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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

O fantasma

 

Não falta mística a "Coming Out". A sua estreia decorreu na noite da queda do muro de Berlim, foi o primeiro (e único) filme da Alemanha Oriental centrado na homossexualidade e acabou premiado com o Urso de Prata no Festival de Berlim em 1990.

 

Mas visto hoje, mais de duas décadas depois, este drama de Heiner Carow distingue-se mais como curiosidade histórica do que enquanto abordagem especialmente inspirada da temática.

 

É claro que, tendo em conta o contexto em que nasceu, é um filme corajoso, embora esse arrojo também o leve a funcionar, por vezes, como uma bandeira a favor da tolerância e integração - a mensagem é louvável, já a forma como é passada nem por isso, revelando-se ocasionalmente ingénua e genérica.

 

Alicerçado no colapso emocional de um jovem professor, cada vez mais incapaz de manter uma relação com uma colega à medida que vai aceitando a sua orientação sexual, "Coming Out" consegue, mesmo assim, dar alguma intensidade a uma premissa genérica.

 

O elenco, em particular o actor principal, ajuda a conferir credibilidade às situações, e a realização despojada acentua o realismo dos ambientes (até porque todos os espaços nocturnos eram de facto reais e frequentados por grande parte dos secundários e figurantes do filme).

 

E se a narrativa cai por vezes na modorra, também serve algumas cenas fortes que ajudam a fazer desta uma obra meritória (como as do protagonista no quarto ou o monólogo de um idoso, com ecos do Holocausto), ainda que os seus maiores méritos não sejam os cinematográficos.

 

 

"Coming Out" integrou a programação da 7ª edição da KINO - Mostra de cinema de expressão alemã de Lisboa

 

Vender dois baixos para comprar uma ambulância

Os Bombeiros de Vila Praia de Âncora necessitam urgentemente de uma ambulância. E Jorge Romão, músico dos GNR, pretende ajudá-los através do leilão de dois dos seus baixos eléctricos, um ARIA "Integra" e um modelo exclusivo.

 

No vídeo abaixo, o baixista explica como surgiu a ideia, pouco comum em músicos nacionais, e que peças de memorabilia de outros músicos gostaria de adquirir. E eventuais interessados na compra dos baixos podem licitá-los aqui:

 

 

Estreia da semana: "A Princesa e o Sapo"

 

Numa altura em que a animação por computador revela prodígios técnicos cada vez mais apurados, uma obra como "A Princesa e o Sapo", que assinala o regresso da Disney ao desenho à mão, poderá parecer modesta para quem espera grandes inovações a cada novo filme.

 

Curiosamente, o melhor desta nova colaboração de John Musker e Ron Clements (realizadores responsáveis por "A Pequena Sereia" e "Aladdin") é mesmo a vertente visual, longe de revolucionária (nem precisa de o ser) mas com um cuidado e brilho como há muito não se via num filme dos estúdios.

 

A atmosfera de Nova Orleães, local onde decorre a acção (pouco depois da I Guerra Mundial), respira vida, energia e cor, e a fértil paleta cromática atinge o auge nos números musicais, que mesmo sem superarem a inspiração de alguns clássicos da casa nunca são menos do que cativantes  (Rob Marshall bem podia tirar umas notas para um eventual sucessor de "Nove").

 

É pena que o fulgor visual não tenha correspondência no argumento, sobretudo quando este deixa a protagonista transformada em sapo durante grande parte do filme - especialmente lamentável já que, na sua forma humana, esta princesa é das mais carismáticas da Disney. 

E o obrigatório vilão, que quando introduzido também não parece ter falta de carisma, acaba por ser pouco explorado, não deixando muitas saudades como um parente pobre de Jaffar.

 

Em compensação "A Princesa e o Sapo" tem boas personagens secundárias, gags felizes, um grande coração e não se poupa a alguns riscos (visíveis, por exemplo, no destino de um dos ajudantes do casal protagonista). E se ainda não é desta que a Disney volta a fazer um filme ao nível dos melhores, pelo menos prova que vai valendo a pena continuar à espera.

 

 

Outras estreias:

 

"Homens que Matam Cabras só com o Olhar", de Grant Heslov

"Tudo Pode Dar Certo", de Woody Allen

 

 

e-Cinema: A Disney de volta à animação tradicional

 

Uma mulher sob influência

 

Há dois filmes em "Ghosted". Um concentra-se na história de amor entre Sophie, uma artista multimédia alemã, e Ai-ling, uma taiwanesa que emigra para Hamburgo em busca de pistas do seu passado.

O outro lida com a vida de Sophie após a morte abrupta de Ai-ling (cujo motivo permanece uma incógnita quase até ao final) e com os seus contactos com outra taiwanesa, que tenta entrevistá-la para uma publicação - e aqui esta obra de Monika Treut aproxima-se mais do thriller sobrenatural do que da crónica conjugal.

 

Intercaladas através de recorrentes flashbacks, estas duas linhas narrativas são muitas vezes intrigantes mas não chegam a construir um todo particularmente seguro.

"Ghosted" resulta bem quando incide nos episódios domésticos do casal protagonista, onde apesar dos contrastes culturais terem influência a homossexualidade não é tratada como um tema - abordagem rara e refrescante.

 

Infelizmente, quando aposta numa atmosfera de mistério (de tom fantasmagórico, embora sóbrio) o filme não se mostra tão convincente, lançando algumas pistas interessantes para acabar por desapontar num desenlace mal resolvido.

Fica a relativa originalidade da proposta e, ainda assim, a curiosidade em conhecer mais títulos de Monika Treut, autora com uma longa obra centrada essencialmente na mulher e na sexualidade.

 

 

"Ghosted" é um dos filmes da programação da 7ª edição da KINO - Mostra de cinema de expressão alemã de Lisboa

 

 

O clube da esquina

 

Gerhard Klein, como realizador, e Wolfgang Kohlhaase, como argumentista, foram dois nomes fortes do cinema da Alemanha Oriental e autores de uma série de títulos conhecida como Berlin Films - alguns deles banidos nas décadas de 50 e 60.

 

"Berlim – Esquina Schönhauser" é um dos mais emblemáticos e daqueles que se tornou num objecto de culto, sendo muitas vezes considerado um dos melhores retratos da juventude alemã do pós-2ª Guerra Mundial.

 

O local que dá título ao filme era o ponto de encontro de adolescentes rebeldes e contestatários, e Klein e Kohlhaase centram-se em especial no quotidiano de quatro deles: Dieter, orfão, vive com o irmão e trabalha na construção civil; Ângela, a sua namorada, é costureira e tem uma relação atribulada com a sua mãe, viúva; Kohle, o mais imaturo e optimista, tenta esquecer as agressões do padrasto através do escapismo do cinema americano; e Karl-Heinz deixa de ser o adolescente modelo de uma família abastada quando se envolve em negócios obscuros.

 

Com um olhar crítico mas nem por isso maniqueísta, "Berlim – Esquina Schönhauser" espelha bem os contrastes entre o presente e o passado ou a Alemanha Ocidental e Oriental, elementos que marcam inevitavelmente o dia-a-dia dos jovens protagonistas - com reflexo na descoberta de uma bomba perto de uma estação de comboio ou na sedução de uma noite clandestina de jazz.

 

Além deste fosso geracional, histórico e cultural bem desenhado, o filme tem a seu favor a entrega de todo o elenco e a realização hábil e fluída de Klein, com a cereja em cima do bolo servida por uma soberba fotografia a preto e branco. Uma bela descoberta, portanto.

 

 

"Berlim – Esquina Schönhauser" é um dos filmes em exibição na 7ª edição da KINO - Mostra de cinema de expressão alemã de Lisboa

 

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