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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

As desvantagens de ser invisível

 

É verdade que a capa não ajuda, mas "Another Year", embora seja um disco de canções discretas, é daqueles que não merecem ser tratados com a mesma discrição. No mínimo, por nos dar a ouvir uma das vozes mais bonitas do outro lado do Atlântico, Lori Carson, cujo timbre fresco, doce e envolvente não tem perdido o encanto com o passar dos anos.

 

O novo álbum da norte-americana, o sétimo, é dos registos de 2012 que vale a pena repescar, até porque não é todos os dias que a ex-vocalista dos Golden Palominos dá novidades. "Another Year" chegou oito anos depois do disco anterior, "The Finest Thing", e confirma que Carson mantém o talento para a composição, mais uma vez com reflexões sobre o quotidiano embrulhadas em canções entre a folk e uma dream pop rarefeita, quase sempre assente na guitarra acústica e no piano - e na tal voz, claro, que continua a valer mais do que qualquer instrumento.

 

Se discos como "Everything I Touch Runs Wild" (1997) ou "Stars" (1999) chegaram a sugerir-lhe um estatuto de princesinha indie, nos últimos anos as portas não têm estado tão abertas para uma cantora próxima dos ambientes de Lisa Germano, Laura Veirs, Dawn Landes ou Hope Sandoval. Seja como for, vale a pena ir acompanhando os posts do seu site, que abrem o apetite para o seu primeiro romance, "The Original 1982", a editar neste Verão. Em disco, e já vão sete, as suas narrativas não têm desapontado, como o atestam estes dois temas novos e uma recordação:

 

 

As 25 vidas dos Rammstein

 

Contar a história dos Rammstein sem recorrer à imagem seria deixar, no mínimo, metade dos acontecimentos de fora, não desfazendo da música dos alemães (sobretudo em álbuns como "Mutter" ou "Liebe ist für alle da"). Entre a selecção de videoclips e cenas de bastidores, "Videos 1995-2012" revê, ao longo de mais de sete horas, grande parte do percurso do sexteto, desde os dias em que David Lynch se juntou ao grupo de fãs até à fase mais recente, a que tem Jonas Åkerlund, outro realizador habitualmente transgressor, como parceiro regular (numa daquelas colaborações que junta a fome à vontade de comer).

 

O triplo DVD está nas lojas, aconselha-se e escrevi sobre ele neste artigo do SAPO Música.

 

Quem matou Kathryn Bigelow?

 

"00:30 Hora Negra" inquieta, mas pelos piores motivos. Não por se atirar de cabeça a feridas que ainda estão por cicatrizar, como o 11 de Setembro e, em especial, a caça a Bin Laden, mas por ser obra de uma Kathryn Bigelow praticamente irreconhecível, a exibir os piores sintomas de cineasta "séria", quase consensual, em que se tornou depois de "Estado de Guerra" (2008).

 

Se nesse filme ainda dava razão a quem a apontava como uma das melhores realizadoras de acção actuais, aqui a norte-americana opta por um retrato desmaiado, insosso, em que a objectividade e o rigor surgem como desculpa para a sisudez e a indiferença. Tecnicamente está, como sempre, tudo no sítio, e não há grande coisa a apontar à realização, fotografia ou direcção de actores. O problema é que, bem espremido, "00:30 Hora Negra" também não oferece mais nada além dessa competência industrial, tristemente esbanjada numa narrativa que lembra séries de investigação criminal para acompanhar insónias nas madrugadas televisivas.

 

Não se assumindo como documentário, mas tendo uma aridez ficcional que nunca mergulha nas personagens, o filme não demora muito a cair numa rotina em que qualquer resquício de acção, ou mesmo de suspense, é trocado por diálogos explicativos, geralmente sobre pormenores estratégicos, debitados por bons actores transformados em cabeças falantes.

Admita-se que, a certa altura, Bigelow tenta dar algum "pathos" à protagonista, agente da CIA interpretada por uma Jessica Chastain que passa ao lado de uma figura intrigante e absorvente, apesar de manter um olhar pesaroso em quase todas as cenas (voltando às séries televisivas de investigação, a protagonista de "The Killing", outra mulher num mundo de homens - curiosamente, também ruiva e obstinada -, é uma personagem comparável mas bem mais complexa e verosímil). O pior é que o suposto reforço de tensão dramática chega de forma inacreditavelmente previsível e amadora, despachando uma personagem secundária que só lá estava para servir o esquematismo do argumento (se o investimento emocional da protagonista já era dúbio, ou pelo menos forçado, o do espectador andará perto do nulo).

 

Poderá dizer-se que "00:30 Hora Negra" é suficientemente perspicaz e inteligente para não cair num retrato pró ou anti-americano, equilíbrio que consegue com alguma distinção, embora isso não salve duas horas e meia que se arrastam entre demasiada palha narrativa e um olhar quase 100% cerebral (que derrapa nos acessos emocionais), anódino e muito pouco absorvente - "Argo", por exemplo, sai-se muito melhor ao partir da realidade para a ficção sem comprometer o equilíbrio ideológico e moral. Mesmo as tão faladas (e polémicas) cenas de tortura, ao início, pouco acrescentam ao filme quando sequências semelhantes já passaram tanto pelo cinema (no também recente "O Dia do Juízo Final", de Gregor Jordan, que até era mais extremo) como pela televisão (na série "24").

 

É verdade que, na recta final, "00:30 Hora Negra" devolve, finalmente, Bigelow aos ambientes de acção através dos quais se notabilizou ao longo dos anos, numa meia hora que tenta compensar a falta de nervo do resto do filme. Mas não só chega tarde como falha, novamente, na construção das personagens - no caso, soldados norte-americanos no terreno -, o que só reforça a sensação de que um documentário teria sido mais produtivo. De preferência, um documentário sobre Bin Laden, até porque o lado muçulmano da história não tem direito a grande retrato e mostra outro potencial. Claro que, ainda assim, o melhor era mesmo voltar a ver Bigelow longe deste estilo anónimo, para não dizer tépido, num filme que não tivesse medo de funcionar como entretenimento enquanto falasse de coisas sérias. "00:30 Hora Negra" não resulta visto por qualquer desses ângulos e só deixa mais saudades dos tempos de "Estranhos Prazeres" (1995), ainda a obra-prima de uma realizadora que, a nível criativo, vive agora uma hora negra - por muito que a luz dos holofotes brilhe mais do que nunca.

 

 

Maria, a ilusionista

 

Maria Minerva ainda está para fazer um disco tão determinante como algumas das influências que assume (gente como Brian Eno ou Cabaret Voltaire), mas ninguém pode dizer que não é por falta de empenho. Uma cassete, dois álbuns e outros tantos EPs, só nos últimos dois anos, ajudaram a despertar atenções em torno desta estoniana (residente em Brooklyn) que tem feito alquimia, mais ou menos bem sucedida, com electrónica geralmente densa, abstracta e experimental.

 

Depois do álbum "Will Happiness Find Me?", editado em Setembro do ano passado (e gravado em Lisboa), Minerva volta aos EPs já em Abril, com "Bless", e além de prolífica parece estar inspirada. "Black Magic", a primeira amostra, é uma das suas melhores canções e provavelmente a mais pegajosa, mesmo sem deixar de manter estranheza e misticismo q.b. para que muitas playlists radiofónicas lhe torçam o nariz (fazem mal). E em vez de reflectir influências mais remotas - e mais habituais em canções anteriores -, este single faz desconfiar que a sua autora andou a ouvir (com atenção) o último álbum de Grimes. Nada contra, antes pelo contrário: