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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Italians do it better?

 

Que belo filme sobre a morte e a amizade é "Saturno Contro", do turco Ferzan Özpetek, drama com toques de comédia e óptimos actores italianos. Sem dúvida um dos melhores do Queer Lisboa 12, e a boa notícia é que pode ser (re)visto este sábado, o último dia do festival.

 

Mais um exemplo do bom cinema italiano recente para juntar ao documentário "Improvvisamente L'Inverno Scorso" (Suddenly, Last Winter), de Gustav Hofer e Luca Ragazzi, que também é reexibido esta tarde no cinema São Jorge. Fica a sugestão para uma recomendável sessão dupla.

 

A melhor arma é um documentário?

Gustav Hofer e Luca Ragazzi parecem acreditar que sim, ou não fosse "Improvvisamente L'Inverno Scorso" (Suddenly, Last Winter), o documentário que realizaram e protagonizaram, um filme-bandeira da luta pelos direitos dos casais gay em Itália.

 

Foi este o motivo que trouxe o casal de jornalistas a Lisboa, onde o filme foi já exibido mas terá outra sessão amanhã (15h15 na Sala 3 do São Jorge), destacando-se como uma das boas (e mais divertidas) propostas do Queer Lisboa.

 

Abaixo deixo o vídeo com parte da conversa que tive com eles, o primeiro de muitos de uma trepidante semana cheia de entrevistas à espera de serem editadas - mas por agora a palavra pertence aos muito simpáticos Gustav e Luca:

 

 

Entrevista a Gustav Hofer e Luca Ragazzi

 

Fundo de catálogo (19): Curve

 

 

Apesar de, entre 1990 e 2005, terem cimentado uma discografia que se revelou desafiante tanto nos álbuns como nos EPs e singles (com lados B muito acima da média), os Curve são uma das bandas mais esquecidas da década passada - e nem mesmo durante esses anos despertaram grandes atenções.

 

Nascida na fase de expansão do shoegaze, a dupla de Toni Halliday e Dean Garcia combinou o melhor das atmosferas densas e enigmáticas dos My Bloody Valentine, Siouxsie and the Banshees ou Cocteau Twins, e o seu cruzamento de guitarras e electrónica passou depois por fases mais industriais ou aproximações ao trip-hop.

Nem sempre manteve o arrojo dos primeiros tempos, é certo, mas também nunca deixou de ser interessante. E gerou descendência em nomes como os Garbage, Whale, 12 Rounds, Ladytron, Colt, Maps ou Asobi Seksu.

 

Hoje, a sua música é recordada em alguns filmes de Gregg Araki (como "Mysterious Skin") e pouco mais, com a reunião a tornar-se improvável uma vez que Halliday tem agora um (menos recomendável) projecto a solo, Chatelaine, e Garcia é produtor de várias novas bandas.

 

Para recordar deixo o videoclip de "Horror Head", um dos momentos altos do disco de estreia, "Doppelgänger" (1992), merecidamente recuperado na (imprescindível) compilação "The Way of Curve". E já agora "Weekend", a última canção criada pelo grupo, que não chegou a ser editada mas cujo download pode ser feito aqui.

 

 

Revisitações anteriores

 

Crise física e emocional

Algum do melhor cinema independente dos últimos anos tem incidido nas dificuldades da adolescência, em particular no despertar sexual, tema fértil capaz de potenciar histórias que exploram com densidade as contradições das personagens.

 

"XXY", obra de estreia da argentina Lucia Puenzo, é mais uma boa surpresa que confirma a tendência, e destaca-se da maioria pelo arrojo de ter, no centro da acção, uma adolescente de quinze anos cujas inquietações típicas da puberdade são reforçadas pelo facto de ser hermafrodita.

 

 

Alex vive com os pais numa aldeia piscatória do Uruguai e a vida relativamente pacata que aí tem arrisca-se a ficar comprometida, já que a entrada na adolescência adensa uma crise de identidade que começa a afectar os seus relacionamentos - cujo exemplo mais forte é a agressão ao seu melhor amigo, talvez por ter deixado de tomar a medicação que impede a masculinização do seu corpo (e comportamentos).

 

Contudo, a visita de um casal conhecido dos pais parece trazer uma solução à vista: uma operação cirúrgica que permitirá que a adolescente deixe de ter dois sexos. Mas nem a protagonista nem os pais estão muito confiantes nesta possibilidade, que se torna ainda mais duvidosa quando se gera uma relação próxima entre Alex e o filho do outro casal, Alvaro, também ele atormentado por um dilema sexual.

 

 

Sem nunca se transformar numa montra de situações bizarras nem num dramalhão saca-lágrimas, "XXY" investe com impressionante sobriedade e lucidez num tema difícil, atípio e delicado, colocando questões controversas e não oferecendo respostas óbvias.

 

A partir da situação da protagonista, Puenzo desenvolve com solidez uma abordagem às relações entre pais e filhos, ao carácter volátil dos relacionamentos na adolescência ou às fronteiras entre o normal e o desviante.

E entre a sua brilhante direcção de actores possibilita a confirmação de uma actriz invulgar, a jovem Inés Efron, revelada em "Glue", de Alexis dos Santos (exibido na edição do ano passado do Queer Lisboa), e que aqui supera a promessa que deixou nesse filme. Com uma expressão com tanto de vulnerável como de revoltado, exprime sem falhas o misto de força e insegurança de Alex, construíndo uma personagem imprevisível e complexa.

 

 

Alicerçado numa discreta mas absorvente energia visual, com uma fotografia de tons turvos e uma secura realista que lembram a obra da conterrânea Lucrecia Martel ("O Pântano", "A Rapariga Santa"), "XXY" é contudo mais caloroso no desenvolvimento dramático, mesmo que não evite alguns murros no estômago (onde a violência piscológica não fere menos do que a física).

 

Espera-se que uma primeira obra tão consistente, já distinguida em Cannes (Grande Prémio do Júri em 2007) ou nos Goya (Melhor Filme Estrangeiro em Língua Espanhol), possa agora chegar a um público mais vasto.

 

 

"XXY" integra a programação do Queer Lisboa 12, a decorrer até 27 de Setembro no cinema São Jorge