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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

A PRAIA

Filmes com historias entrecruzadas, além de não serem novidade, passaram mesmo a ser uma tendência desde que "Magnólia", de Paul Thomas Anderson, revelou a muitos as potencialidades dessa opção (já desbravadas, anos antes, por Robert Altman).
"Drama/Mex", segunda longa-metragem do mexicano Gerardo Naranjo Gonzalez, é mais um título que adopta essa estrutura, se bem que a referência mais próxima até será "Amor Cão", do conterrâneo Alejandro González Iñárritu, com o qual o filme exibe algumas afinidades. Este retrato de uma noite em Acapulco tem, contudo, uma narrativa menos circular do que a primeira obra do realizador de "Babel" e o tom, embora seja o de um drama com os nervos à flor da pele, é menos amargurado e angustiante.

"Drama/Mex" possui ainda algumas das características pelas quais o recente cinema sul-americano se tem distinguido - nomeadamente obras de Alfonso Cuarón ou Fernando Meirelles -, ao mergulhar num realismo cru e sujo reforçado pelo recurso à câmara à mão, à fotografia de imagem granulada ou à filmagem digital. Os actores, todos jovens sem qualquer experiência interpretativa exceptuando um dos protagonistas (o de meia idade), são vibrantes e credíveis nos seus desempenhos, agarrando-se com intensidade às personagens e adensando a pulsão verista dos espaços e do argumento.

Crónica de amores intermitentes, gastos, inesperados ou desencontrados, o filme segue duas linhas narrativas: a de um triângulo amoroso onde uma jovem rica não consegue decidir-se entre o actual namorado ou o anterior, que regressa sem aviso; e a de um pai de família seduzido pelo suicídio mas que, ao refugiar-se num hotel à beira-mar, conhece uma irreverente adolescente que dá novo fôlego à sua rotina. As histórias, que se desenrolam nos mesmos espaços, contém apenas ligações ténues e desenvolvem-se de forma independente, ainda que ambas contenham personagens cujo presente é hesitante e o impulso surge como meio de resposta a um futuro incerto.

"Drama/Mex" pode não inovar muito face à matriz presente em muitas das obras provenientes das mesmas origens, mas isso não invalida que se trate de um filme de méritos evidentes, sendo suficientemente imprevisível, vivo e espontâneo. E isso já basta para o colocar num patamar acima da mediania.


E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM


"Drama/Mex"
é um dos títulos em competição na quarta edição do IndieLisboa

AS NOITES DE BUDAPESTE

Estreia da húngara Ágnes Kocsis na realização, "Fresh Air" (Friss Levegö) é um drama taciturno e desencantado protagonizado por duas mulheres, Viola e Angéla, respectivamente mãe e filha que vivem juntas mas mantêm uma relação difícil. Viola é empregada de limpeza de uma casa de banho pública, e essa ocupação talvez esteja na origem do escasso contacto entre ela e Angéla, que ambiciona ser estilista e tem vergonha do emprego da mãe.

Marcadas por um dia-a-dia pouco auspicioso num bairro pobre e cinzento de Budapeste, as duas só se encontram para assistir à série televisiva "O Polvo", e durante o resto do tempo a mãe procura nos encontros com homens um escape à medida que a filha vai iniciando as suas relações amorosas.

Apesar de se sugerir estimulante, pelo retrato de uma realidade precária pouco mostrada e de conter, por isso, bases para uma considerável tensão dramática, "Fresh Air" nunca chega a arrancar, perdendo-se em múltiplos episódios quotidianos de interesse váriável que nunca geram um tronco narrativo coeso.

Preso a um ritmo demasiado lento e caracterizado por escassos diálogos, o filme tem pouco para oferecer além de ocasionais planos inspirados - nota-se que Kocsis tem talento para os enquadramentos - e das seguras, ainda que muito contidas, interpretações das protagonistas. A fotografia de tons esbatidos e turvos realça a carga lacónica do argumento minimalista, mas esta competência técnica não chega para impedir que "Fresh Air" seja um filme frustrante e insosso.

Não se justificam, assim, as ambiciosas duas horas de duração, uma vez que não há aqui substrato que as sustente, e o filme provavelmente só ganharia se tivesse sido uma média metragem.
De resto, a temática não só não traz nada de novo como já foi trabalhada de forma mais interessante noutras películas, caso do recente "Filha da Guerra", de Jasmila Zbanic, onde uma mãe e uma filha de um subúrbio da Europa de leste também mantinham uma relação conturbada. Sobram, então, poucos motivos para que "Fresh Air" se imponha enquanto uma experiência cinematográfica recomendável, já que de refrescante só tem mesmo o título.

E O VEREDICTO É: 1,5/5 - DISPENSÁVEL

"Fresh Air"
é uma das obras em competição na quarta edição do IndieLisboa