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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Fundo de catálogo (8): The Charlatans

 

A propósito do concerto de estreia dos Charlatans em Portugal, agendado para esta segunda-feira na Aula Magna, em Lisboa, deixo aqui o vídeo do clássico "Weirdo", um dos hinos da euforia madchester incluído no segundo disco da banda, "Between 10th and 11th", de 1992.

 

É certo que, de então para cá, o grupo britânico nunca atingiu o nível que esse e outros temas prometiam, ainda que canções mais recentes como "Impossible", "A Man Needs to Be Told", a bela "My Beautiful Friend" ou a viciante "You're So Pretty - We're So Pretty" (guest starring Naomi Watts no videoclip) talvez justifiquem espreitá-lo ao vivo - mesmo que chegue com um atraso de quase 20 anos (!).

 

 

 

The Charlatans - "Weirdo"

O ano em que os pais dele saíram de férias

"Bungalow" (2002) é a primeira longa-metragem de Ulrich Köhler, um dos mais recentes e aclamados realizadores alemães que dirigiu também a aplaudida "Montag kommen die Fenster" (2006).

Esta primeira obra foca as peripécias de Paul, que durante o Verão em que se encontra a cumprir o serviço militar afasta-se da sua companhia durante uma viagem e esconde-se no bungalow dos pais, ausentes em férias.

 

 

Mesmo assim não estará sozinho nesse retiro abrupto, já que o seu irmão mais velho, com quem tem uma relação conflituosa, vai lá passar uns dias com a namorada, que se torna em objecto de disputa.

 

Drama offbeat pontuado por alguns subtis acessos cómicos, "Bungalow" é um conseguido olhar sobre a atribulada e nebulosa fase que marca o fim da adolescência e o início da idade adulta, expondo de forma sensível e verosímil o desconforto do seu protagonista.

Tal como outros nomes do novo cinema alemão, Köhler recorre a um realismo cru e árido, apresentando uma série de situações prosaicas mas cuja eficaz tridimensionalidade as torna magnéticas q.b., mergulhando com perspicácia em pequenos episódios do quotidiano de um jovem.

 

 

Boa parte desse efeito realista deve-se também à interpretação do estreante Lennie Burmeister, cujo olhar lacónico e postura recatada expressam bem a dolência e tédio do qual Paul não consegue desprender-se - ou não quer, dúvida que o filme não chega a explorar.

Tendo em conta que o protagonista está presente em praticamente todas as cenas, "Bungalow" dificilmente resistiria sem um desempenho tão consistente, e que até acaba por compensar pontuais sequências de relevância algo questionável, onde o filme parece arrastar-se.

 

Sem nunca julgar Paul - ou qualquer outra personagem - nem tentar que este gere empatia através de rodriguinhos fáceis - antes pelo contrário -, Köhler capta aqui um interessante retrato do crescimento, que mesmo não sendo dos mais ousados ou imaginativos é suficientemente complexo e ambíguo para fazer de "Bungalow" um filme a ter em conta.

 

 

"Bungalow" é um dos filmes da KINO - Mostra de Cinema de Expressão Alemã, presente no cinema São Jorge, em Lisboa, até 6 de Fevereiro

Duas vidas e um carro

Karl é um jovem com uma carreira promissora numa companhia de seguros, mas cujo sucesso profissional lhe é quase indiferente, mantendo-o numa rotina sem surpresas e num crescente estado de apatia.

O cenário muda quando o patrão o escolhe para investigar uma empresa de aluguer de automóveis, o que o leva a candidatar-se a um cargo de condutor de forma a conhecer o negócio por dentro.

É aí que trabalha Hans, cuja postura irriquieta e espirituosa não poderia estar mais distante do seu comportamento tímido e cauteloso, mas apesar desta diferença - ou talvez por causa dela, nasce rapidamente entre os dois uma atípica cumplicidade.

 

 

 "Um Amigo Meu" (Ein Freund von mir), segunda longa-metragem de Sebastian Schipper, segue esta amizade repentina oscilando entre o drama e a comédia, investindo nos contrastes de duas personagens cujos rumos se entrecruzam e os obrigam a rever os seus modos de perspectivar a vida.

 

Retrato da solidão e individualismo cada vez mais presentes nas sociedades contemporâneas, o filme tem uma premissa interessante e algumas boas ideias, mas à semelhança do seu protagonista é quase sempre demasiado hesitante, enveredando por mudanças de tom algo abruptas que o tornam numa obra desequilibrada.

Por um lado, os momentos cómicos são mais curiosos do que particularmante hilariantes; por outro, a vertente dramática não explora as personagens além da superfície, usando-as mais para episódios caricaturais e não retirando delas uma densidade digna de nota.

 

A realização de traços contemplativos potencia ocasionais sequências visualmente apelativas, sobretudo nas cenas nocturnas, embora instale também alguma monotonia e acentue o ritmo demasiado lento do filme, onde os gags nem sempre têm o timing mais apropriado.

 

 

Daniel Brühl, uma das mais fortes promessas alemãs, cujo olhar expressivo marcou "Adeus Lenine!", de Wolfgang Becker, ou "Os Edukadores", de Hans Weingartner, apresenta mais um bom desempenho, e Jürgen Vogel sai-se igualmente bem num registo díspar, quase delirante, ainda que nem eles nem a reluzente Sabine Timoteo consigam disfarçar as irregularidades do argumento.

Melhor do que este é a banda-sonora, com belas canções de travo melancólico servidas por nomes como os Gravenhurst, Talk Talk, Isolée ou International Pony, que aliadas às interpretações e a pontuais cenas criativas (como a de uma inesperada conversa em castelhano) ajudam a que "Um Amigo Meu" seja um filme simpático e agradável, mesmo que de impacto demasiado passageiro. Como o de algumas amizades, de resto.

 

 

"Um Amigo Meu" é um dos filmes da KINO - Mostra de Cinema de Expressão Alemã, presente no cinema São Jorge, em Lisboa, até 6 de Fevereiro

 

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