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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

O pior dos melhores ainda é bom

 

Depois de dois álbuns praticamente irrepreensíveis - "Witching Hour" e "Velocifero" -, é preciso chegarmos a meio do alinhamento de "Gravity the Seducer" para encontrarmos os Ladytron no seu melhor. A sequência de "Moon Palace", "Altitude Blues" e "Ambulances" é, de longe, a que mostra o quarteto de Liverpool mais à vontade no desenho de canções planantes e espaciais, que aqui são o fim em vista após experiências em torno de heranças electropop, shoegaze ou góticas/industriais nos discos anteriores. Não é que alguns destes territórios não voltem a ser percorridos, mas surgem diluídos num álbum que opta mais pela beleza do que pela vertigem e que acalma mais do que inquieta.

 

O efeito sedutor sugerido pelo título fica, então, um pouco aquém do esperado - sobretudo nos dois instrumentais, "Ritual" e "Transparent Days", curiosidades que fariam mais sentido como lados B -, o que não quer dizer que "Gravity the Seducer" chegue a ser uma desilusão. Os Ladytron, mesmo que por vezes mais lineares ("Mirage", "White Elephant"), parecem continuar a não saber fazer uma má canção, deixam algumas das mais bonitas do ano (com "Ninety Degrees" à cabeça) e mantêm-se entre os nomes confiáveis da electrónica actual. Este capítulo não será o mais brilhante da sua história, mas quantas bandas surgidas na viragem do milénio somam cinco discos tão consistentes?

 

 

Electro-shock blues

 

Depois de três anos de gravações, o quarto disco dos Houdini Blues foi editado há poucas semanas. "Suão" aproxima, mais do que os anteriores, a banda de Évora de influências sulistas, que além do Alentejo natal passam por atmosferas árabes, ibéricas ou até heranças southern gothic, conta o grupo no seu myspace.

 

Com produção e masterização a cargo de Armando Teixeira, é um dos álbuns nacionais recentes a que vale a pena dar alguma atenção e tem em "Pirâmide" o seu cartão de visita. Entre riffs flamejantes e rendilhados electrónicos, a canção não é das mais representativas de um disco menos pujante e dançável, mas é certamente das mais imediatas:

 

Tempos difíceis

 

Não falta quem diga que a premissa de "Sem Tempo" não conta com um filme à altura, mas se a nova obra de Andrew Niccol fica a alguns degraus de uma obra-prima, está igualmente longe de um desastre.

 

A meio caminho entre Charles Dickens (versão futurista) e Phillip K. Dick (com mais crítica social), o realizador de "Gattaca" (1997) avança algumas décadas para apresentar um mundo onde o tempo funciona como moeda de troca, os seus habitantes param de envelhecer aos 25 anos e um rebelde altruísta pretende mudar o estado das coisas - seguindo o lema de Robin Hood e roubando aos ricos para dar aos pobres.

 

"Sem Tempo" responde a uma ideia invulgarmente promissora com um filme que, depois de apresentar os alicerces desta realidade na primeira metade, aposta num thriller despachado na segunda, preferindo então ser empolgante em vez de denso. Mas mesmo com algumas sequências esquemáticas - e um romance algo forçado -, que tornam a obra mais apetecível para um público devorador de pipocas, Niccol mantém-se acima de um qualquer tarefeiro e não deixa de se preocupar com a história que tem para contar.

 

Amanda Seyfried e Justin Timberlake, a dupla protagonista, também não se sai mal como Bonnie e Clyde para a (segunda) geração MTV, embora nunca atinja o nível de Cillian Murphy - por um lado, porque o actor irlandês interpreta a personagem mais ambígua; por outro, porque o seu olhar enigmático e por vezes perturbante a torna ainda mais forte.

 

Num ano com algumas boas surpresas sci-fi viradas para o grande público - "Os Agentes do Destino", "O Código Base" -, "Sem Tempo" dá continuidade a estes blockbusters com ideias, oferece quase duas horas que passam a correr e, também por isso, confirma que vale a pena ir espreitando os filmes de Andrew Niccol - que, não assinando aqui outro "Gattaca", deixa a sua melhor obra desde esse candidato a clássico.