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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Estreia da semana: I Mostra Sci Fi de Cinema Fantástico

Fotograma de 'Let the Right One In', o filme de abertura da I Mostra Sci Fi de Cinema Fantástico

 

Esta semana, em vez das estreias do circuito comercial, sugere-se a passagem pela I Mostra Sci Fi de Cinema Fantástico.

A iniciativa arranca esta noite no Cinema Londres, em Lisboa, mantém-se aí até domingo e propõe sete filmes, seis deles inéditos em salas nacionais.

 

A excepção é "Let the Right One In", do sueco Tomas Alfredson, que já passou pelo IndieLisboa em 2008 e pode agora ser (re)descoberto na sessão de abertura da Mostra, mais logo às 21h30 - até porque é uma bela mistura de drama sobre a adolescência com a mitologia dos vampiros (mais sobre o filme aqui).

 

Mas há outras propostas com potencial para os adeptos de ficção científica, como "20th Century Boys", do japonês Yukihiko Tsutsumi (16h30), "Midnight Meat Train", do também nipónico Ryûhei Kitamura (19h20), e "Martyrs", do francês Pascal Laugier (21h30), no sábado.

Domingo o Cinema Londres exibe "Sleep Dealer", do norte-americano Alex Rivera (16h30), "Splinter", de Toby Wilkins (18h30), e "Mutant Chronicles", do também britânico Simon Hunter (20h30). E durante os próximos dias, alguns deles serão alvo de atenção aqui no blog.

 

 

Trailer de "Let the Right One In"

 

Amores sangrentos na noite lisboeta

 

"Uma Vida a Direito", o álbum de estreia dos Feromona, foi uma das boas surpresas do rock nacional de 2008 (para quem não o ouviu, nunca é demais relembrar que o download gratuito pode ser feito no site do grupo).

 

Mas este ano o disco ainda vai dando frutos, seja nos concertos da banda ou através de videoclips. Como o do seu novo single, mais um exemplo de salutar sarcasmo em bom português, que fica aqui:

 

 

Feromona - "Bisturi"

 

Fundo de catálogo (27): U2

 

Com o novo "No Line on the Horizon" ainda fresco nos escaparates, aproveito para recordar aquele que terá sido o disco dos U2 que mais ouvi.

"Pop" foi dos álbuns que rodou com maior frequência na minha aparelhagem em 1997 - na altura, ao contrário de hoje, tinha poucos para ouvir e muito tempo para os descobrir.

 

Durante alguns meses foi companhia regular até que, quase de repente, ficou esquecido durante anos à medida que me fui interessando mais por outras referências, poucos meses mais tarde (e aqui o post quase se torna num momento de saudosismo musical centrado em 1998, mas esse assunto talvez fique para outro dia).

 

Ainda ouvi os discos que a banda irlandesa editou depois, embora não só não lhes tenha dedicado tanto tempo como não me tenha parecido que viria a mudar muito de opinião após algumas audições (sem grande entusiasmo).

 

Antes da edição do novo álbum, fui (re)descobrir o percurso do grupo - em parte por motivos profissionais -, e finalmente tirar a poeira da capa de "Pop". E ao fim de um par de audições constato que sobreviveu bem melhor do que esperava.

O facto de ser considerado por muitos um momento menor dos U2 terá mais a ver com o facto de ficar um pouco aquém dos dois anteriores. Em contrapartida supera qualquer um dos que se seguiram, e mesmo sendo desequilibrado - começa e acaba muito bem, no meio às vezes não convence tanto -, está longe do falhanço com que alguns o rotulam.

 

O motivo? Ainda são alguns. "Discotèque" é capaz de ser o último grande single da banda, "Mofo" não se sai pior como um momento infeccioso e dançável, "Last Nigh on Earth" tem um grande refrão, catchy mas não enjoativo, e "If You Wear That Velvet Dress" é do mais sedutor e intimista que Bono já cantou (sobretudo na primeira metade).

Canções mais negras como "Please" ou "Wake Up Dead Man" são igualmente recomendáveis e quase fazem esquecer temas algo quadrados na linha de "Staring at the Sun".

Mas ficando pelos que interessam, deixo aqui um dos pontos altos do disco, e se é verdade que a versão registada no vídeo, ao vivo, está uns furos abaixo da do álbum, ainda lhe faz alguma justiça:

 

 

U2 - "Do You Feel Loved (Live in LA)"

 

Revisitações anteriores

 

Adeus (ou até breve) Lenine

 

Bom concerto, o de Lenine ontem na Aula Magna. Ao longo de quase duas horas, passou por todas as canções do seu último disco, "Labiata" (2008), e intercalou-as com um alinhamento quase em modo best of, entre o memorável (a carga efusiva de "Alzira e a Torre") e o agradável mas algo acomodado (sobretudo nos momentos mais calmos, como "Paciência").

 

Praticamente sem pausas entre os temas, nem mesmo para grandes conversas - alguns desabafos simpáticos e pouco mais -, o músico brasileiro e a banda debitaram um rock vibrante contaminado pelo samba (ou seria o oposto?).

 

Para o efeito muito contribuiu a guitarra agreste, por vezes enfurecida, de Jr. Tostoi em momentos como "Excesso Exceto" e "O Céu É Muito", este último a fechar a actuação antes do encore no maior ponto de ebulição da noite.

 

Quando desacelerou o autor de "Jack Soul Brasileiro" não fascinou tanto, mesmo que alguns momentos de descompressão - a frágil "É o que Me Interessa", por exemplo - também mereçam ser recordados. Para um relato mais detalhado basta clicar aqui.

 

 

 

 

Lenine - "Hoje Eu Quero Sair Só"

 

Revisitar sem reinventar

A herança pós-punk tem sido fonte de inspiração para muitas bandas da geração 00, que recuperaram de alguma dessa música de inícios dos anos 80 a sua reconhecível carga sombria, dramática e intensa.

 

Mas numa altura em que a década já se aproxima do final, é difícil que a exploração dessas influências não acuse agora algum desgaste, mesmo que tenha revelado vários nomes interessantes.

E se três ou quatro projectos até têm conseguido desenvolver um percurso meritório, ainda que longe do fulgor da estreia (Franz Ferdinand, Interpol, Bloc Party), outros tantos não demonstram a mesma capacidade de corresponder à promessa dos primeiros dias (The Bravery, Infadels, The Killers, She Wants Revenge).

 

 

Embora o filão já esteja a dar sinais de cansaço, continuam a surgir novos grupos que buscam pontos de referência nos mesmos azimutes.

É o caso dos londrinos White Lies, cujo álbum "To Lose My Life" não esconde - nem tenta - óbvias marcas dessa linhagem.

 

Se o facto do trio se vestir habitualmente de negro ou a própria capa do disco, de tons não menos soturnos, já sugeriam essa proximidade, as canções não deixam dúvidas de que a banda capta muito do sentido de urgência dos Joy Division, U2 (da fase inicial) ou Echo & the Bunnymen.

Mas também evidenciam marcas dos refrões imediatos dos Duran Duran, da vertente mais gótica dos Depeche Mode ou do sentido atmosférico de uns Tears For Fears.

 

 

Aliados aos traços dessas e de outras bandas, o álbum exibe ainda semelhanças com grupos mais recentes, indo da grandiosidade de uns Killers ao negrume de uns Interpol, ainda que insista mais frequentemente no livro de estilo dos Editors - em especial da fase mais acessível de "An End Has a Start".

 

Ao percorrer o alinhamento de "To Lose My Life", é quase inevitável não sentir o peso destas eventuais - mas quase certas - influências, e mesmo que os White Lies não cheguem a equiparar-se às melhores, têm pelo menos o mérito de não as desperdiçar.

 

Sem trazer nada de novo, o disco serve uma dezena de canções que dificilmente convencem quem não sinta grande entusiasmo por ver estes territórios repisados, embora devam agradar a quem ainda lhes dê o benefício da dúvida.

 

 

É certo que o grupo não tem uma sonoridade particularmente identificável e que as letras, mesmo interessantes q.b., voltam a investir nos temas da morte, solidão e amores trágicos com alguns lugares-comuns.

A sucessão de canções acusa ainda alguns altos e baixos, e por vezes o excesso de desolação pode soar mais forçado do que espontâneo.

 

Mas a coesão instrumental do trio e a intensidade de vários momentos fazem desta uma sólida estreia a que vale a pena regressar, seja por um single portentoso como o tema-título ou, sobretudo, pela brilhante sequência de "E.S.T"/"From the Stars"/"Farewell to the Faiground", que inicia em alta a segunda (e melhor) metade do álbum.

Pode não ser suficiente para tornar "To Lose My Life" num dos discos imprescindíveis do ano, mas ainda permite inclui-lo nas melhores revisitações do pós-punk dos últimos meses.

 

 

 

White Lies - "Farewell to the Fairground"