Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Alive and kickin'

Katy B no Palco Heineken. Foto @Ruben Viegas/Everything is New

 

Quase quatro da manhã. Um Palco Heineken a rebentar pelas costuras (e uma área de restauração, à volta, não menos lotada). Uma actuação dos Metronomy que faz dançar com um desfile de doces synthpop. Belo programa para uma sexta à noite, não? Ou um sábado, talvez. O que ninguém imaginaria era este cenário num domingo, mas quem esteve neste fim de semana no Optimus Alive confirmou que, às vezes, o improvável acontece.

 

Se o que se pretendia num festival era, precisamente, um ambiente de festival a sério (coisa que nem sempre se encontra num Verão onde crescem como cogumelos), o do Passeio Marítimo de Algés ofereceu isso mesmo, numa versão ainda mais concorrida do que a de anos anteriores. Para o melhor, como num after hours como este, que além de portugueses chamou nuestros hermanos e muitos turistas de terras de sua majestade (afinal, o público para ver Stone Roses em 2012 tem de vir de algum lado), noutros casos para o pior, como no concerto dos Radiohead. A precisão, arrojo e intimismo da banda de Thom Yorke merecem respeito, mas os muitos fãs(?) nem sempre o demonstraram, pelo menos a vários metros de distância do palco, onde a prioridade parecia ser beber copos, gargalhar ou gritar, ritual ocasionalmente interrompido (ora bolas) pelos escassos hits que o grupo lá foi deixando.

 

De certo modo, até se compreende: os dois ecrãs gigantes pouco ou nada ajudavam quem queria ver o que se passava no palco (um com um plano geral, logo inútil, outro dividido em seis partes com planos de pormenor, não muito melhor), tornando frustrante um concerto que, apesar da frieza (esperada), teve muito para apreciar (uma mão cheia de grandes canções, essencialmente, como na sequência perfeita de "Pyramid Song", "I Might Be Wrong", "Climbing Up the Walls", "Nude" e "Exit Music (for a Film)").

 

Felizmente, a postura cerebral e distante dos Radiohead deu lugar ao rock ultra-físico dos The Kills, umas horas depois, com a perfeição a insinuar-se em "Last Day of Magic" ou "Tape Song". "The Last Goodbye", autêntica cereja em cima do bolo, conseguiu ir mais longe, mostrando as lágrimas de uma Alison Mosshart estupefacta com a entrega do público - depois de dedicar o tema a um fã desmaiado que insistiu em ajudar. Além de comovente, foi o maior momento de antologia do festival, a mostrar aos cabeças de cartaz da noite que um concerto é (ou deve ser) mais do que uma sucessão de canções (mesmo que algumas sejam muito boas).

 

Também em forma, e no Palco Heineken, Santigold foi outra que deixou saudades com uma simpatia contagiante e música à altura - que volte mais vezes, e já agora em nome próprio, porque o novo álbum merecia mais tempo de antena. Com um disco mais antigo, mas ainda fresco, Katy B não esteve pior numa das grandes surpresas (parciais, vá) da sexta edição do festival. Death in Vegas ou Caribou, entre a abstracção e o êxtase, também marcaram pontos, enquanto que Zola Jesus não aqueceu nem arrefeceu, os Morcheeba cumpriram sem grande alarido ("Não conhecemos nenhuma canção da Florence, por isso vamos tocar esta cover que ela canta" teve a sua piada) e a electrónica pica-miolo dos Justice perdeu a (pouca) graça ao fim de quinze minutos (idem para o aparato visual). Mas concertos mais mortiços há sempre e o festival, no geral, esteve bem vivo. Os fãs de Radiohead, que (quase) nunca se enganam, não me deixam mentir:

 

Foto (do concerto de Katy B) @Ruben Viegas/Everything is New

Febre de sábado à tarde

 

"Julho é melhor que Novembro, lá fora está grande brasa", diz-nos Diego Armés. Este ano nem tanto, convenhamos, mas não é por isso que "Sábado à Tarde", a canção que inclui esta citação, deixa de ser um relato certeiro - e divertido, e muito lisboeta (nem sequer falta a Feira da Ladra) - do dia mais aguardado da semana.

 

Quem o faz são os Feromona no tema de avanço para o seu novo EP, "Aquelas Três", que inclui ainda "1991" e "Ché Guevara Eunuco", outros exemplos de boa convivência entre revivalismo 90s, não só musical (tanto se recordam heróis do grunge como os de "Ruptura Explosiva", de Kathryn Bigelow), um sentido de humor aguçado e um despojamento que já faz parte da imagem de marca do grupo.

 

Gravadas no auditório da Fábrica da Pólvora, em Oeiras, estas três canções estão disponíveis para audição e download gratuito no SoundCloud da banda, mas quem quiser tornar as tardes de sábado dos Feromona mais agradáveis pode optar pelo download no Bandcamp (oferecendo o valor que entender). Como incentivo, aqui fica o videoclip de "Sábado à Tarde":

 

No reino da infância

 

"Moonrise Kingdom" tem Wes Anderson estampado em cada fotograma. Dos enquadramentos à fotografia, da linguagem corporal às expressões das personagens, passando pela indumentária e adereços (com uma direcção artística perfeccionista como poucas), há uma estética que, goste-se ou não, só poderia trazer a assinatura do norte-americano.

 

Se no plano formal estamos em território reconhecível e idiossincrático, as temáticas deste sétimo filme não divergem das que o realizador tem vindo a abordar desde "Bottle Rocket" (1996): a família (e as suas disfuncionalidades), o crescimento, a diferença, a inadaptação ou a solidão, trabalhadas num argumento onde o drama não passa sem a comédia (e vice versa).

 

Mais do mesmo? De certa forma sim, mas ao contrário de grande parte da filmografia de Anderson, aqui a narrativa é mais do que uma acumulação vistosa (e exibicionista) de maneirismos, excentricidades e citações cinéfilas, com as personagens a conseguirem ir um pouco além da caricatura (os protagonistas, pelo menos) e uma carga dramática mais equilibrada do que o habitual.

 

Nos seus melhores momentos, "Moonrise Kingdom" é mesmo dos olhares sobre a infância mais bonitos (e por isso melancólicos) que têm chegado ao grande ecrã ultimamente, com a proeza de nos dar a ver o mundo a partir dos seu par protagonista - um casal pré-adolescente que tenta fugir do mundo dos adultos enquanto partilha a paixão pelo escapismo da literatura infantil/fantástica, da música pop emergente (a acção é ancorada nos anos 60) ou da curiosidade que leva à aventura (maior do que a vida, mas plausível quando se tem 11 ou 12 anos).

 

Como esta não deixa de ser uma obra de Wes Anderson, ainda há mudanças despropositadas de tom (a sequência com Jason Schwartzman ou a cena do raio, por exemplo, só estão aqui para reforçar o obrigatório travo offbeat) e o virtuosismo formal, que torna o filme numa elaborada peça de relojoaria, trava alguma força emocional. Mas desta vez, a qualidade sai quase sempre a ganhar ao defeito (ou feitio, se quisermos, que continua a não ser para todos...).