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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Quando a dramedy não tira férias

 

Nos últimos dez, quinze anos, para não andarmos mais para trás, não têm faltado comédias dramáticas sobre famílias disfuncionais, talvez o maior filão do cinema independente (ou já nem tanto) norte-americano. "O Verão da Minha Vida" vem reforçar a tendência e a sua premissa - um adolescente de férias com a mãe e o namorado desta tenta afastar-se do tédio ao trabalhar num parque aquático - não é especialmente imaginativa (e até lembra, tal como alguns desenvolvimentos, a do mais interessante "Adventureland", o quase ignorado filme que Greg Mottola assinou depois do êxito de "Superbad").

 

Se a originalidade nem será, à partida, o forte da estreia na realização de Jim Rash e Nat Faxon, argumentistas de "Os Descendentes", vão surgindo, pelo caminho, alguns elementos capazes de tornar esta numa dramedy aconselhável. O balanço entre o drama e a comédia é desequilibrado e a dupla sai-se bem melhor na vertente humorística, mérito de uma mão cheia de diálogos afiados e às vezes quase implacáveis sem nunca deitarem abaixo a humanidade das personagens. Estas são, de resto, outro dos trunfos de "O Verão da Minha Vida": não tanto o protagonista, variação pouco memorável de um adolescente introvertido e ensimesmado (apesar do desempenho seguro de Liam James), mas sobretudo a surpreendente e valiosa galeria de secundários, onde encontramos uma vulnerável Toni Collette, um Steve Carell mais arrogante do que o habitual, um Sam Rockwell tagarela a injectar energia em qualquer cena em que entra ou uma Allison Janney desbocada e quase histriónica, a grande responsável por um arranque com um ritmo que o filme tenta acompanhar sem nunca agarrar.

 

Um miúdo com um olho preguiçoso e uma autoconfiança admirável, um balconista desconfiado e germofóbico ou uma rapariga da porta ao lado inacreditavelmente perfeita (mas quase credível graças ao desempenho de AnnaSophia Robb) são outras figuras de uma comunidade caracterizada com uma doçura invulgar (e outra tanta melancolia) que nunca se confunde com a colecção de "cromos" de algumas dramedies desalmadas. E quando há uma química tão palpável entre o protagonista e os secundários, com direito a cenas irresistíveis (muitas hilariantes, algumas comoventes), até se aceita a relativa previsibilidade do argumento, a ausência de grandes ideias visuais (o cenário é mais repisado do que reinventado) ou a aborrecidíssima banda sonora indie (e indiferenciada). O efeito não se equipara ao do amor de uma vida, é certo, mas resulta num caloroso amor de Verão fora de época.

 

 

O desconhecido do parque

 

Há novo motivo para voltar a "Olympia", o segundo álbum dos Austra. Apesar da capa quase tropical, a música dos canadianos não é propriamente soalheira e o novo single, "Forgive Me", ajuda a perceber porquê.

 

O videoclip, talvez ainda mais sombrio - não só por ter a noite como ambiente -, segue encontros imediatos entre estranhos num jardim, cenário de uma história de perdição e perdão. A voz amargurada de Katie Stelmanis faz-lhes companhia mas o final, mesmo assim, aceita alguma luz ao fundo do túnel - ou no final da madrugada:

 

A namorada atómica

 

Protagonista de um dos bons regressos do ano, "Calling from the Stars", Miss Kittin apresentou o disco em Lisboa na semana passada, no Ministerium Club, e além das actuações aposta num novo single para ajudar a promovê-lo. "Maneki Neko", amostra da metade mais ritmada de um álbum duplo, comprova que a francesa sobreviveu bem aos dias do electroclash sem deixar de lado a electrónica dançável.

 

A canção vale a pena e o videoclip - assinado por San Charoenchai e vencedor de um concurso lançado pela cantora e DJ - não lhe fica atrás. Se Tarantino fizesse uma curta-metragem levemente inspirada na BD "Maus", de Art Spiegelman (retirando-lhe o contexto nazi), o resultado deveria andar perto desta história de amor e vingança com gatos, ratos e experiências laboratoriais: