Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Música para as massas festivaleiras

 

Podiam ter entrado logo a matar. Não lhes faltam, como já se sabe e o concerto comprovaria mais à frente, munições pop prontas a acertar no coração de milhares de devotos. Mas não começaram por aí. No seu regresso a palcos nacionais este sábado, no Optimus Alive, os Depeche Mode arrancaram com duas canções do álbum novo, "Delta Machine", e tanto "Welcome to My World", mais atmosférica, como "Angel", mais eléctrica, souberam ir dando as boas vindas, pacientemente, de forma mais intrigante do que explosiva (e até soaram melhor do que em disco, do qual são também as duas faixas iniciais).

 

Aos primeiros acordes de "Walking in My Shoes", pouco depois, deu-se o primeiro grande acesso de euforia generalizada (ou segundo, se contarmos com o da entrada em palco), no tema mais reconhecido por grande parte do público até aí. Esta alternância entre novidades/temas obscuros q.b. e clássicos incontornáveis seria, depois, o padrão de um concerto capaz de manter um compromisso justo entre risco e segurança, com uma mão cheia de hits prontos a satisfazer os adeptos das rádios das "grandes músicas" (parte expressiva das massas que quase lotaram o recinto) mas sem precisar de os usar como recurso habitual ou tábua de salvação.

 

 

Veteranos, embora pouco dados a meras demonstrações de nostalgia, ao contrário de muitos dos seus contemporâneos, os Depeche Mode que nos visitaram mostraram-se bem vivos e não mais uns esforçados sobreviventes, com exemplo maior na garra de Dave Gahan, vocalista confiante, gingão e bamboleante como poucos. Quem o vê assim fica praticamente convencido (ou, pelo menos, com vontade de acreditar) que os episódios mais negros da sua vida pessoal, ameaças à continuidade da banda há uns anos, terão ficado mesmo para trás.

 

Foi muito por culpa de Gahan que uma canção recente como "Should Be Higher" passou da quase indiferença inicial a um dos finais mais faíscantes e envolventes, resultado das provocações de um vocalista com a escola toda quando o assunto é atiçar o público (o compasso tenso e hipnótico da canção, mais robusto ao vivo, e as imagens de pirotecnia também ajudaram). No extremo oposto, a timidez de Martin Gore foi acolhida com o respeito merecido durante as interpretações minimalistas (só voz e piano) de "Shake the Disease" e "Home", baladas oferecidas com uma intensidade à prova de qualquer cinismo.

 

 

Dos temas mais populares, "Precious" confirmou-se, passe a redundância, como um singles recentes mais preciosos dos Depeche Mode, com direito a versão simultaneamente intimista e espacial. A operação de cosmética também passou por clássicos como a já algo cansativa, sim, mas ainda suficientemente vibrante "Personal Jesus", "A Question of Time", mais musculada, ou o clássico dos clássicos "Enjoy the Silence", com frenesim instrumental dançável no final (e de longe o melhor momento para a fotografia da química entre público e banda, embora o mar de braços ondulantes já no encore, em "Never Let Me Down", tenha chegado lá perto). Mais extrema, a nova cobertura de "A Pain That I’m Used To", com o electro a eclipsar o industrial, tornou o tema quase irreconhecível, numa das variações mais inesperadas.

 

Ao longo de duas horas muito bem conduzidas, o concerto não chegou a superar o de 2009 no Pavilhão Atlântico (a ligação entre música e imagem, demasiado arbitrária, nem sempre funcionou e temas como "Black Celebration" ou "Heaven" refrearam os ânimos), mas deixou claro que a fé e devoção nos Depeche Mode é imune a quaisquer beliscões, pelo menos quando a banda sobe ao palco. As massas agradecem, aplaudem e ficam à espera de mais...

 

 

Foto @Filipa Oliveira/SAPO On The Hop Vídeos @apis38

 

Fundo de catálogo (96): Soulwax

 

Há dez anos, uma visita dos 2manydjs seria logo pretexto para não deixar escapar um festival. Hoje, e depois de vários regressos a palcos nacionais, a dupla belga já passou a outros o testemunho de último grito da música de dança mas não é por isso que a sua actuação no Optimus Alive, este sábado, deixa de ser das mais sugestivas e confiáveis do festival de Algés.

 

Só é pena que, ao contrário do que aconteceu em passagens de boa memória pelo Creamfields Lisboa ou Lux, há uns anos, este regresso dos irmãos Dewaele só se faça pela metade. Ou seja, apenas no formato de DJ set dos 2manyds e sem o concerto dos Soulwax, inicialmente agendado mas depois cancelado, como todos os outros da banda este Verão.

 

Aceita-se o motivo do cancelamento: há novo álbum do grupo a caminho e a redução do número de actuações ganha tempo para a sua chegada. Enquanto não surgem mais notícias desse quarto disco de originais, uma das alternativas possíveis é voltar ao segundo, "Much Against Everyone's Advice" (1998), editado entre o quase anonimato da estreia, "Leave the Story Untold" (1996), e a chamada de atenções despertada por "Any Minute Now" (2004), que colheu os frutos de um projecto paralelo que acabaria por se impor ao inicial. Em finais dos anos 90, os Soulwax ainda não tinham sido suplantados pelos reis incontestáveis do mashup mas as suas canções mais certeiras já os encaminhavam para as pistas de dança.

 

"Much Against Everyone's Advice" é um álbum bipolar, dividido entre o apelo frenético de rock com maquilhagem electrónica e baladinhas toleráveis, embora raramente memoráveis. Longe de ser um disco de referência, mostra, nos momentos mais acelerados, a pontaria dos seus autores para canções com uma energia ainda hoje contagiante - e com uma combinação de elementos que atingiria outros voos quando aplicada a temas de terceiros, já nos 2manydjs.

 

Exemplos? Três dos quatro singles: "Conversation Intercom", "Much Against Everyone's Advice" e "Too Many DJs", este último com um título familiar e a lamentar, com ritmo e humor, uma tendência ainda mais evidente nos últimos anos. Os videoclips, peças importantes (e recomendáveis) para que muitos começassem a reparar nos Soulwax (incluindo a MTV, que os acolheu de braços abertos), recordam-se aqui juntamente com mais um dos pontos altos do disco - "My Cruel Joke", colaboração com a one-hit wonder Tracy Bonham, outra filha dos 90s entretanto esquecida mas que vale a pena relembrar nesta canção:

 

 

 

Os novos "Standards" de Lloyd Cole

 

Aos 52 anos, Lloyd Cole deu-se ao luxo de fazer o que quis e não o que era considerado apropriado para a idade. O resultado está em "Standards", o seu disco mais "eléctrico e natural" em muito tempo, conforme me contou numa entrevista para o SAPO Música em que fala ainda dos seus hábitos de melómano, da colaboração com o filho ou do que podemos esperar do seu concerto no Misty Fest, em Lisboa, lá mais para o Outono.

 

A melhor juventude

 

Os Juveniles não são a banda mais original do mundo. O disco de estreia da dupla francesa, homónimo, até podia passar por um "quem é quem" da electropop recente com guitarras à mistura, declaradamente inspirada no que se fazia nos anos 80. Metronomy, Phoenix, We Have Band, Van She ou Cut Copy não serão nomes estranhos a Jean-Sylvain Le Gouic e Thibaut Doray, e New Order ou The Smiths (estes mais pela voz do que pelas canções) ainda menos.

 

E no entanto, a coisa funciona. "Juveniles", (bem) produzido pelo conterrâneo Yuksek, é uma bela estreia com um timing de edição perfeito, já que canções como "All I Ever Wanted Was Your Love", "Summer Nights" ou "Strangers", dançáveis e quase tão aprumadas como os seus autores, são apetitosos gelados de Verão (e até têm, aqui e ali, uma cobertura de melancolia que alarga o prazo de validade para além da estação).

 

Dois dos melhores argumentos a favor do álbum são, felizmente, dois dos seus singles. O primeiro, "We Are Young", teve a aprovação da Kitsuné em 2011 e continua a ser um cartão de visita sedutor, a vaguear entre ambientes de fim de festa (e a dar dez a zero ao famigerado single homónimo de outra banda mais amiga das playlists). O último, "Fantasy", apoia-se num frenesim disco irresistível e tem direito a videoclip "très chic", algures entre a Sofia Coppola de "Marie Antoinette" e o Xavier Dolan de "Amores Imaginários". Começam bem...