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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Novo single, novas coordenadas

 

Há dois anos, Maps - projecto a solo do britânico James Chapman - teve no seu disco de estreia, "We Can Create", um conjunto de belas canções entre o shoegaze e a dream pop - com alguns momentos excepcionais como "You Don't Know Her Name" ou "It Will Find You".

 

No seu novo single, Chapman volta a aceitar a electrónica como elemento central mas surge quase irreconhecível.

"Let Go of the Fear" volta a evocar alguns ambientes de finais de 80/inícios de 90, embora mais dançáveis e festivos - se os Beloved regressassem com temperos electro não andariam longe daqui.

 

Enquanto não chega o novo (e aguardado) disco, fica o videoclip do tema:

 

 

Maps - "Let Go of the Fear"

 

Handsome Furs loved this city

Assim que Dan Boeckner e Alexei Perry entraram no palco do MusicBox houve logo faísca.

Acolhidos entre gritos e aplausos na muito concorrida sala lisboeta, o casal canadiano não perdeu tempo e arrancou de imediato para a apresentação das canções do seu novo álbum, "Face Control", sucessor do mais discreto mas não menos interessante "Plague Park" (2007).

 

Na sua segunda actuação em Portugal - a primeira decorreu dois dias antes, em Coimbra -, os Handsome Furs apenas vieram comprovar o que já se suspeitava: que a vertente mais acelerada e eléctrica dos seus novos temas funciona bem em disco mas tem eficácia redobrada num palco.

 

 

Centrada num diálogo equilibrado entre guitarra e teclados, com acompanhamento electrónico a reforçar a cadência dançável, a música da banda manteve quase sempre um apelo físico irrecusável.

 

O ritmo abrandou apenas na belíssima "Handsome Furs Hate This City", um dos poucos temas repescados do álbum de estreia, e numa das duas canções inéditas contempladas no alinhamento, mais atmosférica do que o que se ouve em "Face Control" (e a sugerir que um eventual terceiro disco da dupla poderá ser ainda mais recomendável do que os anteriores).

 

 

Parcos em palavras mas com uma atitude contagiante, mantendo-se sempre tão entusiasmados como grande parte dos espectadores, demonstraram porque é que os Arcade Fire os convidaram para as suas primeiras partes.

 

Boeckner, vocalista e guitarrista carismático, deixou ainda mais vontade de ver por cá a sua banda original - os Wolf Parade - e Perry manteve-se agarrada aos teclados sem contudo deixar de saltitar (das mais variadas formas) ao longo de toda a actuação - um pesadelo para qualquer fotógrafo mas responsável por boa parte do efeito trepidante do concerto.

 

 

Apesar das muitas trocas de olhares entre os dois, o casal não perdeu de vista o público e agradeceu-lhe em várias ocasiões, mostrando-se surpreendido por ser recebido por uma sala cheia.

 

O bom acolhimento foi merecido, já que os dois músicos deram o litro (literalmente, terminando ensopados em suor) e o desfile de canções revelou-se sempre convidativo, embora curto - não chegou a atingir uma hora.

Com mais alguns minutos os resultados poderiam ter sido ainda melhores, mas poucos terão saído desiludidos depois de um concerto-relâmpago tão eufórico.

 

 

 

Handsome Furs - "Handsome Furs Hate This City" (ao vivo no MusicBox), via oaktree555

 

Blog da semana

 

O Cotonete escolheu o gonn1000 como blog da semana, dedicando-lhe um texto onde respondo a algumas perguntas feitas pelo Helder Gomes.

 

Aproveito para agradecer à equipa por se ter lembrado deste espaço, um dos muitos blogs de música que já foram destacados nesta iniciativa semanal.

 

E já agora deixo como sugestão a rádio X-SoundZ, que criei no site há uns anos. Para a ouvir basta clicar aqui.

 

Sessão da meia-noite

 

Tal como os Kills, os White Stripes ou os Blood Red Shoes, também os Handsome Furs são uma dupla metade masculina/ metade feminina e criadora de rock imediato, intrigante e sedutor.

E neste caso são de facto um casal - como o atestam, de forma bem expressiva, muitas das suas fotos promocionais -, e essa química talvez contribua para o entusiasmo que costuma dominar as suas actuações.

 

Companheiros de estrada dos conterrâneos Arcade Fire, de quem fizeram as primeiras partes, Dan Boeckner e Alexei Perry passam agora por Portugal para actuações em nome próprio - há dois dias em Coimbra, hoje em Lisboa - e um novo disco é sempre um bom pretexto.

Sobretudo quando também é um bom disco, como "Face Control", sucessor de "Plague Park" (2007), que dá continuidade a um rock de claro sabor indie e frequentemente dançável.

 

Canções como "Legal Tender", "I'm Confused" ou "Evangeline" já funcionam bem em álbum, mas são das que têm potencial para crescer muito ao vivo. A confirmação pode fazer-se a partir da meia-noite no palco do MusicBox.

 

 

Handsome Furs - "Can't Get Started"

 

A dupla imbatível (e introspectiva)

Dificilmente haverá adeptos mais fervorosos do do-it-yourself do que Peter Broderick.

Pelo menos na noite de ontem, no MusicBox, em Lisboa, o músico norte-americano não só foi um autêntico "homem dos sete instrumentos" (tocou violino, piano, toy piano, guitarra, aproveitou outros utensílios algo inesperados para fazer música e cantou) como ainda tratou do equipamento em palco antes e depois do concerto e vendeu os seus discos.

 

Ainda assim nem sempre esteve sozinho, já que o seu amigo Nils Frahm acompanhou-o ao piano em alguns momentos da actuação e teve a seu cargo a primeira parte.

 

 

Esta atitude é um dos traços do percurso polivalente de Broderick, cantautor e multi-instrumentista que, além de contar com uma considerável discografia a solo, integra os dinamarqueses Efterklang (depois de ter sido convidado pelos próprios) e colaborou com estrelas indie como os She & Him, Dakota Suite ou Balmorhea.

 

Durante o concerto intercalou temas instrumentais e cantados, tendo como fio condutor a folk e algum experimentalismo.

Determinante ao longo de todo o espectáculo, o recurso a loops (gravados na altura, à medida que foi tocando) permitiu que, apesar de ter estado quase sempre sozinho em palco, as canções tenham mantido a diversidade instrumental registada nos discos.

 

 

Capaz de surpreender por esta sobreposição de texturas e camadas, Broderick deu ainda provas de uma voz convincente tanto numa vertente quase sussurrante como em abruptos acessos de intensidade, e assim não foi difícil conseguir manter a atenção do público.

 

A consolidar esta boa impressão, a postura modesta e afável com que se dirigiu aos espectadores fez com que até os comentários da praxe emanassem sinceridade - como a confissão de que este era um dos concertos que mais aguardava, e um dos melhores.

 

Mas se calhar até foi mesmo. Afinal, houve química quando pediu ao público para gritar o mais alto que conseguisse.

 

 

Talvez até demasiada, uma vez que os gritos acabaram por abafar a música quando foram repetidos em loop - "Geralmente quando peço para as pessoas gritarem o resultado mal se ouve entre os instrumentos. Nunca ninguém gritou tão alto", comentou com um sorriso.

 

No mais tranquilo "Father's Song" recuou até à infância - "Esta era a canção que o meu pai me tocava e agora vou tocá-la para vocês" -, em "Return" utilizou uma serra como se de um violino se tratasse e no final arriscou uma canção que não estava programada, embora tenha sido muito solicitada.

"It's Alright", tema arrepiante de adesão imediata, é contudo daqueles que Broderick admite não conseguir tocar sozinho - "Posso tocar a guitarra mas falta a percussão".

 

 

Mas essa limitação não foi problemática porque a cadência das palmas dos espectadores teve quase o mesmo efeito e resultou num daqueles raros momentos de antologia, provavelmente tão memorável para o músico como para o público, a terminar em alta uma acolhedora sucessão de canções.

 

Igualmente digna de elogios, a actuação do alemão Nils Frahm foi magnética tanto nas colaborações com Broderick como na primeira parte.

Interpretando belas composições ao piano, ofereceu melodias delicadas e de forte carga cinemática, não surprendendo por isso que, no final dos concertos, boa parte do público tenha optado por continuar a ouvi-lo levando um ou dois dos seus discos para casa.

 

 

 

Peter Broderick ao vivo em Portland