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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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ESTREIA DA SEMANA: "A RAPARIGA MORTA"

A melhor estreia da semana, e certamente uma das mais recomendáveis deste Verão, "A Rapariga Morta" (The Dead Girl) é a segunda longa-metragem de Karen Moncrieff, realizadora de alguns episódios da série "Sete Palmos de Terra" e de uma primeira obra, "Blue Car", que passou quase despercebida.
O filme, bem mais interessante do que o antecessor, cruza cinco histórias que em comum têm a personagem que inspira o título, proporcionando um drama sobre a morte e o universo feminino que, além de um argumento bem explorado, inclui um elenco exemplar onde constam Toni Collette, Brittany Murphy, Marcia Gay Harden ou James Franco. A não perder.

Outras estreias:

"Die Hard 4.0 - Viver ou Morrer", de Len Wiseman, o surpreendente regresso de John McLane num muito aceitável filme de acção
"Querida Wendy", de Thomas Vinterberg, desapontante abordagem ao livre porte de arma nos EUA, com (mau) argumento de Lars Von Trier



Trailer de "A Rapariga Morta"

GOLPE BAIXO

Há quem defenda “Ocean’s 13” suportando-se nos créditos de Steven Soderbergh, artesão camaleónico que tem cimentado uma filmografia assente numa multiplicidade de registos. Deve-se a ele a coolness que afasta este de muitos outros blockbusters de Verão, em parte pelo seu aprazível trabalho de realização, com enquadramentos imaginativos que não caem na monotonia; pela banda-sonora de David Holmes, que se conjuga eficazmente com as imagens; e claro, pelo elenco, um autêntico who’s who de algumas das caras mais carismáticas de Hollywood.

Ora, se todos estes elementos podem ser contributos valiosos para que daqui saia um filme pelo menos interessante, “Ocean’s 13” acaba por ser um lamentável tiro ao lado, já que apenas desperdiça recursos e nem sequer consegue oferecer os mínimos de entretenimento. Nada que não pudesse apontar-se já ao título que iniciou a série, “Ocean’s 11”, seguramente um dos mais sobrevalorizados dos últimos anos; e ao segundo regresso a saga mostra que é um claro exemplo onde o estilo esmaga a substância, e o que no primeiro filme poderia aceitar-se como relativamente refrescante descarrila aqui para um frustrante modo de piloto automático.

Ao contrário do que o percurso “autoral” de Soderbergh poderia sugerir, “Ocean’s 13” é um daqueles produtos que contribui para que os blockbusters sejam encarados com desconfiança por muitos, objectos rasos e preguiçosos, tendencialmente esquecíveis. Não vem nenhum mal ao mundo do facto deste ser um filme leve e despretensioso, mas à medida que a acção se vai desenrolando a falta de chama vai sendo cada vez mais evidente, não havendo entusiasmo nem na narrativa nem nos actores.
Destes, Clooney e Pitt trocam algumas linhas de diálogo razoavelmente divertidas, o problema é que já seriam poucas para sustentar um sketch e mostram-se ainda mais insuficientes para que se aguente todo o filme sem olhar para o relógio. De resto, todos os actores parecem apenas figurantes e mal chegam a ser esboçadas caricaturas, tanto que ao pé disto um filme de Michael Bay é um prodígio de construção de personagens e densidade dramática (agora a sério, o maltratado “A Ilha” é francamente superior a este banal heist movie).

Dizer que o argumento é esquemático talvez seja um eufemismo, uma vez que o filme propõe uma história de vingança, desprovida de qualquer intensidade, em que o gang de Danny Ocean sabota a inauguração de um casino. Soderbergh não resiste a debitar todo o plano dos protagonistas, perdendo largos minutos em estratégias fastidiosas que apenas entopem a narrativa e debilitam o ritmo, e nem as novas presenças do elenco, Al Pacino e Ellen Barkin, trazem especiais mais-valias, sujeitando-se ao papel de marionetas da acção.

Em última instância, a campanha de marketing sustentada nos muitos nomes mediáticos faz com que tudo valha a pena para a equipa do filme, já que o interesse artístico de “Ocean’s 13” é inversamente proporcional ao comercial. Só é pena que, nesse processo, um espectador com alguma exigência esteja sujeito a ficar de fora.

E O VEREDICTO É: 1,5/5 - DISPENSÁVEL

SPACE COWBOY

Com "Twin Falls Idaho - Vida Comum" (1999) e "Northfork" (2003), Michael Polish destacou-se enquanto realizador promissor, dada a estranheza e moderada bizarria presentes nessas duas obras, que aliadas a uma atmosfera sensível e enigmática lhe permitiram iniciar com alguma consistência um percurso autoral.
"O Astronauta" (The Astronaut Farmer), o seu novo filme, confirma as idiossincrasias do realizador mas também as suas debilidades, pois embora seja uma película suficientemente ousada e criativa não consegue estar à altura daquilo a que se propõe.

O protagonista do filme é Charles Farmer, um engenheiro aeroespacial que teve de abandonar subitamente o seu sonho de ser astronauta da NASA devido a um incidente familiar, situação que conduziu a que fosse viver para uma quinta no Texas com a sua esposa e filhos.
Contudo, em vez de se conformar a uma vida pacata e rotineira, Farmer continuou a perseguir a sua ambição, e para isso construiu um foguetão no seu celeiro e manteve o desejo de um dia viajar nele para o espaço. Os problemas surgem quando diversas entidades, entre as quais o FBI, a NASA e muitos media, começam a investigar a preparação da sua missão e a colocá-la em causa, surgindo assim entraves legais que nem por isso abalam as aspirações do protagonista.

Inicialmente, "O Astronauta" começa por entusiasmar ao focar o projecto de um outcast que apenas tenta lutar por algo com que sempre sonhou, perseguindo o american dream à sua maneira. Aos poucos, todavia, uma inexorável alienação começa a dominar a personagem e o próprio filme, já que Polish parece defender que os fins justificam os meios, o que no caso se traduz numa crescente irresponsabilidade de Farmer e da sua família, descurando questões como a segurança deles próprios e dos que os rodeiam.

O filme toma claro partido do protagonista, o que implica fazer dos agentes do FBI os maus da fita e ridicularizá-los com doses cavalares de incompetência - no extremo oposto, Farmer é bem sucedido na sua missão espacial, cuja equipa é formada pelo seu filho de quinze anos e duas filhas que não terão mais de dez.
Além de testar a condescendência que se possa ter em relação à plausibilidade de um argumento, "O Astronauta" cai no ridículo involuntário ao apostar num exercício inspirador e edificante centrado numa personagem que almeja o espaço mas é incapaz de olhar para além do próprio umbigo.

Em vez de uma fábula subversiva, a película resulta num engodo ingénuo e não raras vezes irritante ao atentar contra os mínimos do bom-senso. E no entanto, Polish ainda consegue, surpreendentemente, ofecer aqui algumas boas sequências de união familiar, sobretudo antes da perseguição do sonho cair na megalomania. Os actores ajudam a que as cenas entre os elementos da família Farmer pareçam genuínas, já que tanto os mais jovens - que inclui as filhas dos irmãos Polish - como os mais velhos respiram espontaneidade.
Destes últimos, Billy Bob Thornton, J.K. Simmons e Bruce Willis não desmerecem, mas é Virginia Madsen quem mais brilha, com um desempenho luminoso que confirma que é uma das actrizes mais talentosas e subaproveitadas da actualidade, e é uma pena que a sua personagem vá perdendo intensidade ao longo do filme, tornando-se num utensílio que reforça a ambição do marido.

Esta redução da densidade emocional invade também o argumento, que adere ao melodrama de gosto duvidoso na recta final, desperdiçando algumas pérolas de intimismo anteriores. E contra isso nem a sóbria e fluída realização nem a bela fotografia são suficientes para salvarem "O Astronauta" do falhanço (interessante, apesar de tudo), o que faz com que ainda não seja desta que Polish esclareça se é um realizador competente com alguns acessos de inspiração ou um cineasta em potência e a ter em conta.

E O VEREDICTO É:
2,5/5 - RAZOÁVEL