Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

WINDOWS 2007

Espectáculo que recorre a 4 artistas de várias áreas diferentes, "Window" junta Mônica Coteriano (dança/voz/textos), Tó Trips e Pedro Gonçalves - os Dead Combo -(música) e André Gonçalves (multimédia).
Em causa está uma reflexão em torno do conceito de janela que ora oferece momentos cantados ou de spoken word, pequenos devaneios espirituosos e muita imaginação na forma como são aproveitados os dois painéis do palco, resultando numa criativa conjugação de som e imagem.

Uma das iniciativas do Festival Temps D'Images a descobrir esta noite pelas 21h30 no Teatro Maria Matos, em Lisboa.

UM FILME PARA ACORDAR O PASSADO

Um dos temas recorrentes de parte do cinema português dos últimos anos é o do passado recente do país, em particular questões relacionadas com o antigo regime, exploradas em títulos como "Inferno" ou "20,13", de Joaquim Leitão; "Os Imortais", de António-Pedro Vasconcelos; "Capitães de Abril", de Maria de Medeiros; ou "Preto e Branco", de José Carlos de Oliveira, entre outros.

"Julgamento", de Leonel Vieira, também volta a mexer em algumas feridas eventualmente por sarar, uma vez que no centro dos acontecimentos estão reminiscências de torturas efectuadas pela PIDE a alguns dos protagonistas, obrigando-os a lidar com fantasmas de uma outra época que regressam através de um reencontro inesperado.

Ao assistir a um julgamento em que a sua filha participa como advogada de defesa, Jaime, um professor universitário de meia idade, reconhece no arguido traços de um agente da PIDE que o torturou nos seus tempos de jovem antifascista, e que terá sido um dos responsáveis pela morte de Marcelino, um dos seus melhores amigos.

A revolta que acumulou ao longo dos anos encoraja-o a procurar respostas e a fazer justiça pelos seus próprios meios, e assim rapta o suposto ex-agente e leva-o para a sua casa de campo, onde as regras do jogo são agora ditadas por si. Esse confronto torna-se ainda mais conturbado quando a filha de Marcelino, com quem mantém uma relação, e dois amigos de longa data também alvo da acção da PIDE, acabam por ter conhecimento do rapto e reagem de modo díspar e hesitante, gerando um problema legal e moral de difícil resolução.

Desdobrando-se entre o thriller e o drama, "Julgamento" confirma o eclectismo estilístico de Leonel Vieira, que aqui apresenta um filme nos antípodas da comédia de "A Bomba", do romance de "A Selva" ou do olhar sobre a juventude urbana de "Zona J".
De tom menos ligeiro do que alguns desses títulos, mergulha num retrato geracional de forma mais densa e madura do que se esperaria, evitando as tentações de algum cinema assumidamente comercial que se faz por cá - não há por aqui overdoses de cenas de sexo gratuitas, linguagem censurável ou violência despropositada.

Tecnicamente, Vieira mantém a eficácia pela qual já se havia distinguido, apostando numa realização fluída e dinâmica, mas não epiléptica, num apurado trabalho de fotografia e iluminação e numa banda-sonora capaz de sugerir tensão sem resvalar para picos dramáticos insuflados.

O argumento exibe algumas semelhanças com o de "A Noite da Vingança", de Roman Polanski, que também era marcado por fortes contornos políticos (nomeadamente ditatoriais), onde uma vítima raptava o seu suposto torturador, ainda que "Julgamento" esteja longe de ser um exercício copista, conseguindo definir personagens e ambientes próprios.

Por vezes o debate interno do protagonista é previsível e o de algumas das outras personagens fica por explorar com um grau de complexidade mais acentuado, mas o filme está uns degraus acima de um mero objecto panfletário pronto a despertar consciências, contando com figuras adequadamente ambíguas e credíveis. Também era difícil não o fazer tendo em conta o elenco, sem dúvida um dos mais consistentes vistos numa película portuguesa nos últimos tempos, que concentra uma galeria de veteranos como Júlio César, José Eduardo, Carlos Santos e Henrique Viana, este no seu último papel.

Todos oferecem fortes interpretações, embora Júlio César talvez seja o que mais impressione uma vez que a sua personagem, a protagonista, é a que permite maior versatilidade. Alexandra Lencastre confirma as sólidas impressões que os seus últimos trabalhos têm reforçado, sobretudo os que fez com Fernando Lopes ("O Delfim", "Lá Fora"), e Fernanda Serrano não compromete num papel que poderia ter mais relevo.

"Julgamento" poderá não ser ainda o filme que levará a que Leonel Vieira seja considerado um "autor" pelos seus detractores, mas é um digno exemplo de cinema que tem em vista o grande público sem prescindir de uma abordagem inteligente às questões que foca, servindo-a com uma profissionalíssima embalagem industrial. Caso raro tanto em filmes portugueses como estrangeiros, e que por isso mesmo impõe que este seja saudado, visto e divulgado.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

Techno minimal numa noite especial

Na madrugada de hoje, a discoteca Lux, em Lisboa, teve uma sessão de Halloween diferente ao acolher Gui Boratto, produtor, compositor e DJ brasileiro cuja música não podia estar mais distante do cardápio sonoro habitual no dia das bruxas.

Não que isso tenha sido uma condicionante, pelo contrário, já que não foram poucos os que quiseram dançar ao som de "Chromophobia", o disco de estreia do músico, gerando uma enchente impressionante e longas filas à porta do espaço, onde mesmo durante a actuação muitos aguardavam ainda a entrada.

Um dos nomes mais fortes da Kompakt, editora alemã que tem dado cartas na área da música de dança, em particular do techno minimal, Gui Boratto conta já com 10 anos de percurso como produtor, durante os quais colaborou com figuras tão diferentes como Manu Chao, Chico Buarque, Des'ree ou Garth Brooks.
Esses trabalhos pouco ou nada têm a ver, contudo, com os que faz hoje, alicerçados numa electrónica engenhosa e subtil, simultaneamente dançável e contemplativa, recheada de pormenores mas com um apelo melódico directo.
Singles como "Arquipélago" ou "Like You", assim como remisturas para temas da banda-sonora do filme "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles, concederam-lhe uma aura de respeito que o disco de estreia consolidou, sendo uma das edições mais entusiasmantes do ano.

No set que apresentou nesta madrugada, Boratto voltou a demonstrar os seus méritos em cerca de duas horas onde desfilaram não só composições de "Chromophobia" mas também algumas dos EPs que lançou antes.

Ao vivo a maioria dos temas adquiriu uma vertente mais funcional e por vezes abrasiva do que o que pode ouvir-se nos discos, onde o apelo dançável surgiu mais pronunciado e o techno nem sempre foi minimal, optando a espaços por um maior dinamismo e aceleração. Esta opção impediu que o alinhamento fosse tão ecléctico como o do álbum de estreia do DJ, uma vez que não incluiu, por exemplo, nenhum dos episódios de tons mais ambientais, embora no geral Boratto tenha dado uma prova de eficácia, sabendo como animar a expectante multidão que preenchia toda a pista de dança e que não parou enquanto as canções se foram sucedendo.

Não por acaso, as de "Chromophobia" foram que resultaram melhor, recebidas com recorrentes aplausos e gritos, em especial a mecânica e incisiva "Gate 7" ou a reluzente "Beautiful Life", um dos raros casos que se desviou do techno para se aproximar das fronteiras de uma pop encantatória e imediata.

Suficientemente hipnótico e pulsante, este set de Gui Boratto contribuiu para reforçar o estatuto de rapaz-prodígio que muitos lhe têm concedido, dando bons motivos para que os seus passos continuem a ser acompanhados pois o melhor ainda poderá estar para vir.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

Pág. 5/5