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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Amor em tempos de crise

 

Sonhar não custa nada, mas tentar concretizar um sonho pode sair bem caro. Que o diga o casal protagonista de "Uma Vida Melhor", um cozinheiro e uma empregada de mesa cujo sonho de criar um restaurante em Paris resulta numa acumulação de empréstimos, e por arrasto de dívidas, que se vão atropelando e colocando em causa a própria relação.

 

Misto de drama conjugal e social (com a segunda vertente a ganhar terreno depois dos primeiros minutos), juntando-lhe condimentos de thriller em algumas sequências, o novo filme do francês Cédric Kahn ("O Tédio", "Sinais Vermelhos") acompanha, passo a passo, a forma como vão sendo cortadas as asas a Yann e Nadia, cujas aspirações são minadas por um "sistema" cada vez menos receptivo a laivos de optimismo, ingenuidade, empreendedorismo ou risco - e que, quando os aceita, impõe um juro demasiado elevado.

 

Apesar da óbvia agenda social, bem trabalhada por uma atenção meticulosa a um processo burocrático infindável, "Uma Vida Melhor" não se esgota, e ainda bem, nesse apontar de dedo - que, mesmo assim, não é maniqueísta e não desresponsabiliza os protagonistas. No meio de muitas contas e pagamentos (ou falta deles), o lado humano garante os melhores momentos de uma narrativa irregular em que Kahn parece, às vezes, deitar tudo a perder numa exploração quase abusiva e miserabilista - como numa cena à entrada de um estádio de futebol, num registo "pobretes mas alegretes" que felizmente se fica por aí.

 

Mais do que pela denúncia, que diz tudo o que tem a dizer na primeira metade, "Uma Vida Melhor" ganha-se pelas personagens, sobretudo pela cumplicidade que nasce entre Yann e Slimane, o pequeno filho de Nadia. Se a certa altura Guillaume Canet parece ter de carregar o filme às costas - e era capaz disso, numa interpretação que agarra com convicção uma personagem com os nervos à flor da pele -, Slimane Khettabi, actor amador (e promissor), mostra-se mais do que à altura de dividir esse peso. A evolução da relação até se adivinha, mas a entrega e espontaneidade dos actores é tanta que é difícil não aderir.

 

O elo mais fraco acaba por ser Nadia, personagem que se torna numa desculpa para fazer a história andar e principalmente terminar. O desenlace, com tanto de imprevisível como de implausível, é bastante mais macio do que os momentos anteriores sugerem (nem sequer falta a cançãozinha indie agridoce). Depois de tanto realismo cru, muitas vezes impiedoso, "Uma Vida Melhor" despede-se devolvendo algum espaço ao sonho. As personagens agradecem, claro. Já os espectadores, tirando talvez os idealistas mais extremos, não ficarão com dúvidas de que estiveram mesmo a ver ficção.

 

 

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