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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Amor de perdição

 

Já não falta muito para um dos concertos mais aguardados do primeiro trimestre de 2014. A 1 de Março, as Warpaint trazem à Aula Magna o seu segundo álbum, homónimo, que tem pelo menos uma das melhores canções do ano... ou quase. Na verdade, "Love is to Die" foi revelada ainda em 2013 e parecia confirmar todas as expectativas alimentadas por "The Fool" (2010), movendo-se entre o lado mais sombrio do shoegaze e do pós-punk sem se decidir por qualquer um deles - preferindo uni-los com um refrão com tanto de críptico como de apaixonante.

 

Essa primeira amostra, ainda sem videoclip oficial, tem sido também o principal cartão de visita para a digressão das californianas. A canção é presença regular em showcases públicos e privados e o formato ao vivo não trai o magnetismo conseguido no disco (cujo alinhamento, embora interessante, nunca arrebata como nesse episódio). Uma das actuações mais recentes a passar para os palcos online foi registada pela Yours Truly, em Los Angeles, e reforça a vontade de ouvir Warpaint - a banda e o disco - em Lisboa:

 

 

O acossado

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As crianças não mentem, defenderá muito boa gente. Já o protagonista de "A Caça" não será tão taxativo, muito pelo contrário, sobretudo depois de ser acusado de abusos sexuais por uma criança do jardim de infância onde trabalha, numa pequena localidade dinamarquesa. A suspeita, embora falsa, é tida como verdade inquestionável por quase toda a comunidade e Lucas passa de professor discreto e confiável a inimigo público número um com uma rapidez desarmante.

 

Thomas Vinterberg, que no final dos anos 90 se distinguiu com "A Festa", um dos títulos centrais do movimento Dogma 95, regressa a terreno pantanoso depois de uma filmografia entretanto quase ignorada - nem Joaquin Phoenix nem Claire Danes salvaram "O Amor É Tudo", "Querida Wendy" foi uma variação falhada do western e os filmes seguintes do dinamarquês nem tiveram direito a estreia por cá.

 

"A Caça", no entanto, acaba por ser uma óptima surpresa, nomeada para Melhor Filme Estrangeiro nos Óscares deste ano e uma obra mais adulta do que boa parte das escolhas das categorias principais. E será mais adulta não tanto pela temática, ainda que esta esteja entre as mais controversas que se poderiam escolher, mas pela maturidade demonstrada por Vinterberg num retrato a milhas da histeria maniqueísta presente em muitas abordagens à pedofilia na ficção.

 

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Se o realizador até atira o protagonista para a lama, também lhe concede uma dignidade capaz de elevar o resultado acima de um relato de vitimização fácil. O mérito é inegavelmente partilhado com Mads Mikkelsen, cuja excelente interpretação torna credível uma personagem a certa altura descrita como demasiado complacente, mas na verdade movida por uma integridade que nunca parece forçada.

A "acusadora" de Lucas, a pequena Klara, é o outro dos trunfos, mais do que mera alavanca do argumento e muito bem defendida por Annika Wedderkopp, que vai da ingenuidade inicial a uma inquietação emocional em paralelo com a jornada tumultuosa do protagonista.

 

De resto, todo o elenco de "A Caça" merece elogios, e até a intromissão do filho de Lucas, que o substitui em algumas sequências, ajuda a dar uma nova dinâmica a um filme que finta quase sempre o óbvio. Quase, porque apesar do palpável desenho da comunidade, entre códigos de comportamento e apropriados tons sépia, Vinterberg é demasiado apressado a criar o efeito de bola de neve da acusação, comprometendo a verossimilhança de uma ou duas cenas decisivas para que o todo possa funcionar. Felizmente, não só funciona como impõe, até aos (certeiros) segundos finais, uma atmosfera de tensão palpitante que não dá descanso ao protagonista. Nem aos espectadores, convocados para testemunhas involuntárias de uma defesa impossível.

 

4/5

 

 

A gótica de Westeros

 

"Feral Love" era o tema que abria "Pain is Beauty", o quarto e mais recente álbum de Chelsea Wolfe, editado no ano passado, mas muitos só ficaram a conhecê-lo (pelo menos em parte) através do trailer da quarta temporada de "A Guerra dos Tronos" - e talvez por isso tenha sido promovido a novo single da norte-americana.

Do arranque tenso e enigmático ao crescendo que explica a ferocidade do título, a canção faz pensar numa eventual parceria entre Bat for Lashes e Trent Reznor (elogio) e pode dar novo fôlego a um disco que não despertou grandes atenções há uns meses.

Apesar de "Feral Love" ter sido utilizada na promoção da série da HBO, o videoclip conta com imagens de um filme: "Lone", realizado por Mark Pellington ("A Profecia das Sombras", "O Suspeito de Arlington Road") e com argumento da própria Chelsea Wolfe (o título é, aliás, o do tema que fecha o último álbum). Se a canção já ajudava a aumentar a curiosidade pelas novas aventuras de Westeros, o videoclip, mais críptico e atormentado, sugere agora uma parceria intrigante: