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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Fundo de catálogo (87): Sofa Surfers

 

Há quinze anos, "The Plan" funcionou como um dois em um: por um lado, foi uma curta-metragem do alemão Timo Novotny (mais conhecido por "Life in Loops (A Megacities RMX)", que chegou a passar pelo IndieLisboa); por outro, foi um videoclip dos Sofa Surfers e tornou-se no cartão de visita do seu disco de estreia, "Transit".

 

O colectivo austríaco, que está de regresso com um novo álbum (o negríssimo "Superluminal", editado há poucos dias), é dos poucos sobreviventes da electrónica, vertente downtempo e aparentados, que teve em Viena uma muito falada capital em finais dos anos 90 - e da qual saiu gente como Kruder & Dorfmeister e Tosca, entre outros com muito (e exagerado) hype na altura e hoje praticamente esquecidos.

 

Os Sofa Surfers são também dos poucos dessa cena que vale a pena recordar, já que as suas canções eram geralmente mais ecléticas e contrastantes do que as dos colegas, alternando a contemplação amparada no dub ou no trip-hop com rasgos próximos do rock ou do acid jazz. É o caso de "The Plan", um instrumental trepidante e com qualquer coisa de cinematográfico cujo videoclip, que relata um assalto falhado a preto e branco, já deixava no ar os tons sombrios em que a música do grupo mergulharia, muitas vezes sem regresso,  nos discos seguintes:

 

Vestidos para dançar

 

Um dos melhores discos do ano - no departamento de electrónica dançável, pelo menos - tem single novo. O disco é "TRST", dos canadianos Trust, e tem em "Dressed for Space" a sua aposta mais recente. Faz sentido, ou não fosse este um dos momentos mais imediatos e viciantes da estreia do projecto de Robert Alfons (no qual colabora a baterista dos Austra, Maya Postepski).

 

O videoclip não tem um conceito muito complexo por trás, mas também nem precisa: a canção está pronta a fazer dançar e Robert dá o exemplo, ao lado de dois bailarinos, nas imagens que a acompanham, entre uma paleta de cores brilhantes que traduzem o ambiente alucinado do disco. Agora é só aprender a coreografia:

 

O juiz decide

 

"Dredd" não precisa de mais de dez minutos para exterminar da memória (caso ainda ande por lá) o filme dos anos 90, protagonizado por Sylvester Stallone, que adaptou pela primeira vez para o grande ecrã a personagem da BD britânica - uma das mais fortes a emergir da (sub)cultura underground das últimas décadas.

 

O filme do também inglês Pete Travis, realizador de "Ponto de Mira" (2008) e de séries televisivas, rapidamente desenha um ambiente futurista inquietante que, estando longe de ser um prodígio de originalidade, dá ao cinema mais um cenário suficientemente verosímil, palpável e singular de um mundo pós-apocalíptico. Para não variar, este mundo não é um lugar bonito e o filme, directo e implacável, está à altura - e mantém-se, por isso, fiel à matriz dos comics.

 

Também é verdade que, depois dos primeiros minutos, "Dredd" é um filme que evolui em linha recta, contando a (pouca) história que tem para contar sem grandes desvios e surpresas. Ou seja, é capaz de ser proposta a evitar por quem acha que um bom filme se define como uma boa história bem contada (como o serão tantas outras que não jogam tudo no argumento).

 

Travis tem, ainda assim, alguns truques na manga - não propriamente no argumento, mas no estilo. É que não falta mesmo estilo a um filme que não se aguentaria sem ele, com a vantagem de o que inicialmente parece virtuosismo gratuito - a aposta recorrente em (óptimas) sequências em câmara lenta - ser justificado pela narrativa. Até aqui sem grandes triunfos no currículo, Travis mostra-se um esteta a ter em conta num filme que remete, além da banda desenhada que o inspira, para territórios de John Carpenter (o de "Assalto à 13ª Esquadra", pelos contornos do argumento), Paul Verhoeven (há aqui algum do pragmatismo de "Robocop") ou Zack Snyder (que parece ter vir a ter concorrência à altura na energia visual).

 

Despachado e cinético, "Dredd" até consegue ser mais do que um shoot 'em up estiloso graças a Cassandra Anderson, a jovem candidata ao esquadrão de elite de juízes (e polícias e executores) da imensa cidade onde o filme decorre. Olivia Thirlby veste bem a pele da personagem, de longe a mais vulnerável - aquela com a qual a maioria dos espectadores se identificará -, e equilibra a rigidez do protagonista, interpretado por um Karl Urban cujo rosto nunca vemos. E ainda anda por aqui Lena Headey, impecável como vilã pérfida e sádica - que quase faz a sua Cersei Lannister, de "A Guerra dos Tronos", parecer uma menina de coro.

 

"Dredd" dificilmente ficará como uma referência sci-fi ou das adaptações de comics, mas tem a vantagem de também não querer ser nada disso. Faz o que tem a fazer, agradará quase de certeza a quem tem de agradar e, ao contrário da experiência anterior no cinema, sabe tirar partido de mais um formato para dar continuidade ao culto da BD (candidatando-se também ele a objecto de culto). Missão cumprida, caso encerrado, venham os próximos...