Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

A melhor arma é um documentário?

Gustav Hofer e Luca Ragazzi parecem acreditar que sim, ou não fosse "Improvvisamente L'Inverno Scorso" (Suddenly, Last Winter), o documentário que realizaram e protagonizaram, um filme-bandeira da luta pelos direitos dos casais gay em Itália.

 

Foi este o motivo que trouxe o casal de jornalistas a Lisboa, onde o filme foi já exibido mas terá outra sessão amanhã (15h15 na Sala 3 do São Jorge), destacando-se como uma das boas (e mais divertidas) propostas do Queer Lisboa.

 

Abaixo deixo o vídeo com parte da conversa que tive com eles, o primeiro de muitos de uma trepidante semana cheia de entrevistas à espera de serem editadas - mas por agora a palavra pertence aos muito simpáticos Gustav e Luca:

 

 

Entrevista a Gustav Hofer e Luca Ragazzi

 

Fundo de catálogo (19): Curve

 

 

Apesar de, entre 1990 e 2005, terem cimentado uma discografia que se revelou desafiante tanto nos álbuns como nos EPs e singles (com lados B muito acima da média), os Curve são uma das bandas mais esquecidas da década passada - e nem mesmo durante esses anos despertaram grandes atenções.

 

Nascida na fase de expansão do shoegaze, a dupla de Toni Halliday e Dean Garcia combinou o melhor das atmosferas densas e enigmáticas dos My Bloody Valentine, Siouxsie and the Banshees ou Cocteau Twins, e o seu cruzamento de guitarras e electrónica passou depois por fases mais industriais ou aproximações ao trip-hop.

Nem sempre manteve o arrojo dos primeiros tempos, é certo, mas também nunca deixou de ser interessante. E gerou descendência em nomes como os Garbage, Whale, 12 Rounds, Ladytron, Colt, Maps ou Asobi Seksu.

 

Hoje, a sua música é recordada em alguns filmes de Gregg Araki (como "Mysterious Skin") e pouco mais, com a reunião a tornar-se improvável uma vez que Halliday tem agora um (menos recomendável) projecto a solo, Chatelaine, e Garcia é produtor de várias novas bandas.

 

Para recordar deixo o videoclip de "Horror Head", um dos momentos altos do disco de estreia, "Doppelgänger" (1992), merecidamente recuperado na (imprescindível) compilação "The Way of Curve". E já agora "Weekend", a última canção criada pelo grupo, que não chegou a ser editada mas cujo download pode ser feito aqui.

 

 

Revisitações anteriores

 

Crise física e emocional

Algum do melhor cinema independente dos últimos anos tem incidido nas dificuldades da adolescência, em particular no despertar sexual, tema fértil capaz de potenciar histórias que exploram com densidade as contradições das personagens.

 

"XXY", obra de estreia da argentina Lucia Puenzo, é mais uma boa surpresa que confirma a tendência, e destaca-se da maioria pelo arrojo de ter, no centro da acção, uma adolescente de quinze anos cujas inquietações típicas da puberdade são reforçadas pelo facto de ser hermafrodita.

 

 

Alex vive com os pais numa aldeia piscatória do Uruguai e a vida relativamente pacata que aí tem arrisca-se a ficar comprometida, já que a entrada na adolescência adensa uma crise de identidade que começa a afectar os seus relacionamentos - cujo exemplo mais forte é a agressão ao seu melhor amigo, talvez por ter deixado de tomar a medicação que impede a masculinização do seu corpo (e comportamentos).

 

Contudo, a visita de um casal conhecido dos pais parece trazer uma solução à vista: uma operação cirúrgica que permitirá que a adolescente deixe de ter dois sexos. Mas nem a protagonista nem os pais estão muito confiantes nesta possibilidade, que se torna ainda mais duvidosa quando se gera uma relação próxima entre Alex e o filho do outro casal, Alvaro, também ele atormentado por um dilema sexual.

 

 

Sem nunca se transformar numa montra de situações bizarras nem num dramalhão saca-lágrimas, "XXY" investe com impressionante sobriedade e lucidez num tema difícil, atípio e delicado, colocando questões controversas e não oferecendo respostas óbvias.

 

A partir da situação da protagonista, Puenzo desenvolve com solidez uma abordagem às relações entre pais e filhos, ao carácter volátil dos relacionamentos na adolescência ou às fronteiras entre o normal e o desviante.

E entre a sua brilhante direcção de actores possibilita a confirmação de uma actriz invulgar, a jovem Inés Efron, revelada em "Glue", de Alexis dos Santos (exibido na edição do ano passado do Queer Lisboa), e que aqui supera a promessa que deixou nesse filme. Com uma expressão com tanto de vulnerável como de revoltado, exprime sem falhas o misto de força e insegurança de Alex, construíndo uma personagem imprevisível e complexa.

 

 

Alicerçado numa discreta mas absorvente energia visual, com uma fotografia de tons turvos e uma secura realista que lembram a obra da conterrânea Lucrecia Martel ("O Pântano", "A Rapariga Santa"), "XXY" é contudo mais caloroso no desenvolvimento dramático, mesmo que não evite alguns murros no estômago (onde a violência piscológica não fere menos do que a física).

 

Espera-se que uma primeira obra tão consistente, já distinguida em Cannes (Grande Prémio do Júri em 2007) ou nos Goya (Melhor Filme Estrangeiro em Língua Espanhol), possa agora chegar a um público mais vasto.

 

 

"XXY" integra a programação do Queer Lisboa 12, a decorrer até 27 de Setembro no cinema São Jorge

 

Rebelde com causa

"Clandestinos" é o primeiro filme do espanhol Antonio Hens, cujo currículo inclui a realização de curtas-metragens ou alguns episódios de séries televisivas. Esta sua considerável experiência atrás das câmaras, durante mais de dez anos, ajudará a explicar a solidez presente na sua longa-metragem de estreia, que contudo se tornou mais conhecida pela polémica que despertou no seu país-natal.

 

Tendo em conta que o terrorismo ou a homossexualidade são duas questões centrais da acção, não surpreende que surjam reacções mais inflamadas, ainda que Hens opte aqui por uma abordagem inteligente aos temas que foca, nunca tentando fazer de "Clandestinos" um exibicionista filme-choque.

 

 

A narrativa arranca com a fuga de três adolescentes de um reformatório - um basco, um mexicano e um marroquino - e deixa claro que nem todos ficam mais tranquilos com a liberdade recém-adquirida.

Xabi, o protagonista, aproveita esta oportunidade para tentar encontrar Iñaki, um veterano da ETA que foi seu mentor poucos anos antes e com quem manteve uma relação ambígua. Mas agora este prefere continuar a mais recente missão com a sua esposa, que consiste num atentado em Madrid, e Xabi tenta impressioná-lo com uma explosão no centro da capital espanhola.

 

Desenhando uma teia de tensão e fanatismo em torno dos planos do protagonista e compensando esse negrume com oportunos episódios de humor - servidos pelos seus amigos e delirantes namoradas -, "Clandestinos" consegue um bom equilíbrio entre thriller, drama e comédia.

 

 

A história de Xavi é credível ao sugerir que a solidão e tentativa de afirmação podem encorajar o fascínio por atitudes extremas, embora se arrisque a gerar reacções díspares com um desenlace onde a solução para esta espiral descendente pode vir de onde menos se espera - e está longe de ser a mais politicamente correcta.

 

A realização de Hens, não tendo golpes de génio, é eficaz na consolidação de um efeito realista, e todos os actores estão à vontade na pele das suas personagens, com especial destaque para o principal, um intrigante e circunspecto Israel Rodríguez. Chega e sobra para tornar "Clandestinos" em mais um exemplo do diversificado e surpreendente novo cinema espanhol.

 

 

"Clandestinos" integra a programação do Queer Lisboa 12 e é reexibido hoje às 15h30 na Sala 1 do cinema São Jorge

 

Da adolescência à terceira idade

Infelizmente, no primeiro fim-de-semana do Queer Lisboa 12 não consegui ver os dois títulos que me despertavam maior curiosidade: "A Jihad for Love", de Parvez Sharma, e "Otto; or, Up with Dead People", de Bruce LaBruce. Não se perdeu tudo, pois ainda consegui ver alguns filmes do festival, mas as escolhas não terão sido das melhores:

 

 

"Barcelona (Un Mapa)", de Ventura Pons, uma das longas-metragens da Secção Competitiva, mergulha nas inquietações de seis personagens durante uma noite em Barcelona tendo como eixo narrativo um casal de idade.

Com frequentes cruzamentos entre o passado e o presente, este é um retrato de várias solidões, por vezes partilhadas mas nem por isso menos difícies de suportar, e tem como maior trunfo a entrega de um elenco seguro. Já a realização é menos sedutora, revelando competência mas poucas ideias, e o facto de quase todas as cenas se desenrolarem em interiores também não ajuda - elemento que funcionará melhor na peça de teatro em que o filme se baseia.

Ficam algumas boas personagens, ocasionais diálogos inspirados e uma abordagem sóbria ao adultério, homossexualidade ou incesto, que compensam um ritmo demasiado moroso e um desfecho despropositado.

 

 

 

Da Secção Panorama, que destaca títulos recentes que não estão em competição, uma das obras exibidas foi "Hatsu-Koi | First Love", do japonês Imaizumi Koichi, que apesar de ser a sua segunda longa-metragem expõe várias fragilidades frequentes nas primeiras. Isto porque esta história de vários adolescentes que aprendem a lidar com a homossexualidade não escapa a muitos clichés, ficando marcada por um amadorismo evidente tanto no argumento como na realização ou na direcção de actores.

O tom alterna entre o cómico e o dramático, e ainda que haja algumas cenas conseguidas em ambas as vertentes a sua combinação nem sempre resulta e dá-se mal com o tom panfletário de alguns diálogos (sobretudo em relação aos casamentos gay).

No seu melhor o resultado é simpático, no pior torna-se demasiado ingénuo e tosco, cujo auge será o final inacreditavelmente optimista. Louvam-se as boas intenções, mas de cinema "Hatsu-Koi | First Love" tem muito pouco.