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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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Quem é Tricky em 2014? "Adrian Thaws" responde

 

Tricky parece ter reencontrado a sua musa e vive uma fase invulgarmente prolífica. "Adrian Thaws" chega apenas um ano depois de "False Idols" e, tal como esse álbum revigorante, olha para trás sem ignorar o presente. Nneka, Oh Land ou Mykki Blanco respondem à chamada.

Ao décimo primeiro disco (se contarmos com o do projeto Nearly God, de 1996), o autor de "Maxinquaye" escolheu para título o seu verdadeiro nome. Apesar dessa opção, Tricky continua a ser Tricky e as histórias que se contam neste "Adrian Thaws" não revelam muito mais do seu autor do que as anteriores - a narrativa não é especialmente autobiográfica -, mantendo os ambientes obsessivos e soturnos definidos em meados dos anos 1990.

Desde esses tempos, o britânico conseguiu ir ocupando e consolidando um território próprio, reconhecível logo ao início de "Sun Down", tema de abertura deste novo registo. A canção não dispensa uma batida narcótica a acomodar os sussurros de Tricky entrecruzados com os de Tirzah, nova voz londrina a remeter para a de Martina Topley-Bird, indissociável de clássicos trip-hop como "Overcome" ou "Ponderosa". Ao fundo, um tiquetaque ininterrupto reforça a fricção entre languidez e dinamismo rítmico desenvolvida ao longo de um alinhamento cuja assinatura dificilmente poderia ser outra que não a de Adrian Thaws:

 

 

Se o título do álbum sai directamente do bilhete de identidade do cantor e produtor de Bristol, o recheio está longe de ser um trabalho individual, como também já é regra numa discografia vincada pela colaboração.


Tirzah pode ser a primeira voz que ouvimos mas a guest list repesca a de Francesca Belmonte, uma das mais regulares do álbum anterior, e a de Nneka, que também tinha protagonizado um dos momentos altos de "False Idols", "Nothing Matters". Desta vez, a nigeriana mostra-se mais contida numa "Keep Me in Your Shake" que quase poderia caber no novo disco de Neneh Cherry, "Blank Project" (não por acaso, próximo dos primeiros dias de Tricky), com a particularidade de aliar ambientes electrónicos e uma guitarra acústica a fazer lembrar a faceta mais orgânica dos Depeche Mode.


Já Belmonte brilha no flirt jazzy de "I Had a Dream", parece talhada para o clima chill out de "Something In the Way" (a segunda canção com este título num disco de Tricky, depois da versão do tema dos Nirvana no mal amado "Blowback") e tem a contribuição mais forte em "Nicotine Love", um dos poucos momentos que confirmam o perfil de "Adrian Thaws" para a pista de dança, vertente salientada pelo seu autor mas longe de dominante ao longo do alinhamento.

 

 

Francesca Belmonte também é uma das convidadas de "Lonnie Listen", embora aí ceda parte do protagonismo a Mykki Blanco, colaboração a comprovar o interesse de Tricky por algum rap recente. Apoiado nas batidas mais cruas do disco, o encontro resulta num dos episódios mais tensos, alternando entre a postura desafiante do rapper e o tom meditativo da cantora (cuja voz é sublinhada pela do autor de "Pre-Millenium Tension", uma daquelas marcas de identidade que continuam a funcionar muito bem).

O hip-hop também passa por "Gangster Chronicle", versão dos London Posse não muito distante do original mas defendida com atitude pela promessa conterrânea Bella Gotti, entre uma chuva de sirenes e uma curiosa piscadela de olho aos Massive Attack - através do sample vocal feminino ouvido em "Unfinished Sympathy", hino urbano da antiga banda de Tricky, extraído de "Planetary Citizen", da Mahavishnu Orchestra. A MC comanda ainda "Why Don't You", condensado de pirotecnia algures entre os Prodigy e os Asian Dub Foundation de finais dos anos 1990 que teria feito algum sentido nessa altura. Hoje, o efeito desta granada de riffs e breakbeat é mais cansativo do que empolgante e prova que nem todo o passado merece revisitação.

Quase tão agressivo, sem no entanto chegar a explodir, "My Palestine Baby" sai-se bem melhor na gestão da tensão, com um relato de amor em tempos de guerra na Faixa de Gaza. Acompanhado pelo produtor Blue Daisy (mais um recrutamento da cena londrina recente), Tricky murmura sozinho, dispensando uma voz feminina como contraponto, e consegue domar o rastilho industrial à sua volta.

 

 

Também na recta final do alinhamento, "Silly Games" recupera o tema homónimo de Janet Kay no momento mais ameno do disco, o que não é propriamente um elogio quando se passeia por um misto genérico de reggae e ska. Tirzah nem se dá mal neste registo, mas deixa saudades da ambiência densa e enigmática de "Sun Down". Felizmente, é esse o cenário da canção seguinte, "Right Here", com uma irreconhecível Oh Land (agora sim, elogio) a milhas da sua popzinha delicodoce e rendida ao transe sinuoso de Tricky - esperemos que Adrian Thaws a tenha desencaminhado de vez para paragens mais intrigantes.

Se "False Idols" já tinha sugerido uma evolução discreta, sem grandes rupturas embora mais consequente do que a maioria dos discos do britânico dos últimos anos, este novo registo dá-lhe continuidade com um alinhamento menos coeso, vincado por deslizes ocasionais, mas ainda assim capaz de dar bom nome ao seu autor. Quase 20 anos depois da estreia, com "Maxinquaye" (1995), já é mais do que o que outras glórias dos anos 1990 - ou até de hoje - conseguem ir fazendo...

 

 

 

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