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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Uma versão de uma cópia (de uma cópia...)

 

Que as canções de Trent Reznor soavam bem ao piano já se sabia há muito, mas não deixa de ser inesperado ouvir uma versão dos Nine Inch Nails pelos teclados (e voz) de Diane Birch.

 

A cantautora norte-americana, habitualmente dedicada a uma folk e soul mais próximas do adult contemporany do que de grandes ousadias estéticas, fez uma releitura de "Copy of A", uma das faixas do recente "Hesitation Marks".

 

Sem as sombras e electrónicas quase industriais do original, esta versão minimalista ainda mantém o tom negro e, embora talvez ganhasse outra força se fosse menos polida, não deixa de ser uma boa surpresa - curiosamente, até lembra mais os How to Destroy Angels, projecto paralelo de Reznor, do que os Nine Inch Nails:

 

 

Para quem gostar, a canção está disponível para download na página de Facebook da norte-americana. E "Speak a Little Louder", o seu segundo álbum de originais, editado no ano passado, pode ser ouvido na íntegra no Soundcloud.

 

(via teco apple)

 

Fundo de catálogo (99): The Notwist

 

"Have you ever been all messed up?", perguntava Markus Acher, com toda a calma do mundo, num dos temas do quinto álbum dos Notwist. A canção, "One With the Freaks", não só ficou entre as mais memoráveis de "Neon Golden" (2002) como é das que melhor sintetizam, tanto no título como no refrão, os ambientes do disco de referência destes alemães.

A banda dos arredores de Munique, nascida em finais dos anos 80 e com obra editada desde inícios da década seguinte, precisou de viver algumas mudanças de formação e sobretudo de sonoridade - o caminho passou pelo metal, grunge, punk, indie rock ou jazz - até chegar a uma linguagem finalmente consolidada na viragem do milénio.
"12" (1995) e "Shrink" (1998) foram dando espaço a outras dinâmicas rítmicas mas seria "Neon Golden" a destacar-se como álbum-chave de uma tendência indietronica com parentes próximos em discos dos Postal Service, Four Tet ou Lali Puna (estes últimos com o vocalista dos Notwist entre os elementos).

 


A aliança entre melancolia e batidas glitch traduziu ecos dos Radiohead pós-"Kid A", embora a voz de Markus Acher nunca se atire aos abismos emocionais de Thom Yorke. Opta antes por uma melancolia serena, companhia ideal para um novelo electroacústico rico e intrincado - há cordas, sopros, percussão -, mas felizmente pouco ostensivo. A ponte com outras referências da pop electrónica fez-se numa "Pilot" que podia ser um update dos New Order ou numa "Trashing Days" cujo banjo, no arranque, deve qualquer coisa aos Depeche Mode americanizados de "Violator" e "Songs of Faith and Devotion".

O sentido melódico e candura de "Consequence" ou "This Room" garantiram que "Neon Golden" fosse bem mais do que um eficaz exercício de assimilação e não surpreende, por isso, que o percurso dos Notwist desde então deva muito a este episódio. "The Devil, You + Me" (2008) regressou à indietronica num conjunto de canções mais meditativo e homogéneo e a banda sonora de "Sturm" (2009) foi descendente directa dos últimos temas deste alinhamento, instrumentais atmosféricos e cinemáticos.

O próximo capítulo chega este ano, já em Fevereiro. "Close to the Glass" é editado dia 24 e vem comprovar que as mutações abruptas dos Notwist são coisa do século passado. Ainda não há videoclip novo, mas nunca é demais voltar à animação para todas as idades da acolhedora "Pick Up the Phone", talvez a canção mais bonita dos alemães e certamente um dos seus hinos:

 

Esta alegria é potente

 

Não tem aparecido muito nas listagens de discos mais aguardados de 2014, mas é provável que venha a ser dos mais surpreendentes. "Joyland", o segundo álbum de Trust, chega a 4 de Março e sucede às óptimas pistas deixadas por "TRST", há dois anos. Na altura, o projecto era uma dupla, mas a saída de Maya Postepski (baterista dos Austra) deixou-o inteiramente a cargo de Robert Alfons.

 

O canadiano não parece intimidado por acumular as funções de cantor, compositor e produtor e "Rescue, Mister", o tema de avanço do álbum, é mais um portento de electrónica deliciosamente esquizóide, onde a bizarria não compromete o convite à dança.

 

A expectativa para "Joyland" volta a justificar-se por "My Potency", versão revista, melhorada e acelerada de "Peer Pressure", canção de um (longuíssimo) EP de 2006 de Alfons (nunca editado, embora disponível para audição na íntegra aqui). O novo registo gravado do tema ainda não é conhecido, mas ao vivo não fica a dever nada aos momentos mais frenéticos da estreia. Se as promotoras nacionais voltarem a insistir nos Crystal Castles este ano, têm aqui um candidato perfeito para a primeira parte (e nem sequer faltam os efeitos strobe para infelicidade dos fotógrafos):

 

 

Quotidiano delirante

 

"A Vida Secreta de Walter Mitty" até pode ser o filme mais conseguido do Ben Stiller-realizador desde o primeiro - o já velhinho "Jovens em Delírio" ("Reality Bites"), carismática radiografia da geração X -, mas ainda deixa a sensação de ter ficado uns furos aquém do potencial - mesmo que não tanto como os antecessores "O Melga", "Zoolander" e "Tempestade Tropical", onde o actor também esteve à frente e atrás das câmaras.

 

O primeiro terço é muito promissor e inesperadamente inventivo no retrato de um dia-a-dia pessoal e laboral dominado por uma sensação de vazio ininterrupta, ou quase - quase, porque o protagonista se ausenta da realidade para se imaginar em fantasias ancoradas no risco e na aventura. Este mote, baseado num conto homónio de James Thurber, publicado na The New Yorker em 1939 e adaptado para cinema por Norman McLeod na década seguinte, é recontextualizado, e bem, num filme muito do seu tempo - o de Ben Stiller, o nosso - com temas que não serão estranhos a qualquer noticiário.

 

Precariedade, despedimentos colectivos, a obsessão pelo online e outros sinais da interminável crise alimentam uma comédia desencantada - mas não derrotista - que, ironicamente, é mais segura no desenho de um quotidiano sem luz ao fundo de túnel do que na jornada libertadora que tenta contrariá-lo.

 

 

Quando "A Vida Secreta de Walter Mitty" abandona a turbulência das ruas e o tédio dos open spaces para se atirar a cenários de encher o olho quase desertos, abdica de uma ironia na medida certa para cair num deslumbramento ingénuo visto e revisto em demasiados road movies de auto-descoberta. À medida que o protagonista vai viajando pela Gronelândia, Islândia ou Afeganistão, o filme vai-se aproximando perigosamente de uma estética de anúncio publicitário de idealismo fabricado (como os de operadoras de telemóveis, por exemplo, e nem sequer falta uma previsível banda sonora indie, com Arcade Fire e derivados, depois de também termos ouvido David Bowie ou Human League em cenas mais convincentes).

 

Ainda assim, o óbvio carinho de Stiller pelas personagens (excepção feita a um administrador de empresa - e seus comparsas - sem grandes qualidades em que até a barba é motivo de escárnio) ajuda a aceitar a inverosimilhança crescente da viagem, cujo tom de fábula moderna nem sempre convive bem com o olhar realista das cenas urbanas.

Walter Mitty, sem se afastar muito de outros papéis de Stiller, mostra um actor perfeitamente à vontade no registo de homem comum, solitário e bem intencionado, e Kristen Wiig sai-se tão bem a fazer de girl next door (ou, no caso, colega do departamento ao lado) que deixa a sensação de que o filme deveria ter sido uma comédia romântica (muito acima da média, quase de certeza). Não por acaso, as cenas entre ambos são das melhores e mais espontâneas, e é pena que "A Vida Secreta de Walter Mitty" invista tanto num registo episódico, mais rotineiro, e com algumas figuras caricatas. As ideias estão lá (visuais, sobretudo, em especial no arranque) e o coração também, mas esta grande viagem fica a meio caminho de um grande filme.

 

 

 

Danças com drones

 

Os Underworld, Orbital ou Chemical Brothers não têm dado muito que falar mas todos foram determinantes para uma das melhores estreias recentes em terreno electrónico. "Drone Logic", o primeiro álbum de Daniel Avery depois de alguns singles, EPs ou participações em compilações, mostra que o produtor britânico tem um óbvio interesse por alguma música de dança conterrânea de há duas décadas.

 

Felizmente, também mostra que o interesse do alinhamento vai além da mera homenagem ou de um esforçado exercício copista. Se a revisitação da deep house ou do UK garage está a dar cartas na produção electrónica de terras de Sua Majestade, os caminhos apontados por Avery, mais orientados pelo techno ou acid house, não são menos aconselháveis. "All I Need" é o novo single e atesta o apelo tão físico quanto cerebral do álbum:

 

 

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