Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Os Blondie não desdenhariam

 

"Couples", o segundo álbum dos britânicos Long Blondes, é editado esta semana e felizmente está uns degraus acima do algo irregular registo de estreia do grupo, "Someone to Drive You Home" (2006).

 

Canções como "Round the Hairpin" ou "Nostalgia" tornam este num disco mais ecléctico do que o antecessor, e ainda que as referências new wave continuem lá apontam para novas direcções.

 

No primeiro single, "Century", a banda está mesmo quase irreconhecível pelo reforço da carga electrónica (cortesia da produção de Erol Alkan), usada em função de uma inesperada carga disco. É de longe o ponto alto do álbum e uma das melhores canções do ano, e é pena que no videoclip surja numa versão editada, sem a mesma força do original:

 

 

The Long Blondes - "Century"

Começar de novo, e ainda mais uma vez

Um atentado ao presidente dos Estados Unidos numa cimeira não será propriamente o ponto de partida mais inesperado para um filme, mas "Ponto de Mira" (Vantage Point) tenta desconstruir esse cenário ao apostar numa narrativa que recusa uma lógica linear e foca a mesma situação segundo diferentes pontos de vista.

 

É certo que mesmo esta ideia não é nova, tendo sido empreendida no marcante "Rashomon", de Akira Kurosawa", ou "Coragem Debaixo de Fogo", de Edward Zwick, entre outros, embora consiga fazer com que este thriller de Pete Travis seja um pouco diferente da maioria - ou que pelo menos seja capaz de o aparentar até certa altura.

 

 

"Ponto de Mira" desenvolve-se em torno de dois acontecimentos-chave, a tentativa de homicídio do presidente dos EUA no início do seu discurso, em Salamanca, e a explosão de um edifício na mesma praça da cidade espanhola, poucos segundos depois.

Através de recorrentes rewinds, a acção regressa a esses momentos mas centra-se sempre em personagens diferentes, seja a do agente secreto que tem de proteger o presidente, a de um turista que filma as cenas de pânico generalizado, as de jornalistas de uma estação televisiva ou as dos terroristas.

 

Travis regressa sempre ao ponto de partida, interrompendo cada sequência com cliffhangers estratégicos, e à medida que vai saltitando entre personagens revela novas informações que acrescentam pormenores sobre a origem do incidente.

 

 

Com uma realização ágil e ritmo dinâmico, mas não epiléptico, vai edificando uma narrativa absorvente e condimentada com eficazes momentos de suspense, nunca deixando que "Ponto de Mira" se torne aborrecido.

O entretenimento não sai, então, comprometido, o que já não é pouco, ainda que também não seja muito, pois este é um daqueles filmes cuja conseguida adrenalina perde impacto à saída da sessão.

 

Travis oferece aqui uma obra escorreita mas igualmente descartável, e se os seus 90 minutos nem são desagradáveis não deixa de ser um pouco frustrante ver actores como Sigourney Weaver, William Hurt, Forest Whitaker ou Eduardo Noriega entregues a personagens utilitárias, meros joguetes de um dispositivo narrativo que se revela pouco mais do que fogo de vista quando o argumento não comporta qualquer densidade.

 

 

 

As motivações dos terroristas ficam por esclarecer e a sua caracterização nunca se desprende dos estereótipos mais preguiçosos, e mesmo o protagonista, o agente secreto interpretado por Dennis Quaid, não passa de um Jack Bauer encarnado sem a garra e convicção de Kiefer Sutherland - e de resto, "Ponto de Mira" não está assim tão longe de um episódio longo da série "24".

 

Incidindo em temáticas sérias e actuais, o filme dispensa qualquer abordagem complexa e antes prefere carregar no acelerador, algo em que até se sai razoavelmente bem mesmo que teime em levar-se demasiado a sério - o humor, infelizmente, é involuntário - e chegue a irritar por alguma manipulação emocional - e para isso não há nada mais gritante do que colocar crianças indefesas em risco.

Ou seja, quem quiser cinema fast-food terá certamente piores prospostas para passar hora e meia à frente do grande ecrã, já quem procurar algo de novo, desafiante ou memorável talvez faça melhor em considerar as sessões das salas ao lado.

 

 

Tourada entre a dança e a melancolia

Nem o facto de terem actuado em Portugal há menos de meio ano nem o da agenda de concertos oferecer concorrência considerável impediu que os Editors tenham sido acolhidos por muitos na noite de ontem, na Praça de Touros do Campo Pequeno, em Lisboa.

Durante hora e meia, o quarteto britânico apresentou canções dos seus dois álbuns e voltou a provar que ao vivo é ainda mais convincente.

 

 

Intencionalmente ou não, ao entrarem em palco ao som de "Camera" os Editors colmataram uma falha do seu espectáculo no Estádio do Restelo, em Novembro do ano passado, onde deixaram de fora essa canção, uma das melhores da sua discografia.

Dramática e envolvente, levou a uma óptima abertura devidamente aplaudida pelo público, em especial pelos muitos adolescentes que se acotevelaram nas grades junto ao palco e não foram parcos em ovações sucessivas.

 

Mas os adolescentes não foram os únicos a aplaudir, já que o público do recinto incluía também espectadores de faixas etárias mais elevadas e que encontram, porventura, na jovem banda de Birmingham dignos sucessores de uns Echo & the Bunnymen ou Chameleons, entre outras referências do pós-punk de inícios da década de 80.

 

 

 

E a verdade é que os Editors são dos escassos nomes da vaga de novos grupos seguidores dessa sonoridade que conseguiram não desiludir do primeiro para o segundo álbum, já que tanto "The Back Room" (2005) como "An End Has a Start" (2007) são registos consistentes.

Ao vivo reforçam ainda mais essa impressão, e na noite de ontem dosearam de forma equilibrada momentos marcantes dos dois discos.

 

Os fulminantes "Blood" e "Bullets", logo aos primeiros minutos, forneceram saudáveis rajadas de um rock negro e sedutor, com correspondência imediata na pulsão dançável que tomou conta da maioria do público presente na plateia.

Foi em canções de descarga como estas, ou como "Fingers in the Factories" ou "All Sparks", que a actuação atingiu os seus picos de intensidade, contrastando com a tendência mais apaziguada de alguns temas do segundo álbum, casos de "When Anger Shows" ou "Put Your Head Towards the Air", que não deixaram de gerar belos momentos ainda que sem o mesmo nervo.

 

 

Mesmo assim, "An End Has a Start" catalisou dois ou três episódios de alta voltagem, com destaque obrigatório para a faixa homónima, a portentosa "Bones" ou "Smokers Outside the Hospital Doors", single responsável pelo frenético final do encore.

Pelo meio passaram também a incontornável "Munich", a despertar um evidente e esperado entusiasmo geral, ou uma interessante cover de "Lullaby" dos Cure, ligeiramente mais acelerada do que o original.

 

Servidos por um belo e nada espalhafatoso trabalho de iluminação, que foi dando novos tons à imagem do fundo do palco a remeter para a capa do segundo disco, os Editors pareceram divertir-se tanto como os espectadores.

 

 

Tom Smith, em particular, disparou inúmeros "obrigados" mantendo sempre uma postura radiante e enérgica, saltitando por todo o palco e não deixando de subir para cima do piano. Com uma forma física à altura da sua brilhante voz, comprovou-se um eficaz frontman de uma banda cuja crescente popularidade não parece ter comprometido a sua entrega.

 

Enquanto assim for, os Editors terão provavelmente tantos ou ainda mais adeptos em futuros concertos por cá. E se desta vez até tocaram "Camera", fica o pedido de que da próxima não se esqueçam de "Someone Says" - talvez quem os veja esta noite, no Coliseu do Porto, tenha essa sorte.

 

 

 

Editors - "Bullets"