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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Não está mal

 

Vá lá, desta vez nem discordei muito das escolhas da Academia. A vitória de Javier Bardem e Tilda Swinton como melhores actores secundários pareceu-me mais do que merecida, não necessariamente pelos desempenhos pelos quais foram nomeados - que ainda não vi, embora acredite que mantenham o nível habitual -, mas pelas carreiras que já mereciam ser distinguidas há muito.

 

O emocionado discurso de Marion Cotillard - o melhor da noite a par do do Bardem - fez-me ficar contente por ter vencido o Óscar de Melhor Actriz, mesmo não tendo visto a sua interpretação, que sempre deve ser mais merecida do que o overacting de Daniel Day-Lewis (muito longe da convincente discrição de Viggo Mortensen ou mesmo de Tommy Lee Jones). Mas pronto, foi uma das poucas que "Haverá Sangue" levou para casa, por isso nem tudo é mau.

 

Pelo menos "Juno" ficou só mesmo com o Óscar de Melhor Argumento Original - ainda que seja o de um filme indie de linha de montagem com diálogos mais forçados -, "Expiação" lá conseguiu o de Melhor Banda Sonora Original embora merecesse mais e parece que afinal os documentários não se resumem ao domínio de Michael Moore.

Já na animação parece que este ano foi mesmo o de "Ratatui", mesmo que "Persépolis" seja mais pertinente e original e que os Simpsons tenham injustamente ficado de fora.

 

Quanto à cerimónia em si, valeu pelo arranque inspirado de Jon Stewart, sem dúvida o que de mais imaginativo houve por ali, tanto que me deixei dominar pelo sono após a entrega do Óscar Honorário, incapaz de resistir aos intervalos, ainda que curtos, e às habitualmente bocejantes cançonetas (neste aspecto parece que a Academia nunca vai mudar). E pronto, para o ano há mais e daqui a três dias há "Este País Não É Para Velhos".

 

Ah, a lista completa dos vencedores está aqui.

Indie rock com estilo (e substância)

Passavam poucos minutos das dez da noite quando uma Aula Magna não repleta, mas concorrida q.b., acolheu a entrada em palco dos Spoon, na estreia da banda norte-americana numa sala lisboeta - e na sua segunda passagem por Portugal, após a presença em Paredes de Coura no Verão passado.

 

Entre seguidores veteranos e recém-conquistados - nomeadamente através de "Ga Ga Ga Ga Ga", o mais recente álbum da banda, editado em 2007 -, muitos tiveram finalmente a oportunidade de ver o quarteto ao vivo, que embora com uma carreira inciada em 1994 demorou mais de uma década até pisar palcos nacionais.

 

 

O atraso foi compensado por uma actuação coesa e convincente, que começou por incidir em temas do último disco, como o planante "My Little Japanese Cigarette Case" ou o mais dinâmico "Don't You Evah", mas não demorou muito para que a banda os intercalasse com canções mais antigas, como "Stay Don't Go", o mais viciante momento de "Kill the Moonlight", de 2002.

 

Nestes temas iniciais e em alguns dos que se seguiram, os Spoon não se afastaram muito das versões já conhecidas dos álbuns, oferecendo mais competência e segurança, tanto no apuro técnico como na boa forma vocal de Britt Daniel, do que especiais doses de risco ou surpresa.

Mantiveram, então, a sonoridade sóbria e elegante que já tinham demonstrado em Paredes de Coura, mas aos poucos acabaram por ir aceitando outros temperos e sugerindo novos rumos para algumas composições.

 

 

Foi o caso de "The Ghost of You Lingers", para muitos o ponto alto de "Ga Ga Ga Ga Ga", que ao vivo foi servido com uma maior presença das guitarras, lá para o final, que reforçou a carga soturna e atmosférica da canção e parece ter agradado à maioria dos presentes, destacando-se como o momento mais aplaudido até então.

Do mesmo disco, também "Don't Make me a Target" teve direito a uma dimensão mais visceral, terminando com um concentrado de distorção que seria superado por uma "Small Stakes" em modo estratosférico ou uma "Black Like Me" explosiva, que fechou o concerto antes do encore de forma tão abrasiva quanto absorvente.

 

Pelo meio, "The Underdog" foi um atestado de carisma e energia, em que muitos espectadores dançaram em pé ou sentados, e "I Turn My Camera On" alargou o efeito através da sua certeira cadência em crescendo, em que os Spoon comprovaram porque é que o modo como recorrem aos teclados ou à bateria é um dos seus maiores trunfos.

 

 

O alinhamento nem sempre manteve este nível, mesmo que também nunca tenha estado abaixo do satisfatório, e após uma forte e prolongada chuva de aplausos o grupo texano fechou a noite em alta com "You Got Yr Cherry Bomb", "Me and The Bean" e "My Mathematical Mind", o trio do encore que finalizou cerca de hora e meia de bom indie rock, capaz de conciliar o melódico e o experimental.

 

Pena que a banda não tenha ficado em palco mais cinco minutos para interpretar pelo menos "Everything Hits at Once", uma das suas canções mais marcantes que ficou de fora, embora não seja fácil escolher um alinhamento perfeito quando já lançaram seis álbuns de originais. Mas fica a esperança de que talvez o tenham guardado para um eventual regresso, que será sempre muito bem-vindo caso continuem a manter esta fluidez e consistência.

 

 

 

Spoon - "I Turn My Camera On"

Guess list

 

Elaborada por alguns dos suspeitos do costume, fica aqui a tabela com as previsões dos vencedores da cerimónia de entrega dos Óscares, a decorrer amanhã à noite.

Aproveito para deixar também quais os que acho que merecem ganhar, mesmo não tendo visto ainda todos os filmes nomeados:

 

Actriz Secundária: Tilda Swinton

Actor Secundário: Javier Bardem

Actriz Principal: Laura Linney

Actor Principal: Viggo Mortensen

Realizador: Julian Schnabel/ Joel e Ethan Coen

Melhor Filme: "No Country For Old Men"

Robot rock

Na sua estreia em Portugal apresentaram um dos bons concertos de Paredes de Coura, no Verão passado, e agora voltam para uma actuação esta noite na Aula Magna, em Lisboa.

Falo dos norte-americanos Spoon, que espero que se mantenham em forma mais logo.

 

Para abrir o apetite para o espectáculo, fica aqui o videoclip de um dos temas mais contagiantes de "Ga Ga Ga Ga Ga", o mais recente álbum da banda, protagonizado pelo robot Keepon (que também dança "I Turn My Camera On"). Se no concerto se dançar assim, valerá a pena:

 

 
 
 

 


Spoon - "Don't You Evah"

  

 

Mais videoclips dos Spoon

À procura da redenção

Do oscarizado drama indie "Depois do Ódio" à comédia pós-moderna "Contado Ninguém Acredita", passando pelo biopic caloroso "À Procura da Terra do Nunca" ou pelo mais experimental "Stay", o alemão Marc Foster tem uma filmografia relativamente recente - a sua obra de estreia inédita em Portugal, "Everything Put Together", é de 2000 - mas vincada por uma assinalável versatilidade, e o facto do realizador apresentar trabalhos seguros tanto em projectos mais independentes como naqueles ligados aos grandes estúdios atira-o para a lista de nomes a ter em conta dentro do cinema nascido nesta década.

 

"O Menino de Cabul" (The Kite Runner), o seu mais recente filme, confirma que vale a pena continuar a acompanhar o seu percurso e acentua a diversidade estilística da sua obra, adaptando o aclamado romance de Khaled Hosseini e condimentando-o com a sensibilidade já habitual na sua filmografia.

 

 

Percorrendo várias décadas, partindo da de 70 para terminar na actual, esta história ancora-se na forte amizade entre dois rapazes de Cabul, que é colocada em causa pouco antes da Rússia invadir o Afeganistão, e o afastamento passa de emocional a físico quando um deles, Amir, emigra para os Estados Unidos.

Passando a adolescência e tornando-se adulto num ambiente muito diferente daquele onde viveu os primeiros anos, Amir é confrontado com memórias da sua infância quando trágicos acontecimentos o forçam a deixar o seu quotidiano relativamente pacato para regressar ao seu país natal, onde terá uma hipótese de redenção pela traição ao seu amigo de infância.

 

Envolvente estudo de personagens entrecruzado com um olhar sobre os conflitos que têm vitimado o Afeganistão ao longo de vários anos, desde os ataques russos ao domínio talibã, "O Menino de Cabul" é um filme ambicioso, que nem sempre está à altura das suas aspirações mas que cativa pela evidente honestidade e sensibilidade, contornando com inteligência tentações panfletárias e o melodrama enlatado que facilmente poderiam contaminar uma história destes moldes.

 

 

Foster aposta num trabalho de realização sóbrio e elegante, conseguindo captar com eficácia as atmosferas de Cabul antes e depois dos ataques e escapando, na caracterização do primeiro cenário, aos lugares-comuns que marcam muitos filmes decorridos em países africanos.

O dia-a-dia das duas crianças na capital afegã origina alguns momentos de antologia, com destaque para o torneio de papagaios, captado com as doses certas de beleza e entusiasmo em sequências de tirar o fôlego e onde o vital recurso a efeitos especiais é tão discreto que passa despercebido.

 

A narrativa nem sempre tem sequências tão inspiradas, e ao longo de mais de duas horas há alguns desequilíbrios tanto no ritmo como na plausibilidade dos acontecimentos, respectivamente no relato do quotidiano de Amir nos EUA, quase uma sucessão algo esquemática de acontecimentos-chave, e em alguns momentos da recta final, quando o protagonista regressa ao Afeganistão e vive cenas pouco credíveis que fariam mais sentido num filme de acção.

 

 

Esses defeitos não chegam, no entanto, a ameaçar a solidez de uma obra que de resto se mostra sempre convincente, sendo difícil não destacar o brilhante elenco, sobretudo no caso da dupla de crianças - no primeiro papel de ambos os actores - e de Homayoun Ershadi, o protagonista de "O Sabor da Cereja", de Abbas Kiarostami, que aqui é apropriadamente intenso e ambíguo na pele do pai de Amir.

Igualmente meritória é a música composta por Alberto Iglesias, habitual colaborador de Almodóvar, responsável pelo reforço da vibração emocional de algumas sequências e pela única nomeação que o filme recebeu para os Óscares, na categoria de Melhor Banda-Sonora.

 

Não tendo o peso mediático de muitos títulos com mais nomeações que têm chegado às salas, "O Menino de Cabul" corre o risco de ser eclipsado por estes junto do grande público, mas não será seguramente por falta de qualidades, uma vez que esta é uma obra acima da média e mais um passo em frente no interessante percurso de Marc Foster - que, entretanto, já se encontra a preparar a próxima aventura de 007, alargando ainda mais a sua versatilidade.