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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

ESTREIA DA SEMANA: "THE HOST - A CRIATURA"

Monster movie com aura de culto, "The Host - A Criatura" (Gwoemul) é um dos títulos recentes do cinema coreano que tem gerado algum burburinho, contando com um bom acolhimento em Cannes e por onde mais tem passado. Entre sustos e risos, o filme segue a onda de terror gerada por uma gigantesca criatura assassina e a estratégia dos que tentam impedi-la se não forem devorados entretanto. Fica a sugestão, bom apetite.

Outras estreias:

"Evan, O Todo Poderoso", de Tom Shadyac (CUIDADO: é um dos piores filmes do ano)
"Muito Bem, Obrigado", de Emmanuelle Cuau


Trailer de "The Host - A Criatura"

FESTA A MEIO GÁS

Mika fez-se notar através de “Grace Kelly”, single que tomou de assalto rádios e televisões com uma atitute pop ostensiva e desavergonhada, tanto pelas piruetas vocais do cantor como pela melodia que não escondia a descendência de Freddie Mercury ou Elton John. É uma daquelas canções que, goste-se ou odeie-se (e é bem capaz de gerar reacções díspares), insiste em não sair da cabeça tão cedo, característica presente em muitas outras de “Life in Cartoon Motion”, álbum de estreia do jovem cantor e compositor anglo-libanês.O disco segue a tendência garrida desse cartão de apresentação, apostando numa pop imediata e eficaz, embora geralmente mais banal do que inventiva, onde a preocupação parece ser evidenciar a produção limpinha, a voz do cantor e não tanto as suas capacidades na composição.
O imaginário fantasioso, delirante e criativo sugerido pela apelativa capa raramente ganha forma, ainda que se encontrem aqui dois ou três momentos promissores. “Love Today”, solarengo hino ao amor, é uma contagiante canção feelgood, e “Relax (Take It Easy)” é outro tema que se destaca pela fórmula pop apurada, soando a uma hipotética versão dos Scissor Sisters de um single clássico dos Frankie Goes to Hollywood.

“Big Girl (You Are Beautiful)”, mais um episódio minimamente infeccioso; “Lollipop”, que recorre a coros infantis; ou “Billy Brown”, irónica crónica da vida de um homem com medo de “sair do armário”; são outros temas curiosos, mesmo que longe de memoráveis.
Se quando o ritmo é dinâmico e a atmosfera é animada Mika até nem se sai mal, os resultados são menos auspiciosos quando se centram na melancolia e desilusão - é o caso das desinspiradas baladas “Happy Ending”, “Over My Shoulder” e sobretudo “My Interpretation”, que convocam a faceta mais convencional e preguiçosa de um Robbie Williams ou mesmo de um James Blunt (e isto sim, já é bem preocupante).
Felizmente, estes momentos surgem com menor frequência, e por isso “Life in Cartoon Motion” ainda consegue ser um aceitável disco de pop comercial e sazonal, com capacidade para oferecer alguns hits antes de cair num quase inevitável esquecimento geral. Excepção feita, claro, aos que acreditam em parte da imprensa britânica, que diz ter encontrado aqui uma das próximas next big things

E O VEREDICTO É: 2/5 - RAZOÁVEL




Mika - "Love Today"

O PIANISTA

Filmes sobre jovens prodígios têm surgido sempre com alguma regularidade, e em alguns casos são material abraçado pelos Óscares e demais premiações, como o comprovam "Uma Mente Brilhante", de Ron Howard; "O Bom Rebelde", de Gus Van Sants; ou "Shine", de Scott Hicks. Muitas vezes, investem num melodrama duvidoso de tons demasiado agridoces e edificantes, onde as capacidades dos protagonistas os tornam mais em mártires do que iluminados, daí que "Vitus", do suíço Fredi M. Murer, surja como uma aparente lufada de ar fresco ao resistir a alguns lugares-comuns.
Retrato de uma criança com um talento inato para o piano, o filme investe na forma como a sua família vai descobrindo e reagindo aos seus dons, e se os pais o pressionam para que continue a aprimorá-los o avô é menos incisivo, deixando-o à vontade na sua oficina onde pode agir como um rapaz normal.
"Vitus" consegue, ao longo da primeira hora, trabalhar de forma contundente e tridimensional as inquietações que vão dominando o seu protagonista, pois à medida que este evolui no desenvolvimento intelectual (as suas capacidades acima da média vão muito para além da habilidade para o piano) vai sendo cada vez mais ostracizado pelos colegas, sendo incapaz de estabeler elos de ligação com alguém da sua idade.

Para os seus progenitores, contudo, o pequeno Vitus é um concentrado de potencialidades, incorporando o triplo da genialidade que o seu pai, inventor, sempre sentiu possuir mas que não conseguiu aproveitar como ambicionava. O problema é que, embora o protagonista possua capacidades cognitivas apuradas, emocionalmente não difere muito das outras crianças, e esse desfasamento que os pais parecem ignorar acaba por colocá-lo à beira de um abismo sem soluções em vista.

Até aqui, Murer desenvolve o filme aliando uma consistente densidade dramática a um argumento razoavelmente surpreendente, que não desbrava novos territórios mas também não cai em clichés. O pior é o último terço, que contraria a boa impressão até então sedimentada e desfaz quaisquer traços de negrume, oferecendo soluções fáceis, e sobretudo implausíveis às personagens e implementando uma aura feelgood que combina mal com a perspicácia e verosimilhança que havia sustentado o argumento.

Os tons realistas do arranque do filme são francamente mais convincentes do que a forçada atmosfera de fábula que domina os momentos finais, e é pena que Murer não se decida em relação ao que pretende fazer em "Vitus", pois tanto o aproxima de uma séria e inteligente experiência cinematográfica como de uma fantasia pronta-a-agradar cuja subtileza não é maior do que a de uma vulgar fita hollywoodesca.
O elenco, que inclui o veterano Bruno Ganz, defende bem as suas personagens e a realização não compromete, mas este impasse narrativo leva a que o filme passe de intrigante a desapontante. Interessante, ainda assim, embora menos do que se esperaria.


E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

Pranchas e vinehtas no pequeno ecrã

“Salvem a chefe de claque, salvem o mundo”. Esta foi uma das frases que ajudou a que “Heroes” se tornasse numa das séries televisivas mais populares e aclamadas dos últimos anos, resultado de um considerável fenómeno “passa-a-palavra” que gerou expectativa em torno de um projecto com uma premissa intrigante.
Na sequência de múltiplos filmes inspirados nas aventuras de super-heróis dos comics, a série transportou esse universo para a televisão, e mesmo não sendo das primeiras a fazê-lo – ícones como Batman ou Super-Homem, por exemplo, já asseguraram lá presença desde há muito – conseguiu injectar ao género doses de criatividade e entusiasmo como raramente se têm encontrado nas adaptações cinematográficas.

Não é que Tim Kring, o seu autor, apresente aqui nada nunca antes visto. Pelo contrário, “Heroes” é bastante devedor de inúmeras referências da BD, adoptando características de personagens já conhecidas dentro desse meio - os poderes especiais dos protagonistas da série são todos decalcados de super-heróis já existentes – ou a sua lógica narrativa – o modo como os episódios estão estruturados, terminando sempre com um cliffhanger decisivo, é herdado dos issues de muitos comics, assim como a construção dos subplots.
A mais-valia está na forma como a série mistura essas influências na criação de uma nova mitologia que consegue ser refrescante, apresentado uma galeria de personagens carismáticas que se cruzam num argumento eficaz e surpreendente q.b.. De resto, Kring nem pretende enganar ninguém e é o primeiro a assumir as suas influências, ou não fosse uma série de banda-desenhada criada por um dos protagonistas, o desenhador Isaac Mendez, uma das peças essenciais para fazer arrancar a história.


Os próprios desenhos das telas de Isaac foram criados por Tim Sale, nome familiar para quem acompanha o universo dos comics, e o argumentista Jeph Loeb, do mesmo meio, foi um dos consultores executivos. Chris Claremont, nome incontornável na evolução das aventuras dos X-Men, é também homenageado ao partilhar o apelido com um empregado de uma loja, e até há um cameo de Stan Lee, outra figura histórica da Marvel Comics.

Embora contenha pormenores deliciosos para os adeptos da nona arte, “Heroes” está muito longe de ser um objecto dirigido somente a esse público, não contendo quaisquer restrições para que outros o possam apreciar.
As personagens, todas cidadãos aparentemente normais, não demoram a gerar familiaridade, e por isso é difícil não aderir aos vários arcos narrativos que vão sendo criados em torno delas à medida que vão descobrindo e reagindo às suas capacidades especiais. Do inimitável e adorável Hiro Nakamura, protagonista algumas sequências que, mais do que comics, respiram influências manga, aliando dinamismo e humor; à chefe de claque Claire Bennet, que do estereótipo só mantém o facto de ser loura; aos irmãos Peter e Nathan Petrelli, que não poderiam ser mais diferentes; ou ao misterioso e calculista Noah Bennet, que parece saber mais sobre os heróis do que eles próprios; não faltam aqui personagens interessantes, e vai sendo viciante acompanhar o seu processo de descoberta.

Um dos factores mais elogiados em “Heroes” é a ausência dos tradicionais uniformes e nomes de código, uma vez que os protagonistas nem sabem como lidar com os seus poderes e têm, ainda assim, de os adaptar à rotina do dia-a-dia, encontrando-se muito longe do papel de super-heróis tradicionais. Este elemento torna a acção mais verosímil e reforça a identificação do espectador com as personagens, já que também estas agem como pessoas normais – embora vão descobrindo que há algo que as distingue da maioria e não envolve necessariamente capacidades sobre-humanas.
Mais uma vez, esta tridimensionalidade não é novidade neste universo, tendo em conta que foi o que distinguiu as aventuras de Peter Parker/Homem-Aranha das de tantos outros super-heróis, e mesmo a inexistência de uniformes e identidades secretas já foi uma tendência na BD, sobretudo na década de 90, tanto nos comics mais alternativos – a linha Vertigo da DC – como mainstream – quando personagens como Jubileu ou Gambit aderiram aos X-Men (e até ocorreu no cinema, como o comprova “O Protegido”, de M. Night Shyamalan). Esta ausência de exclusividade em nada compromete, contudo, a consistência de “Heroes”, que possui um lado humano suficientemente vincado e onde as demonstrações dos poderes dos protagonistas nunca se sobrepõem à carga emocional que se vai desenvolvendo.

Nesta primeira temporada, intitulada “Genesis”, a incidência é sobretudo neste processo de auto-descoberta das personagens, e talvez por isso no final fique a sensação de que funciona principalmente enquanto porta de entrada para uma saga de maior fôlego e intensidade. É quase sempre entusiasmante seguir estas aventuras, mas lamenta-se que não haja maior interacção entre os vários heróis, que vão seguindo pistas diferentes e acabam por se reunir num acontecimento fulcral já no desenlace e antecipado muitos episódios antes.
A resolução da temporada é, de resto, um dos aspectos menos conseguidos, pois se nos últimos episódios há uma atmosfera de suspense bem construída o capítulo derradeiro termina de forma demasiado abrupta e anti-climática, o que gera alguma decepção considerando que grande parte da acção foi desenvolvida em função desse momento. Claro que isso não coloca em causa os muitos bons momentos ocorridos ao longo da série, alguns de antologia, mas acaba por reduzir algum do impacto desta enquanto um todo.
Tirando este aspecto, “Heroes” é uma série bastante recomendável, lúdica e desafiante como poucas, entretenimento inteligente capaz de agradar a um público alargado. E o melhor é que, a julgar pelo sugestivo epílogo, a segunda temporada promete ir ainda mais além, oferecendo oportunidades ilimitadas para o percurso de pelo menos um dos protagonistas. Enquanto esta não chega, vale a pena ir vendo e revendo a primeira.


E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM