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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Quem é aquela rapariga?

"En la Ciudad de Sylvia" podia ser só mais uma história boy-meets-girl, e quem apenas conhecer a premissa do filme pode ficar com essa ideia, já que se concentra nos três dias em que um rapaz procura uma rapariga pelas ruas de Estrasburgo, que aí conheceu seis anos antes.

 

No entanto, esta obra do espanhol José Luis Guerín envereda por um singularíssimo território vincado por uma inventiva gestão do tempo e sobretudo do espaço, onde as vias da cidade se tornam num labirinto físico e emocional, proporcionando ao protagonista um confronto com as suas memórias e a expectativa de reencontrar Sylvia, a mulher-mistério que origina um curioso jogo de equívocos.

 

 

Intrigante conjugação de um realismo de traços quase documentais com uma atmosfera discretamente onírica, "En la Ciudad de Sylvia" pode ser, tal como a mulher que consta do seu título, várias coisas: uma ode à beleza feminina, desenvolvida na longa sequência passada numa esplanada com várias estudantes universitárias, um estudo sobre os comportamentos humanos e a forma como se interligam com o acaso ou um retrato sensorial do quotidiano de uma pequena cidade, entre outras hipóteses.

 

Não há muitos filmes que possam orgulhar-se de contar com um tão forte sentido de liberdade, assente numa narrativa solta e refrescante que nunca cai no hermetismo nem no auto deslumbramento - ainda que o ameace, como na cena inicial, com um longo plano fixo que foca o protagonista em pose estática.

Guerín mostra-se astuto na estruturação de enquadramentos ou na precisão com que relaciona som e imagem, abdicando quase sempre dos diálogos para dar espaço aos sons da cidade, particularmente nos largos minutos em que a personagem principal segue uma mulher que julga ser Sylvia.

 

 

 

Esta estranha energia faz deste um filme magnético e absorvente como poucos, e embora pareça que o casting só seleccionou jovens (sobretudo raparigas) com uma fotogenia muito acima da média (as excepções são raras), nunca parecem artificiais como em certos tipos de produções.

 

Obra com múltiplos motivos de interesse ou pluralidade de leituras, "En la Ciudad de Sylvia" não chega a ser tão marcante como sugere a espaços, uma vez que os últimos 20/30 minutos perdem algum fulgor e o desenlace é demasiado arbitrário, pelo que a opção pela média-metragem talvez resultasse melhor do que a de uma longa. Nada disto invalida, contudo, que esta seja uma experiência cinematográfica criativa e recomendável.

 

 

"En La Ciudad de Sylvia" integra a programação da quinta edição do IndieLisboa e é reexibido a 3 de Maio às 21h45 no cinema Londres

 

Sim, mais um post sobre os Ladytron

 

Mas acho que se justifica, já que é para avisar que "Velocifero", o seu quarto disco, pode ser ouvido na íntegra no myspace da banda embora só seja editado a 3 de Junho. É de aproveitar, pelo menos por estes lados tem lugar cativo no melhor que a música de 2008 trouxe até agora.

 

Como ainda não há videoclips de nenhum tema novo - mas já se sabe que "Ghosts" é o primeiro single -, deixo aqui o de "Sugar", um dos mais trepidantes temas do antecessor "Witching Hour".

 

 

Ladytron - "Sugar"

 

Missão por cumprir

Com o primeiro filme estreado em 1980, desde então Johnnie To tem realizado dois a três por ano, uma média que o inscreve entre os cineastas mais prolíficos do momento e, também, entre os mais aplaudidos, já que títulos como "A Hero Never Dies" (1998), "Exiled" (2006) ou "The Mission" (1999) alcançaram um aplauso quase global.

 

Este último move-se num dos seus géneros de eleição, o thriller, que facilmente se distingue do de muitos realizadores conterrâneos de Hong Kong, ainda que nem sempre para melhor. No argumento o filme não acrescenta muito, focando cinco assassinos encarregues de proteger um poderoso chefe do crime que sobreviveu por pouco a uma tentativa de homicídio e mantém-se como um alvo a abater.

 

 

Formalmente, To demonstra em alguns momentos aquilo que muitos o levam a considerá-lo como um dos mais elegantes estetas do cinema asiático actual, através de cenas de acção que substituem a adrenalina a um ritmo mata-cavalos por um sequências de suspense mais pausadas e lacónicas. Uma sequência de tiroteio num centro comercial é disso exemplo, minuciosamente orquestrada e com direito a alguns enquadramentos fulgurantes.

 

É pena que esta ocasional subtileza visual raramente tenha contraponto na construção de personagens, que só lá para o final é que começam a afastar-se de frágeis caricaturas, numa banda-sonora nem sempre oportuna (e frequentemente anacrónica) ou num argumento genérico que também só entusiasma nos últimos vinte minutos - embora não muito, fechando com um desenlace que se julga surpreendente mas que acaba por cair na inconsequência.

 

 

Há ideias que resultam individualmente, como as cenas temperadas com um humor peculiar - as do cigarro "pirotécnico" ou de um discreto jogo de futebol improvisado num escritório -, lufadas de ar fresco num pouco imaginativo jogo do gato e do rato que se esgota ao fim de algum tempo.

 

Como um todo, "The Mission" é um filme desequilibrado que nunca chega a explorar convenientemente questões de honra, lealdade e companheirismo entre o quinteto protagonista, que apenas são abordadas com algums intensidade na recta final - mesmo que aí já seja tarde demais e a forma como contrastam com a leveza dramática dos momentos anteriores quase levem a pensar que se trata de outro filme. Mas não, é o mesmo, e infelizmente faz parte dos desapontantes.

 

 

"The Mission" é um dos filmes da programação da quinta edição do IndieLisboa