Se o recente "A Turma", de Laurent Cantet, teve o mérito de abordar com rara perspicácia e sentido de oportunidade a problemática do ensino, não é felizmente o único exemplo bem-sucedido a mergulhar nessa questão.
"Luta de Classes" (Klassenkampf), o novo documentário de Uli Kick, repórter e realizador, parte de uma premissa semelhante ao acompanhar uma turma do 9º ano de uma escola de Munique, mas onde a obra de Cantet era um exercício ficcional que quase passava por documental, aqui ocorre o oposto.
O filme evidencia a experiência de jornalista do seu autor e é hábil no encadeamento entre depoimentos dos alunos e professores, entrecruzando-os com situações do seu quotidiano dentro e fora da escola.
Embora foque uma turma vincada por vários contrastes, uma vez que a maioria dos alunos são filhos de imigrantes e nem todos têm condições de vida especialmente aprazíveis, Kick nunca cai no miserabilismo nem faz desta hora e meia um panfleto social.
Em vez disso desenha um retrato simultaneamente sério, comovente e divertido sobre o caminho para a idade adulta e as escolhas, por vezes conturbadas e precoces, que os seus protagonistas são obrigados a fazer.
Um belo exemplo do melhor cinema documental, onde o óbvio baixo orçamento em nada compromete um olhar atento e singular.
Premiada em vários festivais internacionais, "O Estranho que há em Mim" (Das Fremde in mir) é a terceira longa-metragem de Emily Atef, e de acordo com a realizadora surgiu da necessidade de retratar uma situação que afecta cerca de 80 mil mulheres por ano na Alemanha mas que raramente é focada no cinema: a depressão pós-parto.
Aqui está na origem de um drama centrado num jovem casal cujo equilíbrio conjugal é ameaçado quando a esposa, Rebecca, não consegue adaptar-se ao novo dia-a-dia após o nascimento do filho.
Incapaz de se relacionar com a criança e dominada por uma ansiedade crescente à medida que passa mais tempo com ela, a protagonista chega a colocar a segurança do recém-nascido em risco e instala em "O Estranho que há em Mim" uma intensa e imprevisível viagem psicológica e emocional.
Atef aposta numa realização despojada e realista, próxima dos domínios da Nova Escola de Berlim, e se o ritmo da narrativa nem sempre é o mais cativante a óptima direcção de actores compensa-o.
Susanne Wolff, no papel principal, é especialmente notável - pense-se numa Norah Jones à beira do colapso - e apesar de alguns episódios extremos o argumento nunca julga as personagens nem se perde em explicações desnecessárias, dando espaço para o espectador tirar as suas próprias conclusões e oferecendo-lhe um dos mais belos e simples desenlaces dos últimos tempos.
"Luta e Classes" e "O Estranho que há em Mim" foram exibidos ontem na KINO - Mostra de Cinema de Expressão Alemã, a decorrer até 29 de Janeiro no Cinema São Jorge, em Lisboa
Fazem parte da Rock Action, a editora dos Mogwai, e tal como estes também são oriundos de Glasgow.
Mas apesar disso e de fazerem as primeiras partes dos concertos da banda, os Errors não exibem muitos traços pós-rock e antes definem o seu som como math house, um misto de math rock e acid house.
Catalogações aparte, têm em "It’s Not Something But It Is Like Whatever" um disco de estreia fresco, lúdico e versátil.
Em "How Clean Is Your Acid House?", EP editado em 2006, o quarteto escocês já tinha deixado sinais de uma intrigante fusão instrumental, e agora o primeiro álbum comprova que essa boa impressão não era enganadora.
Com um maior número de faixas, o disco permitiu ao grupo alargar a sua paleta sonora e desenhar uma convidativa sucessão de ambientes.
A vertente experimental mantém-se mas felizmente nunca cai no hermetismo, e mesmo que nem todos os temas conquistem de imediato, "It’s Not Something But It Is Like Whatever" oferece motivos que justiquem várias audições, mérito de uma produção intrincada que consegue ir surpreendendo aos poucos.
Quase sempre instrumental, o álbum só recorre à voz numa canção, "Cutlery Drawer", por sinal uma das melhores.
Colaboração com a britânica George Pringle, entrecruza o spoken word desta com malabarismos electrónicos espartanos, quase oníricos no início e caóticos no final, cujas texturas são adequadas às aventuras de uma adolescente na noite de Oxford narradas pela cantora.
Se os Lali Puna fossem mais sombrios não andariam longe daqui.
Ainda mais convincente, e de longe o melhor momento do disco, "Pump" é um brilhante devaneio electro de sete minutos com piscadelas de olho ao 8-bit, que tanto lembra os Holy Fuck como os Crystal Castles e é um single gigante para incendiar uma pista de dança.
Ao lado de um pico de intensidade destes os outros momentos de "It’s Not Something But It Is Like Whatever" perdem na comparação, embora os Errors nunca deixem de sugerir cenários cativantes.
Se o também dançável "Salut! France" é um saudável flirt com a synth pop, "Toes" podia ser um (bom) instrumental dos Foals.
Já "National Prism" ou "The Bagpipes" demonstram um ocasional parentesco com algumas composições dos Mogwai, "Crystal Maze" é um raro episódio contemplativo e quase acústico e em "A Lot of the Things You Don't Isn't" os sintetizadores, baixo e bateria cedem o protagonismo ao piano, fechando o álbum com um dos temas mais arrepiantes e que não destoaria em "Ghosts I-IV", dos Nine Inch Nails.
Por enquanto os Errors ainda não estão à altura dos momentos mais inspirados de alguns deste nomes, mas com uma estreia tão segura adivinha-se que em breve possam chegar lá.
Entretanto a eficácia do grupo ao vivo poderá ser comprovada na Aula Magna, em Lisboa, já a 5 de Fevereiro, na primeira parte do concerto dos Mogwai.
Depois dos algo desapontantes "Scoop" e "O Sonho de Cassandra", Woody Allen regressa agora com aquele que é o seu melhor filme desde o prodigioso "Match Point".
"Vicky Cristina Barcelona" volta a contar com a nova musa do realizador, Scarlett Johansson, apenas um dos destaques de um óptimo elenco onde brilham também Rebecca Hall, Penélope Cruz e Javier Bardem.
Comédia ambientada na cidade espanhola que dá título ao filme, centra-se nas férias de Verão de duas amigas norte-americanas e no novelo amoroso que começa a desenhar-se quando conhecem um artista local. O que daqui resulta fica para ver numa sala onde a boa disposição não tardará a instalar-se.
Arranca hoje em Lisboa, no Cinema São Jorge, a KINO –Mostra de Cinema de Expressão Alemã, que aí se mantém até dia 29 e apresenta novos filmes não só da Alemanha mas também da Áustria, do Luxemburgo e da Suíça.
Na edição do ano passado a iniciativa exibiu alguns títulos inéditos e recomendáveis como "Fantasmas" (Gespenster), de Christian Petzold, "Os Falsificadores" (Die Fälscher), de Stefan Ruzowitzky (premiado com o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2008), ou "Bungalow", de Ulrich Köhler, e por isso valerá a pena espreitar o que a programação sugere agora.
Esta noite, a sessão de abertura propõe "No Inverno um Ano" (Im Winter ein Jahr), a mais recente obra de Caroline Link, e conta com a presença da realizadora cujo filme anterior, "Algures em África" (Nirgendwo in Afrika), ganhou o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2003.
A mostra exibe dois filmes nos dias úteis e três nos do fim-de-semana e todas as informações podem ser consultadas no site do Goethe Institut- e algumas impressões sobre os filmes deverão estar aqui pelo blog entretanto.