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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Amores de Verão (12): Bran Van 3000

 

 

Julgava-os já extintos, mas afinal os canadianos Bran Van 3000 editaram um disco há poucos meses - o seu terceiro, "Rosé", em finais do ano passado, ainda que deste lado do Atlântico não se tenha dado muito por isso (nem do outro, provavelmente).

 

Boas notícias para quem considerou o registo de estreia do colectivo, "Glee", um dos mais imaginativos e promissores da década passada, antes da cena musical canadiana - à qual o grupo nunca é associado - ser alvo de hype e das sonoridades disco - exploradas em "Discosis", o segundo álbum - voltarem a ter impacto na criação musical.

 

E mesmo que o novo registo não seja o melhor da banda (antes pelo contrário), sempre permite abrir possibilidades (remotas, é certo) de ver o grupo ao vivo num palco nacional ou próximo, e aí recordar canções como "Afrodiziak", "Rainshine" ou o hino de Verão "Drinking in LA", que há dez anos tornou o mentor Jamie "Bran Man" Di Salvio e colegas em one hit wonders.

 

 

Bran Van 3000 - "Drinking in LA"

 

Amores anteriores

 

Estreia da semana: "Hellboy II: O Exército Dourado"

 

 

Depois de uma satisfatória adaptação do anti-herói criado por Mike Mignola, Guillermo del Toro regressou à saga da personagem da Dark Horse Comics e o resultado é "Hellboy II: O Exército Dourado" (Hellboy II: The Golden Army).

 

Além do realizador, esta sequela mantém o elenco do antecessor - que inclui Ron Perlman ou Selma Blair - e coloca o protagonista no centro de uma invasão do Inferno à Terra.

Caso mantenha a competência do primeiro capítulo - e muitas críticas lá de fora dizem que até a supera -, está aqui um filme-pipoca com doses de entretenimento e inteligência acima da média.

 

Outras estreias:

 

"Aquele Querido Mês de Agosto", de Miguel Gomes

"Superhero Movie - Um Estrondo de Filme!", de Craig Mazin

 

 

Trailer de "Hellboy II: O Exército Dourado"

 

Fundo de catálogo (18): Hole

 

Embora para muitos tenham sido mais conhecidos pela figura - e controvérsias recorrentes - da sua vocalista, Courtney Love, os Hole têm na sua curta discografia dois dos mais arrebatadores álbuns da década passada.

 

Se "Pretty on the Inside" (1991) foi apenas mais um entre tantos discos de matriz riot grrrl surgidos no início dos anos 90, a energia e intensidade grunge de "Live Through This" (1994) e a pop flamejante de "Celebrity Skin" (1998) surpreenderam pelas capacidades de composição e interpretação de Love (ainda que as presenças de Eric Erlandson e, mais tarde, de Michael Beinhorn e Billy Corgan tenham ajudado).

 

É pena que, na sua estreia a solo, a ex-senhora Cobain não tenha sido tão bem sucedida (ao contrário da colega Melissa Auf Der Maur), mas canções como "Violet", cujo videoclip fica aqui, quase fazem perdoar esse regresso de não tão boa memória.

 

 

Hole - "Violet"

 

Revisitações anteriores

 

Boy meets girl, versão Hawke

 

 

Já passou por salas nacionais na edição do IndieLisboa do ano passado, mas só agora estreia... e como se arrisca a passar despercebido no meio dos hypes em torno do homem-morcego ou do robô da Pixar, fica aqui a chamada de atenção para "O Estado Mais Quente" (The Hottest State).

 

A segunda experiência na realização de Ethan Hawke, não trazendo muito de novo ao drama indie centrado nos amores dos twentysomethings, tem contudo um argumento coeso, actores ainda melhores e banda-sonora a condizer, e merece por isso uma espreitadela. Comentário mais alargado aqui.

 

Electrónica sóbria, fresca e nórdica

Nos últimos anos, a Suécia tem sido pródiga na oferta de recomendáveis novos artistas, muitos deles com considerável apelo pop assente numa simplicidade acústica ou electrónica - ou na combinação de ambas.

É o caso de nomes como Peter Bjorn and John, Shout Out Louds ou The Legends, e também o de Andreas Kleerup, produtor que agora se estreia no primeiro disco em nome próprio após integrar os Meat Boys.

 

Com um percurso relativamente discreto até agora, teve contudo um momento de maior visibilidade ao produzir o single "With Every Heartbeat", da conterrânea Robyn, ressuscitando a carreira da cantora e gerando um dos temas mais marcantes da música de dança recente.

 

 

Não por acaso, a canção reaparece agora em "Kleerup", mas felizmente acaba por não se destacar muito uma vez que o disco apresenta vários momentos à sua altura e mesmo superiores.

O álbum contém atmosferas semelhantes à desse single, unindo sintetizadores envolventes e orquestrações sóbrias a vozes maioritariamente femininas, os principais elementos de canções imediatas que não se esgotam, no entanto, ao fim de um par audições, graças a uma forte sensibilidade pop e a uma produção apurada.

 

A lista de vocalistas convidadas também ajuda a explicar os bons resultados, e além de Robyn andam por aqui outras vozes escandinavas como a veterana Neneh Cherry e a sua meia-irmã, Titiyo, a revelação Likke Li ou Lisa Millberg (dos Concretes).

 

 

 

Ainda assim, Kleerup nem sempre precisa delas, mostrando-se não menos convincente em instrumentais ora melancólicos - o atmosférico "I Just Want to Make That Sad Boy Smile", apropriado desfecho do disco - ora dançáveis, embora contidos - caso dos hipnóticos "Hero" ou "Tower of Trellick".

 

Noutros casos usa a sua própria voz, que não sendo brilhante consegue conferir densidade emocional à electropop reluzente de "On My Own Again", algures entre os Erasure e os Daft Punk de "Discovery", e à circular "Thank You For Nothing", óptimo momento de electrónica invernosa e desencantada - que reaparece com o título "Lay Me Down", com voz de Cyndi Lauper, no novo álbum da cantora.

 

Outro ponto alto, talvez o melhor do disco, é "Forever", onde uma quase irreconhecível Neneh Cherry partilha o protagonismo vocal com um coro de crianças numa canção de apelo à tolerância. O que poderia cair numa pieguice bem-intencionada resulta numa magnífica canção de travo épico, que consegue ser comovente sem precisar de recorrer a lugares-comuns.

 

 

 

Noutro extremo, uma das novas princesinhas da indie pop, Lykke Li, cativa na mais minimalista "Until We Bleed", onde os seus sussurros quase infantis convivem bem com a elegância electrónica do produtor.

 

Não tão arrebatadora, "Longing for Lullabies" é quase uma continuação de "With Every Heartbeat", mas agora com a voz de Titiyo, e a breve "Music for Girl", com Lisa Millberg, vale pelo contraste com as restantes ainda que não seja mais do que um pastiche dos também suecos The Knife.

Outro raro episódio menos estimulante é "3AM", onde a voz genérica de Marit Bergman não impressiona numa repetitiva receita italo disco.

 

Felizmente, momentos menos apelativos como estes não ameaçam a solidez de uma estreia auspiciosa, que mesmo sem trazer grandes rupturas é uma das mais refrescantes propostas de pop electrónica deste ano, com potencial para agradar a vários públicos. Com discos assim, a tradição sueca mantém a forma e recomenda-se.

 

 

 

Kleerup feat. Titiyo - "Longing for Lullabies"