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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Sonho de uma noite de Inverno

 

Uma canção que se move entre o son(h)o e a vigília é uma aposta condizente com um dos discos de cabeceira mais recompensadores da estação. "Was It a Dream", a nova escolha oficial - depois de "Dead City Emily" - para a promoção de "July", o regresso de Marissa Nadler, está entre os pontos altos do alinhamento e da folk com pinceladas góticas da norte-americana.

 

O videoclip do tema junta sonhos, memória e cinefilia e torna a cantora na estrela etérea de uma homagem aos primórdios da sétima arte, com citações e apropriações de referências como Georges Méliès. Tendo em conta a voz, tão fantasmagórica como encantadora, servida por uma atmosfera à altura, até os puristas do cinema mudo serão capazes de aderir à revisitação:

 

 

Feiticeiras escarlates

Foto @nunomgoncalves

 

"Podem levantar-se e dançar, não se sintam mal por terem pessoas sentadas atrás", desafiou Theresa Wayman, vocalista e guitarrista das Warpaint, logo nos primeiros minutos do concerto das norte-americanas na Aula Magna, neste sábado. Tendo em conta as características da sala lisboeta e o facto de a música do quarteto nem sempre ser especialmente dançável, o convite podia ter gerado discórdia entre o público - como já aconteceu, aliás, noutras ocasiões. Mas se o fez, terá sido junto de uma minoria, porque grande parte dos espectadores de uma sala (surpreendentemente) quase repleta não pareceu nada incomodada por ter ficado de pé durante cerca de hora e meia.

 

Não houve, de facto, assim tanta dança, tirando o acesso funky de "Disco/Very", talvez a canção mais esgrouviada das Warpaint, ou o clássico instantâneo "Love is to Die" (que levou muitos a seguir a máxima "love is to dance"), dois temas do novo álbum da banda, homónimo, pretexto para o regresso a Portugal - a fechar a digressão das últimas semanas.

Em vez de alimentarem reacções efusivas, as californianas mantiveram o público na mão através de um transe colectivo potenciado por um alinhamento muito bem entrosado (a tirar partido da conjugação de dois álbuns, um EP e um envolvente tema inédito, "No Way Out"), pelo próprio espaço e cenografia (com um intimismo e sóbrio jogo de luzes impossíveis nas passagens anteriores por Paredes de Coura ou Optimus Alive, ao fim da tarde) e também, já agora, pela atitude dos espectadores (que souberam respeitar as canções mais discretas e guardar a chuva de aplausos para episódios explosivos).

 

 

Momentos altos? Quase todos. Torna-se difícil escolher um pico de intensidade quando a muito esperada "Undertow", a mais popular do álbum de estreia, gerou uma comunhão tão forte entre banda e público, ainda assim igualada por "Baby", outra recordação de "The Fool" (2010), apresentada apenas por Emily Kokal no arranque do encore - o encantamento à base de voz e guitarra encheu a sala, requisitou alguns versos de "Because The Night", de Patti Smith, e mostrou que um percurso paralelo como cantautora podia correr muito bem.

 

A tensão do final de "Composure" rivalizou com a marcha entre o pós-punk e o psicadelismo de "Bees" e "Elephants", esta última a fechar a noite com um regresso aos primóridos das Warpaint - o EP de estreia "Exquisite Corpse" (2008) -, num clímax instrumental distorcido e inebriante. A revisitação das origens também passou pela belíssima"Billie Holiday", que Kokal considerou "uma canção doce" e o público terá concordado - há poucas coisas mais doces, e nada enjoativas, do que harmonias vocais embaladas pela dream pop. Já "Biggy" reforçou a paixão recente pelo trip-hop demonstrada no novo álbum, com ecos de "Mezzanine", dos Massive Attack, ou "Is This Desire?", de PJ Harvey, infiltrando-se por caminhos sorumbáticos menos imediatos, mas ainda hipnóticos.

 

Afáveis, embora não especialmente conversadoras, as californianas não se dirigiram muito ao público além dos habituais agradecimentos e introdução das canções. Preferiram comunicar através de uma alquimia atmosférica muito bem assegurada pela pose imperturbável da baterista Stella Mozgawa, pelo gozo evidente da baixista Jenny Lee Lindberg e pelas vozes e guitarras da loura Kokal, imponente, e da morena Wayman, mais tímida. Nome de guerra: Warpaint, protagonistas de um concerto que só foi pequeno na duração.

 

Antes do quarteto, a Aula Magna acolheu Sequin, projecto de Ana Miró que se apresentou no formato de dupla, ao lado de um músico nas programações. Em cerca de meia dúzia de temas, serviu uma pop electrónica simpática, com um pé nos anos 80 e outro no presente, mais segura nos momentos de aceleração rítmica. O álbum de estreia, anunciado para Abril, confirmará se está aqui mais do que a resposta portuguesa à indietronica de uns CHVRCHES ou Grimes.

 

 

 

"Billie Holiday" ao vivo na Aula Magna (@ Pedro Garrido)

 

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