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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Fundo de catálogo (100): Melissa Auf der Maur

 

"I Need I Want I Will", avisava Melissa Auf der Maur na última canção do seu álbum de estreia, em 2004. O título do tema podia ser lido como uma declaração de intenções para "Auf der Maur", disco em que a até aí recatada baixista dos Hole e dos Smashing Pumpkins se fez ouvir com outra atitude. Uma atitude que tanto ofuscava gente como Josh Homme, remetido para as segundas vozes de algumas canções, como comandava um rock musculado e austero, mas simultaneamente elegante e sedutor.

 

Da trovoada de "Lightning Is My Girl" ao compasso galopante de "Skin Receiver", a primeira aventura a solo da canadiana ficou mesmo entre os álbuns de guitarras mais promissores de inícios do milénio, com a vantagem de não ter sido mais um a cair no revivalismo pós-punk ou garage. "Auf der Maur" olhava orgulhosamente para os anos 90 e Melissa mostrou à amiga Courtney Love que uma revisitação não tinha necessariamente de ser requentada - "America's Sweetheart", da ex-senhora Cobain, foi editado na mesma altura e revelava um triste desnorte criativo.

 

 

Além do sentido melódico dos Hole ou da pujança dos Smashing Pumpkins, o disco importou o delírio stoner dos Queens of the Stone Age, muito por culpa da colaboração de Homme (co-compositor de alguns temas) e de Chris Goss (produtor da banda de "No One Knows" ou dos Kyuss). Mark Lanegan, James Iha ou Eric Erlandson (guitarrista dos Hole) também constaram da ficha técnica e provaram que Melissa sabia escolher as companhias - até o antigo colega de escola Rufus Wainwright chegou a ser equacionado para um dueto.

 

Dez anos depois, "Auf der Maur" não perdeu o viço e praticamente não ganhou rugas. Continua a pedir que se aumente o volume e até os singles, com rotação regular na altura, não dão sinais de cansaço. Só é pena que um início tão confiante também tenha sido quase o final. "Out of Our Minds", o sucessor, de 2010, demorou demasiado tempo e chegar e passou despercebido. Mais denso e com uma lógica conceptual, tinha os seus momentos (a faixa título ou "The One", os mais próximos do registo de estreia) mas não deixou grandes saudades.

 

A Melissa Auf der Maur que vale a pena recordar ainda é, por isso, a de canções como "Followed the Waves", "Taste You" ou "Real a Lie", cujos videoclips foram presença assídua no extinto Sol Música ou na (simbolicamente defunta) MTV e mostraram que uma secundária discreta pode esconder uma protagonista nata:

 

 

 

 

Os jogos da gula

 

"O Lobo de Wall Street" junta a fome à vontade de comer. Por um lado, atira-se à quase inacreditável história verídica de Jordan Belfort, jovem corretor cujo sonho americano se materializou a partir de uma rara habilidade para a fraude. Por outro, mostra um Scorsese a injectar uma energia como há muito não se via num fresco sobre uma saga de ganância nos anos 90.

Até aqui tudo bem: os meandros da corrupção financeira são material de base com potencial e é sempre bom ver o cineasta de "Taxi Driver" afastar-se da ligeireza indistinta (e algo aflitiva) do anterior "A Invenção de Hugo". O problema é que, ao longo das suas três horas, "O Lobo de Wall Street" pouco mais faz do que expandir o que o trailer já revelava, resumindo-se a uma longuíssima sucessão de excessos com uma ementa de drogas, sexo, álcool e palavrões à discrição.

Admita-se que Scorsese é capaz de variações curiosas, devidamente complementadas pela montagem da habitual Thelma Schoonmaker, a imprimir ritmo e estilo e este rodopio desbragado. Mas se isso é suficiente para que o filme nem acuse a duração - o entretenimento está mais ou menos garantido -, fica-se pelos mínimos que uma história destas pode oferecer.

 


Leonardo DiCaprio mostra garra na pele do protagonista, o estudo de personagem é que nunca vai muito além da superfície. E se a própria superficialidade de Belfort poderia funcionar mais como feitio do que defeito, esbate-se na faceta caricatural dos secundários - da decorativa Margot Robbie ao alarve Jonah Hill (responsável por alguns dos momentos de "humor" mais pobres), a galeria não faz grandes favores ao filme.

O facto de serem figuras sem coluna vertebral, obcecadas pelo dinheiro e poder, não é grande desculpa. O algo esquecido "Margin Call - O Dia Antes do Fim", de J. C. Chandor, por exemplo, também mergulhava nos bastidores de uma crise económica e em gente de moral questionável, mas conseguia desenhar figuras tridimensionais, com motivações e objectivos específicos. "O Lobo de Wall Street" só arrisca alguma densidade nos últimos minutos, em clima de fim (ou recomeço?) de festa, e aí já é tarde demais. E se até deixa momentos de antologia pelo caminho (a breve participação de Matthew McConaughey, um corte de cabelo num escritório féerico, o calvário de um DiCaprio rastejante), são apenas fogachos ocasionais de um todo frustrante.

 

 

 

O amor acontece (na pista de dança)

 

"Black and Gold", um dos primeiros singles de Sam Sparro, ainda continua a ser a canção mais popular do australiano, mas o recente "Hang On 2 Your Love" promete causar outros estragos nas pistas. Depois de o seu segundo álbum, "Return to Paradise", ter passado praticamente despercebido há dois anos - e contrariado as grandes esperanças que alguns depositavam na estreia homónima -, o cantor e produtor prepara agora um regresso com três EPs.

 

"Quantum Physical, Vol. 1" é o primeiro concentrado de quatro novas canções e mantém a voz de Sparro envolta em pop electrónica, embora prefira teclados house anos 90 à receita funk/soul/R&B (em modo Prince da década anterior) habitual nos dois álbuns.

 

"Hang on 2 Your Love", talvez o momento mais frenético e com direito a colaboração histriónica q.b. de Duran Bernarr, foi dedicado a quem luta contra a opressão e a violência em nome do amor na Rússia, no Irão ou no Uganda. O videoclip segue o tema e a dedicatória à letra, junta beijos e burcas e as segundas não limitam os primeiros. Talvez por isso não chegue à Rússia, ao Irão ou ao Uganda, mas é bem capaz de se revelar imbatível nas noites de Ibiza:

 

 

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