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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Estreia da semana: "The Lovebirds"

Nada de tremendamente entusiasmante esta semana, parece-me, mas posso estar enganado.

De qualquer forma, o destaque vai para "The Lovebirds", de Bruno de Almeida, um conjunto de várias histórias decorridas em Lisboa e protagonizadas por um elenco algo inesperado - que inclui os já habituais Rogério Samora, Ana Padrão, Ivo Canelas ou Joaquim de Almeida mas também Fernando Lopes, Joe Berardo (!), Drena De Niro (sim,a  filha de quem estão a pensar) ou Michael Imperioli e John Ventimiglia.

Foi com os dois últimos, celebrizados pela série "Os Sopranos", que eu e a Inês estivemos a falar ontem. Aqui fica o vídeo com parte da conversa:

 

 

Outras estreias:

  

"10.000 AC", de Roland Emmerich

"As Crónicas de Spiderwick", de Mark Waters

"Halloween", de Rob Zombie

"Lobos", de José Nascimento

"Winx - O Segredo do Reino Perdido", de Iginio Straffi

Elephant

 

Depois de singles, EPs e remisturas para bandas como os Klaxons ou Bloc Party, os Crystal Castles avançaram finalmente para o primeiro longa-duração.

 

E o álbum, homónimo, impõe-se desde já como um dos mais viciantes do ano, que à semelhança de alguns temas pelos quais o duo canadiano se distinguiu consegue uma combinação que tanto vai ao electro e synth pop como às repetitivas e catchy melodias de jogos de consolas - e é um dos poucos projectos new rave em que esse rótulo até faz sentido.

Se os Add N to (X) ou Miss Kittin se juntassem à banda-sonora do "Tetris" ou do "Bubble Dragon", dava mais ou menos isto.

 

Agora só espero que passem por palcos nacionais em breve, porque a meia hora de concerto em Paredes de Coura no ano passado, embora invejavelmente contagiante, soube a pouco.

Aqui fica uma das canções do disco, tão eficaz que até mete elefantes a dançar:

 

 

Crystal Castles - "Crimewave"

9 meses segundo o livro de estilo indie

O cinema independente norte-americano, se por vezes oferece algumas obras marcantes e de facto originais, tem nos últimos anos encorajado uma série de títulos que reclamam esse rótulo mas que, no fundo, acabam por ser tão formatados como uma banal comédia romântica ou o thriller mais descartável.

 

Temas, cenários e personagens que há uns anos surpreendiam pela frescura e novos pontos de vista são hoje parte de um template que serve as necessidades de qualquer realizador com ambições de se tornar alternativo, ainda que o faça pelo rumo mais estereotipado.

 

 

Jason Reitman, por exemplo, que em "Juno" exibe praticamente todos os lugares-comuns associados a esta tendência: do ambiente suburbano às personagens disfuncionais, passando pela banda-sonora indie (muitas vezes caindo em chatinhas canções boy-meets-girl), pela simplicidade formal ou pelos tons agridoces da dramedy, o livro de estilo parece ter sido bem estudado.

 

Não que haja grande problema em voltar a recorrer a estes elementos pela enésima vez, mas não se encontram aqui muitas marcas particulares de Reitman, e por isso "Juno" é praticamente um filme anónimo, ainda que não falte quem defenda aqui um prodígio de originalidade e brilhantismo, como o atestam, por exemplo, as quatro nomeações para os Óscares.

Defendido por muitos que aqui identificam uma pespectiva "diferente" e mais realista da adolescência, é pena que filmes que o fizeram com maior arrojo e credibilidade não tenham ganho a mesma atenção - como "Uma Pequena Vingança", de Jacob Aaron Estes, ou "L.I.E. - Sem Saída", de Michael Cuesta, entre muitos outros.

 

 

Nem mesmo "Ghost World - Mundo Fantasma", cuja personagem principal tem muitos traços em comum com a protagonista de "Juno", ainda que esse filme de Terry Zwigoff nunca traia a perspectiva sarcástica para se tornar num feelgood movie para a família, algo que ocorre tanto na obra de Reitman como em "Uma Família à Beira de Um Ataque de Nervos", com a qual é habitualmente comparada (até porque ambas foram nomeados para Melhor Filme pela Academia).

 

"Juno" arranca mal, com uma protagonista que começa por gerar pouca empatia muito por culpa dos diálogos que querem ser cool à força e deixar um soundbyte marcante de três em três frases. A argumentista Diablo Cody bem se esforça para injectar em cada conversa o máximo de referências da cultura pop, mas muitas são forçadas e apenas contribuem para que as situações soem a falso.

Também não ajuda que algumas "críticas" sejam bastante rudimentares, casos dos retratos da manifestante anti-aborto ou da clínica, que parecem feitas por um adolescente, e que a primeira metade do filme saltite entre situações inverosímeis (desde a reacção do pai e madrasta da protagonista ao anúncio da sua gravidez à forma como esta escolhe o casal que adoptará o seu filho).

 

 

Mesmo assim, apesar do tentador cinismo que tende a instalar-se perante esta sucessão de cenas pouco convincentes, "Juno" até consegue recompor-se e tornar-se num filme interessante, ancorando-se muito num elenco consistente e num argumento que vai permitindo que algumas personagens se revelem mais do que aquilo que pareciam à partida.

 

O maior destaque vai, claro, para Ellen Page, que apresenta uma interpretação capaz de superar os articificialismos de alguns diálogos que é obrigada a debitar, confirmando as provas de talento demonstradas em "Hard Candy" ou "X-Men: O Confronto Final". Os secundários não vão pior, e se J.K. Simmons ou Jason Bateman mantêm o nível habitual quem mais surpreende é Jennifer Garner, que por uma vez apresenta uma interpretação digna de elogios ao conciliar fragilidade e contenção na pele de uma mulher que nasceu para ser mãe mas não pode ter filhos.

Já Michael Cera limita-se a repetir o tipo de personagem que desempenhou em "Super Baldas", encarnando um geek unidimensional que pouco ou nada tem para fazer durante o filme - e o seu namoro com a protagonista é das coisas mais implausíveis de "Juno".

 

 

As muitas marcas da cultura pop, por vezes ostensivas, resultam bem em alguns momentos, sobretudo nas conversas entre as personagens de Page e Bateman, das quais vai surgindo uma química credível e com cenas divertidas como a da banda-desenhada ou a dos filmes de terror.

A relação do casal adoptivo é igualmente bem explorada, já que as personagens se afastam dos estereótipos a que parecem estar confinadas ao início para lidarem com as responsabilidades ou limitações inerentes à idade adulta.

Esta relativa densidade dramática compensa a quase omnipresente ligeireza com que a gravidez da protagonista é abordada, ainda que mesmo essa melhore na recta final do filme.

 

Obra curiosa mas desequilibrada, "Juno" está muito longe de ser uma grande surpresa ou a salvação do cinema independente, ainda que não tenha culpa do hype - e consequentes expectativas - de que se tornou alvo.

Vale sobretudo pela confirmação de uma actriz cheia de potencial e por alargar o currículo de um realizador que tanto aqui como em "Obrigado Por Fumar", o seu filme anterior, comprovou ter talento ainda que não se imponha, pelo menos por enquanto, como uma voz única ou especialmente reconhecível.