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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Pranchas e vinehtas no pequeno ecrã

“Salvem a chefe de claque, salvem o mundo”. Esta foi uma das frases que ajudou a que “Heroes” se tornasse numa das séries televisivas mais populares e aclamadas dos últimos anos, resultado de um considerável fenómeno “passa-a-palavra” que gerou expectativa em torno de um projecto com uma premissa intrigante.
Na sequência de múltiplos filmes inspirados nas aventuras de super-heróis dos comics, a série transportou esse universo para a televisão, e mesmo não sendo das primeiras a fazê-lo – ícones como Batman ou Super-Homem, por exemplo, já asseguraram lá presença desde há muito – conseguiu injectar ao género doses de criatividade e entusiasmo como raramente se têm encontrado nas adaptações cinematográficas.

Não é que Tim Kring, o seu autor, apresente aqui nada nunca antes visto. Pelo contrário, “Heroes” é bastante devedor de inúmeras referências da BD, adoptando características de personagens já conhecidas dentro desse meio - os poderes especiais dos protagonistas da série são todos decalcados de super-heróis já existentes – ou a sua lógica narrativa – o modo como os episódios estão estruturados, terminando sempre com um cliffhanger decisivo, é herdado dos issues de muitos comics, assim como a construção dos subplots.
A mais-valia está na forma como a série mistura essas influências na criação de uma nova mitologia que consegue ser refrescante, apresentado uma galeria de personagens carismáticas que se cruzam num argumento eficaz e surpreendente q.b.. De resto, Kring nem pretende enganar ninguém e é o primeiro a assumir as suas influências, ou não fosse uma série de banda-desenhada criada por um dos protagonistas, o desenhador Isaac Mendez, uma das peças essenciais para fazer arrancar a história.


Os próprios desenhos das telas de Isaac foram criados por Tim Sale, nome familiar para quem acompanha o universo dos comics, e o argumentista Jeph Loeb, do mesmo meio, foi um dos consultores executivos. Chris Claremont, nome incontornável na evolução das aventuras dos X-Men, é também homenageado ao partilhar o apelido com um empregado de uma loja, e até há um cameo de Stan Lee, outra figura histórica da Marvel Comics.

Embora contenha pormenores deliciosos para os adeptos da nona arte, “Heroes” está muito longe de ser um objecto dirigido somente a esse público, não contendo quaisquer restrições para que outros o possam apreciar.
As personagens, todas cidadãos aparentemente normais, não demoram a gerar familiaridade, e por isso é difícil não aderir aos vários arcos narrativos que vão sendo criados em torno delas à medida que vão descobrindo e reagindo às suas capacidades especiais. Do inimitável e adorável Hiro Nakamura, protagonista algumas sequências que, mais do que comics, respiram influências manga, aliando dinamismo e humor; à chefe de claque Claire Bennet, que do estereótipo só mantém o facto de ser loura; aos irmãos Peter e Nathan Petrelli, que não poderiam ser mais diferentes; ou ao misterioso e calculista Noah Bennet, que parece saber mais sobre os heróis do que eles próprios; não faltam aqui personagens interessantes, e vai sendo viciante acompanhar o seu processo de descoberta.

Um dos factores mais elogiados em “Heroes” é a ausência dos tradicionais uniformes e nomes de código, uma vez que os protagonistas nem sabem como lidar com os seus poderes e têm, ainda assim, de os adaptar à rotina do dia-a-dia, encontrando-se muito longe do papel de super-heróis tradicionais. Este elemento torna a acção mais verosímil e reforça a identificação do espectador com as personagens, já que também estas agem como pessoas normais – embora vão descobrindo que há algo que as distingue da maioria e não envolve necessariamente capacidades sobre-humanas.
Mais uma vez, esta tridimensionalidade não é novidade neste universo, tendo em conta que foi o que distinguiu as aventuras de Peter Parker/Homem-Aranha das de tantos outros super-heróis, e mesmo a inexistência de uniformes e identidades secretas já foi uma tendência na BD, sobretudo na década de 90, tanto nos comics mais alternativos – a linha Vertigo da DC – como mainstream – quando personagens como Jubileu ou Gambit aderiram aos X-Men (e até ocorreu no cinema, como o comprova “O Protegido”, de M. Night Shyamalan). Esta ausência de exclusividade em nada compromete, contudo, a consistência de “Heroes”, que possui um lado humano suficientemente vincado e onde as demonstrações dos poderes dos protagonistas nunca se sobrepõem à carga emocional que se vai desenvolvendo.

Nesta primeira temporada, intitulada “Genesis”, a incidência é sobretudo neste processo de auto-descoberta das personagens, e talvez por isso no final fique a sensação de que funciona principalmente enquanto porta de entrada para uma saga de maior fôlego e intensidade. É quase sempre entusiasmante seguir estas aventuras, mas lamenta-se que não haja maior interacção entre os vários heróis, que vão seguindo pistas diferentes e acabam por se reunir num acontecimento fulcral já no desenlace e antecipado muitos episódios antes.
A resolução da temporada é, de resto, um dos aspectos menos conseguidos, pois se nos últimos episódios há uma atmosfera de suspense bem construída o capítulo derradeiro termina de forma demasiado abrupta e anti-climática, o que gera alguma decepção considerando que grande parte da acção foi desenvolvida em função desse momento. Claro que isso não coloca em causa os muitos bons momentos ocorridos ao longo da série, alguns de antologia, mas acaba por reduzir algum do impacto desta enquanto um todo.
Tirando este aspecto, “Heroes” é uma série bastante recomendável, lúdica e desafiante como poucas, entretenimento inteligente capaz de agradar a um público alargado. E o melhor é que, a julgar pelo sugestivo epílogo, a segunda temporada promete ir ainda mais além, oferecendo oportunidades ilimitadas para o percurso de pelo menos um dos protagonistas. Enquanto esta não chega, vale a pena ir vendo e revendo a primeira.


E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

10 BLOGUES, 5 FILMES, 1 REALIZADOR

Com algum atraso, mas em compensação com colaborações extra, fica aqui a tabela de estrelas referente a algumas das estreias cinematográficas de Julho (made by Knoxville, como habitual). A propósito da estreia de "Transformers", ficou o desafio de escolher o melhor filme do realizador, Michael Bay (ou o menos mau, vá lá). Por estes lados escolheu-se "A Ilha", quem quiser saber porquê espreite aqui.

JACKSON THREE (OU FOUR)

Não deixa de ser algo caricata a edição de um "Greatest Hits" das Luscious Jackson, já que por muito boa vontade que se tenha o único sucesso radiofónico da banda terá sido apenas "Naked Eye", e mesmo assim teve uma passagem fugaz em 1997 (a melhor posição que conseguiu no Top40 norte-americano foi a 36ª). "Best of" talvez fosse, por isso, uma denominação mais apropriada para o disco que faz a retrospectiva da carreira do trio (inicialmente quarteto) nova-iorquino, embora seja discutível se o que nele se encontra corresponde, de facto, ao que de melhor o grupo criou no seu EP e três álbuns.
Apadrinhadas pelos Beastie Boys, as jovens Jill Cunniff, Gabby Glaser, Vivian Trimble e Kate Schellenbach estrearam-se com a edição do EP "In Search of Manny", em 1992, o primeiro registo não relativo à banda de Mike D lançado pela editora Grand Royal. À semelhança destes, notabilizaram-se pela fusão de estilos das suas canções, unindo hip-hop e new wave ou funk e indie rock sem nunca deixarem de exibir um forte apelo pop, o que as tornou tão experimentais como acessíveis.
Em "Natural Ingredients" (1994) deram continuidade às sonoridades do EP, em "Fever In Fever Out" (1996) não as esqueceram mas optaram por tons mais jazzy e atmosféricos (fruto da produção de Daniel Lanois) e em "Electric Honey" (em 1999, após a desistência de Vivian Trimble) alargaram o espectro, reforçando a carga electrónica. Infelizmente, este seria o seu último disco de originais, tendo as duas vocalistas (Cunniff e Glaser) seguido carreiras a solo.

Neste "Greatest Hits" recuperam-se alguns dos momentos mais relevantes do percurso da banda como o inevitável "Naked Eye", sintomático da atitude e frescura das Luscious Jackson; "Citysong", exercício funk onde a carga urbana da música do grupo é mais evidente; a acelerada "Here", com saudáveis contaminações disco; "Nervous Breakthrough", um delicioso convite à festa; ou "Ladyfingers", irrepreensível canção pop onde o sentido melódico da banda surge mais apurado do que nunca.

Lamenta-se que o alinhamento incida pouco nos primeiros registos, sobretudo no EP, do qual apenas consta "Let Yourself Get Down", e não se percebe a presença de "Friends" e "Beloved", precisamente as duas composições mais fracas de "Electric Honey". Pouco estimulantes são também a maioria das remisturas aqui incluidas, todas aquém da que os Bentley Rhythm Ace fizeram para "Under Your Skin" (superior ao original) mas que, contudo, ficou de fora.

Estas escolhas são compensadas por alguns bónus, casos da da elegante versão de "69 Anée Érotique", de Serge Gainsbourg, ou da interessante "Love Is Here", retirada da banda-sonora de "Vidas Diferentes", de Danny Boyle. Pena a ausência de "Roses Fade", um dos temas do filme "O Santo", de Phillip Noyce, atípica canção da banda seguidora da tradição singer/songwriter.

"Greatest Hits" não é, assim, a compilação mais consistente que poderia surgir a partir da obra das Luscious Jackson, embora o que oferece seja ainda suficientemente representativo de um grupo que, mesmo não sendo essencial, deixou uma discografia equilibrada que se mantém apelativa e até influente - nomes como os New Young Pony Club, Le Tigre ou Lily Allen que o digam, por exemplo. E este pode ser só o final da sua primeira fase, já que a banda considera reunir-se para um novo álbum a editar para o ano. Se mantiver a solidez registada até aqui, valerá a pena aguardá-lo.


E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM



Luscious Jackson - "City Song"



ENCALHADA AOS 40 ANOS

Não têm faltado estreias de blockbusters mega-promovidos neste Verão, como de resto é habitual, o que estranhamente não tem chegado com tanta frequência é outro tipo de filmes que possuem também alguma força para levar público às salas, como é o caso das comédias românticas. "Nem Contigo...Nem Sem Ti!" (I Could Never be Your Woman) é uma dessas excepções, e traz logo um trunfo ao assinalar o regresso de Michelle Pfeiffer ao grande ecrã, após uma ausência de cinco anos (o último filme em que tinha participado foi o discreto "A Flor do Mal", de Peter Kosminsky).

Esta não se destaca como o único nome forte do elenco, uma vez que o co-protagonista, Paul Rudd, mesmo sem um peso mediático comparável, é uma óptima escolha. Infelizmente, os dois actores e a química que surge entre eles acabam por ser o que de mais memorável o filme deixa, pois a realizadora Amy Heckerling não o conduz da forma mais interessante.

Retrato da relação de uma produtora de televisão de 40 anos com um jovem aspirante a actor, "Nem Contigo...Nem Sem Ti!" não inova nesta premissa mas tenta fazê-lo ao alicerçar-se num argumento que aborda ainda, transversalmente, o relacionamento entre pais e filhos, os dilemas dos bastidores televisivos, a entrada na adolescência, crises de meia idade ou as tentações do estrelato.
Os temas são interessantes, o modo como são trabalhados nem tanto, sobretudo porque Heckerling prefere apostar quase sempre na caricatura em vez de conferir alguma densidade às situações. Não faz muito sentido disparar críticas aos clichés e humor elementar de séries televisivas juvenis quando os gags que o filme apresenta também são, geralmente, mais óbvios do que sofisticados. Óbvios e, por vezes, de mau gosto, como numa cena em que a dupla protagonista ridiculariza as operações plásticas feitas por actrizes e cantoras de forma a que Pfeiffer surja mais beneficiada na fotografia.

Têm sido poucas as comédias românticas capazes de fugir aos lugares-comuns nos últimos anos, e não é "Nem Contigo...Nem Sem Ti!" que vem assim mudar o cenário, uma vez que segue a regra e esquadro a estrutura boy-meets-girl (neste caso, na variante boy-meets-woman) mais tipificada. Por vezes há aqui tentações de irreverência, logo desfeitas por cenas de artificial moralismo, e no final não se percebe se este é um produto que se dirige mais a um público adolescente ou adulto, dada a mistura de registos (o que se calhar nem é de estranhar, vindo de alguém que no currículo inclui a realização de "Olha Quem Fala", "Clueless" ou episódios da versão americana de "The Office").

O filme funciona, no entanto, enquanto montra em que Paul Rudd demonstra o seu perfeito sentido de timing numa interpretação que respira espontaneidade, sendo responsável pelas sequências mais conseguidas. Sem ele, esta seria provavelmente uma película mortiça e em piloto automático, ainda que Pfeiffer não tenha perdido o charme e sirva uma interpretação competente. Há mais bons actores por aqui, como Steve Pemberton ou Mackenzie Crook, entre outras caras conhecidas da britcom, não têm é grande coisa para fazer e o seu talento é assim desperdiçado. Dispensavel era a presença de Tracey Ullman na pele de Mãe Natureza, amiga imaginária da protagonista, num papel sem graça nem relevância.

No geral, "Nem Contigo...Nem Sem Ti!" não é melhor nem pior do que tantos outros chick flicks feitos em linha de montagem. Tem algumas boas sequências de humor, muita previsibilidade, um par romântico que funciona e uma banda-sonora curiosa, que é quase um best of dos Cure interrompido pela canção que lhe inspirou o título (na versão original): "Your Woman", que fez dos White Town one hit-wonders há dez anos. Ou seja, à falta de melhores alternativas dentro do género esta servirá, mas deixa um sabor tão fugaz como o de um amor de Verão.

E O VEREDICTO É: 2/5 - RAZOÁVEL

ESTREIA DA SEMANA: "JINDABYNE"

Numa semana com oito estreias (!), a aposta da casa vai para "Jindabyne", que entre o drama e o thriller narra o regresso de quatro amigos de uma pequena localidade australiana que se ausentaram para pescar juntos. O problema é que consigo trazem o cadáver de uma jovem, que dizem ter encontrado no rio, mas os seus vizinhos e familares mostram-se algo cépticos quanto a esta justificação. A esposa de um deles fica especialmente desconfiada e tenta descobrir o que ocorreu de facto durante a saída.
Baseado num conto de Raymond Carver, "Jindabyne" é o novo filme de Ray Lawrence, nome familiar para quem viu "Lantana", de 2001. Laura Linney e Gabriel Byrne lideram o elenco e reforçam a suspeita desta ser uma obra a ter em conta.

Outras estreias:

"Cash", de Anubhav Sinha
"Dia de Surf", de Ash Brannon e Chris Buck
"Golpe Quase Perfeito", de Lasse Hallström
"Paranóia", de D. J. Caruso
"Torre Bela", de Thomas Harlan
"Van Wilder 2: O Rei da Festa", de Mort Nathan
"Vitus", de Fredi M. Murer



Trailer de "Jindabyne"

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