas suicidas saturados das consequências que o conflito traz ao seu quotidiano. Hany Abu-Assad convence por nunca simplificar as situações e personagens, apresentando um filme com figuras tridimensionais em vez de estereótipos. A direcção de actores é fundamental, e o protagonista Kais Nashef, até aqui desconhecido, é mesmo responsável por uma das interpretações mais impressionantes do ano.
10 - «Ninguém Sabe» - irmãos inseparáveis Modesto, mas magnético, este drama centrado em quatro pequenos irmãos que têm de sobreviver sozinhos na ausência da mãe é a primeira obra de Hirokazu Kore-eda a estrear em salas nacionais. Infelizmente, porque a julgar pela subtileza com que o realizador consegue desenhar prosaicas cenas do dia-a-dia, a par de uma forte densidade emocional, fazem dele um cineasta que não merece passar despercebido entre os muitos do novo cinema japonês.