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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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AS NOITES DE BUDAPESTE

Estreia da húngara Ágnes Kocsis na realização, "Fresh Air" (Friss Levegö) é um drama taciturno e desencantado protagonizado por duas mulheres, Viola e Angéla, respectivamente mãe e filha que vivem juntas mas mantêm uma relação difícil. Viola é empregada de limpeza de uma casa de banho pública, e essa ocupação talvez esteja na origem do escasso contacto entre ela e Angéla, que ambiciona ser estilista e tem vergonha do emprego da mãe.

Marcadas por um dia-a-dia pouco auspicioso num bairro pobre e cinzento de Budapeste, as duas só se encontram para assistir à série televisiva "O Polvo", e durante o resto do tempo a mãe procura nos encontros com homens um escape à medida que a filha vai iniciando as suas relações amorosas.

Apesar de se sugerir estimulante, pelo retrato de uma realidade precária pouco mostrada e de conter, por isso, bases para uma considerável tensão dramática, "Fresh Air" nunca chega a arrancar, perdendo-se em múltiplos episódios quotidianos de interesse váriável que nunca geram um tronco narrativo coeso.

Preso a um ritmo demasiado lento e caracterizado por escassos diálogos, o filme tem pouco para oferecer além de ocasionais planos inspirados - nota-se que Kocsis tem talento para os enquadramentos - e das seguras, ainda que muito contidas, interpretações das protagonistas. A fotografia de tons esbatidos e turvos realça a carga lacónica do argumento minimalista, mas esta competência técnica não chega para impedir que "Fresh Air" seja um filme frustrante e insosso.

Não se justificam, assim, as ambiciosas duas horas de duração, uma vez que não há aqui substrato que as sustente, e o filme provavelmente só ganharia se tivesse sido uma média metragem.
De resto, a temática não só não traz nada de novo como já foi trabalhada de forma mais interessante noutras películas, caso do recente "Filha da Guerra", de Jasmila Zbanic, onde uma mãe e uma filha de um subúrbio da Europa de leste também mantinham uma relação conturbada. Sobram, então, poucos motivos para que "Fresh Air" se imponha enquanto uma experiência cinematográfica recomendável, já que de refrescante só tem mesmo o título.

E O VEREDICTO É: 1,5/5 - DISPENSÁVEL

"Fresh Air"
é uma das obras em competição na quarta edição do IndieLisboa

CALMA DE MORTE

Obra com tanto de meticuloso como de inóspito, "Le Dernier des Fous", de Laurent Achard, é o retrato da solidão de uma criança da França rural que observa silenciosamente o progressivo desmoronar da sua família.
Com uma mãe recolhida no quarto devido a problemas psiquiátricos, um pai distante que recusa aceitar o presente e uma avó austera e manipuladora, o protagonista apenas encontra algum calor emocional na dedicada empregada, figura que vai impedindo o derradeiro colapso da família, e no seu irmão mais velho, que contudo entra em crise ao descobrir que o namorado vai casar.

Achard não poupa as personagens nem o espectador, e por detrás de um ritmo pausado mas magnético e das tranquilas paisagens bucólicas esconde-se uma claustrofobia psicológica por vezes difícil de digerir, dado o desespero que toma conta das personagens.

"Le Dernier des Fous" não é, contudo, um mero filme-choque, antes um tristíssimo relato de uma infância frágil e desamparada, onde o amor vai estando presente mas é sufocado pela vertigem da loucura (que assume aqui várias formas).

É quase impossível sair incólume perante a indiferença com que o pequeno Martin vai sendo tratado, não só por parte dos seus familiares mas pelo facto de não ter mais ninguém que o acolha - a sua única amiga, um pouco mais velha, também acaba por ignorá-lo ao preferir a companhia de rapazes da sua idade.
Julien Cochelin, o jovem actor que encarna o protagonista, apresenta um desempenho memorável, compondo uma personagem que de tão recatada e circunspecta adquire por vezes uma inquietante aura sorumbática. Pascal Cervo, no papel de irmão mais velho, é também irrepreensível e oferece algumas das cenas mais intensas do filme. Os momentos entre os dois resultam especialmente bem, tanto nas comoventes cenas em que Martin ouve histórias do irmão como nos episódios mais conflituosos.

"Le Dernier des Fous" é uma obra rigorosa e violenta que evidencia o talento de um núcleo de actores seguros e sobretudo de um realizador capaz de sustentar um desarmante olhar clínico, expondo uma secura dramática que não faz deste um filme de fácil adesão mas cuja solidez também não deixa de gerar admiração.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

"Le Dernier des Fous"
está em competição na quarta edição do IndieLisboa e é exibido hoje às 16 horas no King

O TEMPO QUE RESTA

Terrence Malick e Gus Van Sant são nomes a que o sueco Jesper Ganslandt tem sido comparado pela sua primeira longa-metragem, "Falkenberg Farewell", e percebe-se porquê, uma vez que este olhar sobre um grupo de pós-adolescentes de uma pequena localidade sueca possui uma carga contemplativa e poética não muito distante da que predomina nos trabalhos desses cineastas.

No entanto, se formalmente há algumas semelhanças, o jovem realizador não apresenta trunfos que o façam obter, pelo menos por enquanto, um estatuto à altura do já conquistado por esses dois autores. Não que este seja um filme desprovido de qualidades, já que consegue moldar um retrato por vezes sedutor e encantatório do dia-a-dia de um grupo de amigos que, após os estudos, aproveitam um último Verão antes da entrada decisiva na vida adulta os catapultar para outros rumos.

Ganslandt cruza um cru e directo realismo, ocasionalmente quase documental, com sequências de considerável carga onírica, de que resulta um ambiente etéreo e não raras vezes nostálgico que dá provas de uma sensibilidade apurada. Recorrendo também a imagens de arquivo, o realizador aborda aqui os últimos dias em que as suas personagens ainda estão ligadas à infância e aproveitam para viver ao máximo uma fase de relativa despreocupação, que contudo exibe já sinais de um desencanto que ameaça alastrar-se num futuro próximo.

Dominado por amizades sinceras e larger than life, "Falkenberg Farewell" mergulha no universo masculino e fornece uma perspectiva intimista do companheirismo de um grupo de amigos - em especial da próxima relação de dois destes -, desenvolvendo uma narrativa sem um fio condutor definido que agrega episódios soltos. Esta estrutura, intrigante nos primeiros minutos, acaba por se tornar pouco motivadora por apresentar situações que, de tão banais, suscitam indiferença e algum cansaço.
É certo que tal opção dota a película de um verismo conseguido, onde a plausibilidade não é posta em causa, mas até ao momento em que um acontecimento decisivo altera o percurso de uma das personagens, "Falkenberg Farewell" decorre sem despertar especial entusiasmo.
Infelizmente, essa sequência surge já tarde demais, e ainda que seja responsável pelo momento dramaticamete mais forte do filme, não chega para que o resultado global conquiste por completo.
É pena, pois a espontaneidade das interpretações ou a admirável banda-sonora de Erik Enocksson mereciam ser melhor aproveitadas, mas embora façam parte de uma obra desequilibrada não convém desprezar o potencial que Jesper Ganslandt exibe aqui - apenas se espera que surja com maior solidez nos próximos trabalhos.


E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL


"Falkenberg Farewell"
é uma das obras em competição na quarta edição do IndieLisboa

NOITES SUBURBANAS

A proposta não parece, à partida, trazer nada de novo: relatar o quotidiano de um grupo de jovens dos subúrbios entre o fim da adolescência e o início da idade adulta, que enquanto se decidem quanto ao seu futuro vão aceitando empregos em restaurantes de comida rápida ou clubes de vídeo. Esta premissa tanto poderia ser a do livro "Geração X" de Douglas Coupland ou a do filme "Slacker" de Richard Linklater, entre outros exemplos, mas no caso trata-se da de "Analog Days", estreia na realização do norte-americano Mike Ott.

Longe de contar com um ponto de partida especialmente inovador, o filme tem a pequena proeza de contar com uma frescura e genuinidade que nem sempre têm estado presentes em muito cinema indie dos últimos tempos, optando por uma abordagem singular, sensível e complexa de temas recorrentes.

"Analog Days" foca pequenos episódios, decorridos ao longo de vários meses, das vidas de várias personagens de uma pequena cidade da Califórnia. Não encontrando respostas para as suas inquietações num sistema de ensino demasiado limitado e muito menos em jogos políticos manipuladores, os protagonistas encontram refúgios temporários na música, uns nos outros ou em empregos precários à espera de melhores dias, que de mês a mês parecem nunca chegar.

Ott tem a difícil habilidade de definir personagens em poucos minutos, e mesmo que algumas não saiam do estereótipo - o que é compreensível, dado o extenso elenco -, as mais determinantes são figuras tridimensionais com as quais é fácil sentir empatia, ou não fosem as suas dúvidas e problemas tão próximos das de tantos outros. Marcado por uma atmosfera melancólica, mas nunca depressiva ou niilista, "Analog Days" deixa na memória algumas cenas peculiares como uma reveladora conversa à volta da fogueira, provocações numa mesa de café ou uma mais decisiva, sendo repetida e usada como gancho narrativo, em que um amigo cumprimenta outro mas já não o reconhece.

Fulcral para a acção, a óptima banda-sonora inclui canções de muitos nomes recomendáveis - Interpol, Elliot Smith, Joy Division ou Derek Fudesco dos Pretty Girls Make Graves -, mas é "So Here We Are", dos Bloc Party, a que mais brilha, sendo um elemento-chave para que a recta final do filme contenha um sentido de urgência tão belo e envolvente. "Analog Days" pode ter as suas fragilidades, de resto naturais numa primeira obra - o baixo orçamento é evidente num trabalho de realização por vezes amador -, mas sequências de antologia como esta, dominadas por uma fortíssima densidade emocional, permitem compensá-las largamente e tornar o filme numa estreia irresistível, cheia de alma e muito promissora.

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

"Analog Days"
é uma das obras em competição na quarta edição do IndieLisboa e é exibida hoje às 19h no Fórum Lisboa

Os amantes irregulares

Após poucos minutos de filme, quando os dois se protagonistas se conhecem num bar, surgem comparações quase inevitáveis com o díptico "Antes do Amanhecer"/"Antes do Anoitecer" , de Richard Linklater, dada a espontaneidade da dupla de actores e o realismo dos diálogos, que em certos momentos se estendem por vários minutos.
Mas não é só por aqui que "The Hottest State", segunda longa-metragem do actor/escritor/realizador Ethan Hawke (inspirada no seu livro homónimo), exibe paralelismos com dois dos filmes que mais o notabilizaram, uma vez que este seu projecto é também um espelho das ambições, receios e contradições de jovens adultos que não querem estar sozinhos mas cuja vida a dois surge sempre ameaçada por hesitações e reavaliações.

A abordagem de Hawke, embora não esteja imune a comparações com a de Linklater, é contudo suficientemente distinta para que "The Hottest State" seja um filme com identidade própria, denunciando um considerável talento na escrita e na realização. Se por um lado não oferece nada de inédito depois de tantos outros retratos das vidas de jovens de vinte e poucos anos, a película consegue envolver pela densidade emocional que vai adquirindo, desenhando a história de um casal de forma credível e sensível.

Neste caso, o duo é formado por um jovem actor e uma aspirante a cantora que, após uma relação à partida idílica que nasce repentina e inesperadamente, têm de lidar com o colapso e enfrentar os contrangimentos de uma eventual reaproximação. Mark Webber e Catalina Sandino Moreno obtêm aqui dois desempenhos convincentes, ele aliando impulsividade e fragilidade, ela equilibrando-o com a maturidade e subtileza que já demonstrara em "Maria Cheia de Graça" ou "Geração Fast-Food". O elenco vale também pelos secundários, que incluem o próprio Ethan Hawke, a sempre segura Laura Linney, aqui com a classe habitual, e a brasileira Sónia Braga, responsável por algumas das cenas mais divertidas do filme.

A quase omnipresente banda-sonora reforça as qualidades do projecto, contando com nomes como Cat Power, Bright Eyes, Emmylou Harris, Brad Mehldau ou Feist, cujas canções folk/indie/alternative country não poderiam ser mais apropriadas para uma história que decorre entre o Texas, o México e Nova Iorque.
Drama agridoce e idealista q.b., "The Hottest State" chega a ser também, à semelhança dos seus protagonistas, algo pueril e imberbe a espaços, características que não chegam no entanto a sobrepor-se aos méritos de uma obra que ofecere uma sinceridade e entrega acima da média.
 

E O VEREDICTO É:
3,5/5 - BOM
 

"The Hottest State"
é uma das obras da secção "Observatório" do IndieLisboa e é exibida dia 25 de Abril às 16 horas no Fórum Lisboa