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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

ROCK IT 2NIGHT!

Faltavam cerca de dez minutos para a uma da manhã quando Cláudia Efe, Flak e C. Morg, mais conhecidos como Micro Audio Waves, iniciaram o concerto no MusicBox, em Lisboa, com quase uma hora de atraso que pareceu ter passado despercebida para grande parte do público, que até aí se entreteve com copos, música ambiente e conversas várias. Mas mesmo os que deram pelo atraso terão "perdoado" o trio - acompanhado por mais dois elementos - logo aos primeiros minutos de actuação, já que o grupo entrou em palco com "At the Age of Five", um dos melhores temas de "Odd Size Baggage", o seu terceiro registo de originais.
Para além de ser uma canção hipnótica e servir como brilhante introdução para o espectáculo, foi apresentada numa versão consideravelmente diferente da do disco, onde a bateria ganhou protagonismo e ajudou a implementar uma cadência mais enérgica e dançável. Esta situação não foi, de resto, caso único, já que a maioria dos temas do concerto surgiram com alterações face ao que se conhecia dos discos, não sendo meros decalques mas antes repensadas para melhor se adaptarem a um formato ao vivo.

Esta foi sem dúvida uma grande mais-valia, mostrando uma vertente mais orgânica da banda, pois embora a presença da electrónica tenha sido uma constante não o foi tanto como em disco, dando lugar a recorrentes devaneios de guitarra e bateria, esta última o elemento responsável pela força rítmica da maioria dos temas (a remeter para alguns territórios dos Moloko ou dos Spektrum).
A considerável rudeza instrumental, distante da sofisticação e sobriedade registadas nos álbuns, fez com que a voz de Cláudia Efe ficassse por vezes submersa no meio de momentos de descarga, mas isso não impediu que os Micro Audio Waves tenham gerado um concerto sem episódios menores, mantendo um perfeito domínio do ritmo e uma notável coesão.

 

 
 

Mesmo as canções menos interessantes de "Odd Size Baggage" ganharam aqui vida nova, caso de "Future Smile", que conseguiu cativar numa versão mais acelerada (e onde, mais uma vez, a bateria foi fulcral), ou "Curl Like a Cannonball", cujas imponentes camadas de distorção dos momentos finais foram um curioso contraponto à carga contemplativa inicial.

"Down by Flow" provou ser um single já bem conhecido pela maioria do público presente, não sendo poucos os que acompanharam a vocalista no refrão, e "2night (U & I)" parece seguir-lhe os passos pelas boas reacções que despoletou, levando muitos a dançar ao seu ritmo frenético.


 

Melhor ainda foi "Odd Size Baggage", o grande momento da noite, que resultou numa excelente centrifugadora de ruído tornado melodia, mais uma vez com um irrecusável apelo dançável. "Fully Connected", disparado logo a seguir, ofereceu competição à altura e também apareceu com texturas mais agressivas do que em disco, e outros temas como "Escape From Albania" mantiveram o alto nível de intensidade. No extremo oposto, "Shadow of Things" ou "Long Tongue" enveredaram por ambientes mais apaziguados e igualmente cativantes, mas não demorou muito para que a agitação voltasse a tomar conta do palco e dos espectadores.

Se "Odd Size Baggage" fora já um passo em frente para os Micro Audio Waves, a julgar pelo que demonstram em concertos como este terão avançado mais dois ou três, corrigindo alguns desequilíbrios que impediram que todo o disco estivesse à altura de uma série de momentos acima da média.

 

 

Para além de estetas exigentes em álbum, baseados num sólido domínio da electrónica, convencem ainda pela crueza e visceralidade rock que exibem ao vivo, e o mínimo que se pode dizer para resumir o espectáculo é que terá sido seguramente o melhor shot de adrenalina da noite, e nada indigesto.
 

E O VEREDICTO É: 4/5 - MUITO BOM

FEBRE (AMARELA) DE SÁBADO À TARDE

'Samurai Champloo', uma das seis séries que estreiam sábado no AXN

Neste fim-de-semana, o canal AXN inaugura a Zona Animax, dedicada à animação nipónica (aka Anime), que vai passar a preencher a programação dos inícios das tardes de sábado e domingo.

Hoje, a partir das 12h45, arrancam então seis(!) séries, a maioria inéditas por cá, e das quais apenas vi alguns episódios da bizarra e inclassificável "Excel Saga" e da curiosa "Trigun". As restantes são "OutlawStar", "Orphen", "Samurai Champloo" e "Inuyasha". Não vou poder ver nenhuma nem hoje nem amanhã, mas aceito recomendações.

(BOAS) ONDAS ELECTRÓNICAS

Nos seus dois registos anteriores – o EP homónimo e o álbum “No Waves” – os Micro Audio Waves destacaram-se como um dos projectos nacionais mais ousados na abordagem à electrónica, encetando manobras de considerável experimentalismo que, aos poucos, foram adoptando contornos mais pop.
“Odd Size Baggage”, o mais recente disco, reforça essa aproximação ao formato canção, quase fugindo aos ensaios por vezes herméticos que dominaram os primeiros trabalhos, e ao fazê-lo torna-se no melhor cartão de apresentação que o trio de Cláudia Efe, Flak e C.Morg criou até agora.

 

É certo que o grupo tinha já algumas composições interessantes, como o single “Fully Connected”, que lhes rendeu elogios de gente como o guru John Peel, embora não as suficientes para evitar que os seus discos fossem mais esboços de ideias do que a concretização destas. “Odd Size Baggage” não está ainda imune a desequilíbrios, mas exibe maior consistência, uma personalidade mais vincada e demonstra que os Micro Audio Waves parecem ter encontrado uma linguagem própria, devidamente expressa num estimulante conjunto de canções.

Versátil e imaginativo, o álbum apresenta alguma da melhor electrónica feita nos últimos tempos, interligando-a com passagens pelo rock ou R&B e equilibrando momentos de apelo dançável com episódios de tranquilidade e placidez. Da elegância de uma produção milimétrica, que traduz bom gosto e contemporaneidade, ao carisma de Claudia Efe, cuja voz é capaz de seduzir seja em estados mais frágeis ou austeros, “Odd Size Baggage” é, em vários momentos, um atestado de segurança e maturidade, pop nacional do melhor que se fez este ano.

A comprová-lo estão canções como “2night (U&I)”, que transpira intensidade e incita à festa; o spoken word visceral da faixa-título, impressionante devaneio centrado na letra de um manual de instruções para um computador; “At the Age of Five”, com um contagiante electro cru e cerebral; “Shadow of Things”, um belo interlúdio contemplativo; ou “Down By Flow”, um óptimo single onde Efe se encosta a uma Róisín Murphy no seu melhor.

Tivesse apenas estes temas e “Odd Size Baggage” seria um brilhante EP, mas tem o dobro e resulta num disco nem sempre tão inspirado, e que até demora a arrancar, já que as três primeiras canções do alinhamento são as menos apelativas, onde o experimentalismo se sobrepõe à pop e os Micro Audio Waves saem a perder. O instrumental “Russian Connection”, mais à frente, também não é especialmente marcante, e o facto de ser dos momentos mais longos volta a quebrar a coesão de um álbum que, de resto, tende a viciar e confirma a criatividade de uma banda em evidente estado de progressão.

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

Os Micro Audio Waves actuam esta sexta-feira no MusicBox, em Lisboa, antes dos DJ sets de Richard Dorfmeister e Mike Stellar. O espaço abre às 22 horas.

 


Micro Audio Waves - "Down by Flow"

ESTREIA DA SEMANA: "O ESCAFANDRO E A BORBOLETA"

Depois de "Antes que Anoiteça", Julian Schnabel regressa com "O Escafandro e a Borboleta" (Le Scaphandre et le Papillon), mais uma obra inspirada num caso real e com um protagonista numa situação-limite. Desta vez, o realizador segue o jornalista Jean-Dominique Bauby, que ficou paralizado após um AVC e conseguia apenas mexer um olho, a sua única forma de comunicar com terceiros.

Se é verdade que "Mar Adentro" já enveredou por temática próximas há pouco tempo, diz quem viu que aqui a abordagem é distinta, mas não menos conseguida. Mathieu Amalric e Emmanuelle Seigner são os dois nomes centrais deste filme que deu a Schnabel o prémio de Melhor Realizador na última edição de Cannes.

Outras estreias:

"A Outra Margem", de Luís Filipe Rocha
"Ao Anoitecer", de Lajos Koltai
"Bratz, O Filme", de Sean McNamara
"Os Seis Sinais da Luz", de David L. Cunningham
"Rescue Dawn - Espirito Indomável", de Werner Herzog
"Resident Evil 3: Extinção", de Russell Mulcahy
"Terra de Cegos", de Robert Edwards



Trailer de "O Escafandro e a Borboleta"