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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Na feira ao cair da noite

Comprar ou não comprar? Mesmo com preços convidativos (ou talvez precisamente por causa deles), o dilema de uma visita à FEIRA DO LIVRO DE LISBOA não costuma demorar muito a instalar-se. E nem está em causa o interesse de muitas propostas que vou encontrando pelas bancas, antes o tempo que, passado o acto (e entusiasmo) da compra, consigo dedicar-lhes nos dias, meses ou anos seguintes, conforme os casos. Já a contar com isso, e a olhar para mais uma pilha em lista de espera nas estantes lá de casa, desta vez obriguei-me a ficar-me pelos mínimos e a ler pelo menos uma das compras anteriores até ao fim da edição deste ano, este domingo. E não correu mal.

 

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Apesar de ter gostado de "Uma Casa no Fim do Mundo" (1990) e ainda mais de "Sangue do Meu Sangue" (1995), "Dias Exemplares" (2005) fez-me deixar Michael Cunningham de lado durante uns tempos - não cheguei a passar pelo mais celebrado "As Horas" (1998), talvez não devesse ter começado pelo filme. Mas escusava de ter deixado "AO CAIR DA NOITE" (2010) arrumado desde há umas quantas feiras do livro. Não tem o factor surpresa nem a ambição dos títulos mais antigos do norte-americano, uma vez que o território (narrativo, temático e emocional) já é familiar, embora isso seja bom (bastante, até) depois da estrutura tripartida e dos ambientes de ficção científica do livro anterior.

 

Se algumas das suas obras foram adaptadas para cinema, Cunningham admitiu que este romance seria menos apetecível para o grande ecrã e ao lê-lo percebe-se porquê. A história de um negociante de uma galeria de arte na casa dos quarenta e da sua relação com o cunhado, irmão mais novo da sua mulher à procura de um rumo além das drogas, não é propriamente rica em acontecimentos e menos ainda em grandes reviravoltas ou tramas secundárias. O que interessa aqui é o universo interior do protagonista, que o autor consegue explorar sem cair nos clichés de crises de meia-idade, do marasmo e ressentimentos conjugais, do questionamento da orientação sexual (mesmo numa idade já muito além da adolescência) ou do papel da arte, elementos fortes de um retrato profundo sem ser sisudo nem exaustivo, mérito de uma escrita ágil, limpa e capaz de encontrar humor entre o caos existencial.

 

Acessos de micro raiva entre marido e mulher, uma descrição original de uma viagem de táxi em Nova Iorque (que poderia aplicar-se a uma metrópole europeia, embora a cidade não seja mero cenário da acção) ou um apontamento tão implacável como realista do peso dos silêncios em (re)encontros ficam entre muitos momentos a sublinhar por aqui. E também como mais uma prova da capacidade de Cunningham para medir o pulso das relações humanas contemporâneas, através de alguns dos seus temas de eleição (amor, desejo, morte, família), que chegarão a mais gente do que as muitas alusões a autores e obras da literatura e da pintura - felizmente, o namedrop, às vezes excessivo, está longe de ser determinante para o balanço (bem satisfatório) da leitura.

 

 

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Voltando à Feira do Livro... Desta vez, não serviu tanto para ir descobrindo mais da obra de Cunningham ou de alguns seus contemporâneos (Jay McInerney, Richard Ford, Douglas Coupland, David Leavitt...), mas para voltar a esgravatar bancas de alfarrabistas. A mania vem desde que há uns 15 anos, e com uns 15 anos, percorria quiosques e lojas entre o Rossio e o Cais do Sodré (ou a Feira da Ladra, se fosse à terça ou ao sábado), quase sempre à procura de BD, quase sempre de comics.

 

O hábito foi ficando pelo caminho (a internet foi chegando entretanto, outros hobbies também) e a Feira do Livro deu para matar as saudades. Até porque é sempre bom juntar mais umas edições da fase mais divertida da "Liga da Justiça" à colecção, a de Keith Giffen e J. M. DeMatteis, antes da tendência "séria" da DC pós-Nolan (com todas as excepções). Ou de um dos momentos mais subestimados da Marvel nos anos 90 (e do universo mutante em especial), a "X-Force" de John Francis Moore e Adam Pollina, outro caso de personagens de segunda linha que tiveram direito a uma vida mais interessante (e mutável) do que muitas das principais, à margem das grandes sagas e eventos da casa (ter um fraquinho por histórias coming of age na estrada ajuda). Já a bolsa de apostas ficou deste lado do Atlântico, com "Alguns Dias com um Mentiroso", do francês Étienne Davodeau - para descobrir, de preferência, antes da próxima romaria às bancas do Parque Eduardo VII.

 

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Adiante, Vingadores

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"VINGADORES: A ERA DE ULTRON" é a Marvel a marcar passo. Depois do factor surpresa da primeira aventura, a funcionar como cereja em cima do bolo para filmes do Capitão América, Homem de Ferro ou Thor, a segunda leva mais longe a ideia de crossover importada da BD e está, muitas vezes (demasiadas vezes?), mais preocupada em deixar pistas para outras sagas do que em dar tempo de antena à que tem em mãos. Ou pelo menos o tempo de antena necessário para que esta sequela não deixe a sensação de uma experiência competente e divertida q.b., mas também apressada e condensada apesar das mais de duas horas de duração.

 

Joss Whedon até tenta desenvolver as personagens que ainda não tiveram direito a filme próprio e não foram muito valorizadas no antecessor. O Gavião Arqueiro, em especial, acaba por ser o coração da equipa e Jeremy Renner ajuda bastante, embora o seu subenredo se afaste tanto da matriz da BD que o torna quase num Capitão América com vida familiar.

Ainda assim, essa mudança é preferível ao romance atribulado entre a Viúva Negra e Hulk, liberdade criativa mais forçada do que espontânea e sem o fôlego dramático a que aspira. Talvez porque Renner tem mais carisma sozinho do que Mark Ruffalo e Scarlett Johannson juntos? Isso e o facto de o alter ego de Bruce Banner, tão bem aproveitado nas melhores cenas cómicas do primeiro filme, não sair a ganhar com a troca para figura atormentada. E Natasha Romanova merecia mais do que o estatuto de namorada que precisa de ser salva...

 

Ultron

 

Mas mais do que neles, "VINGADORES: A ERA DE ULTRON" centra-se no Tony Stark de Robert Downey Jr., actor que parece contentar-se com um Homem de Ferro a disparar sarcasmo em piloto automático. Teve alguma graça noutras aventuras, aqui já perdeu a frescura e tem a desvantagem de não contar com diálogos tão certeiros como os do filme anterior. Corre particularmente mal no combate contra Hulk no meio de uma cidade, com tiradas supostamente espirituosas, mas na prática despropositadas, incapazes de evitar más lembranças do final de "Homem de Aço" cruzado com uma sequência de "Transformers".

 

Há coisas pelas quais vale a pena esperar. O Visão, por exemplo, é o sonho de muitos fãs tornado realidade, andróide impecavelmente encarnado por Paul Bettany e com reforço de CGI na dose certa. Só que, como outras novas personagens, acaba por ser mais um pormenor curioso do que um elemento determinante.

Os muito aguardados Feiticeira Escarlate e Mercúrio, outro chamariz, são reduzidos a muletas do argumento - ele, então, é praticamente um figurante, uma pena quando esta versão é mais condizente com a BD do que a de "X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido" e Aaron Taylor-Johnson mostra ter perfil (e mau feitio) para a personagem.

 

Em vez de se interessar a sério por estas figuras, o filme tem de desdobrar-se em teasers para as próximas sagas, o que explica incursões confusas por Wakanda ou uma cena despropositada com Thor numa caverna, imposições dos estúdios a comprometer um blockbuster de autor que se fica pela tentativa (por muito que alguns apontem a química das personagens ou os diálogos à Whedon, na verdade pouco distantes dos de outros filmes-pipoca).

 

mercurio_feiticeira_escarlate

 

O que poderia ser uma aventura com identidade é mais uma peça numa engrenagem cada vez maior e mais homogénea. Visualmente, é tão indiferenciada como os outros filmes da Marvel (descontando, vá, o primeiro do Capitão América), aquém do que Sam Raimi conseguiu com o Homem-Aranha ou Bryan Singer e Matthew Vaughn nos X-Men. Narrativamente, opta pela rotina com um final a lembrar demasiado o de "Capitão América: O Soldado do Inverno" ou "Guardiões da Galáxia" e solução Deus ex machina que anula qualquer risco (e que implica ver a série "Agents of S.H.I.E.L.D." para não parecer tão gratuita). Mas mesmo que a ameaça seja forte, é difícil levar a morte a sério quando Phil Coulson, Nick Fury ou Groot ressuscitaram sem problemas em episódios anteriores deste universo partilhado.

 

E o próprio Ultron que dá nome ao filme? Também ele perde quando Whedon tem de dar muita coisa a muita gente, deixando um robot vingativo e munido de humor negro a meio caminho de um vilão realmente memorável. A relação com o seu criador, Tony Stark, não tem grande espaço para ser explorada e o plano de destruição mostra-se menos bem arquitectado do que promete - como acontece com o filme, aliás. Mas "Capitão América: Guerra Civil" é que vai ser, garante meia internet...

 

 

 

Queimar soutiens? Não, basta ter orgulho na mini-saia

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De Beyoncé a Madonna, de Grimes a Lana Del Rey, o feminismo e a objectificação da mulher têm sido tema de boa parte da pop recente - da música ou de alguns depoimentos das suas autoras. Mas poucas canções dos últimos tempos terão sido tão contundentes a abordar o assunto como o novo single dos BRAIDS.

 

A conversa do visual "provocante" como desculpa para a violação é tão triste como antiga e mais do que inspiradora para uma canção como "MINISKIRT", que também passa pelos dois pesos e duas medidas aplicados a comportamentos masculinos e femininos. "I am not a man hater/ I enjoy them like cake/ But in my position/ I'm the slut/ I'm the bitch/ I'm the whore", dispara Raphaelle Standell-Preston, a mostrar força por trás da voz doce e aparentemente frágil. "You feel you've the right to touch me/ Cause I asked for it/ In my little miniskirt", continua, antes de chegar ao pico de um potente manifesto feminista quando defende "My little miniskirt/ It's mine, all mine".

 

A discussão está longe de ser nova, os argumentos da banda também, mas não só continua a fazer sentido como é bem trabalhada numa canção que não se esgota na agenda política. O arranque relativamente apaziguado e minimalista, ao piano, vai dando lugar a electrónica mais agitada, de perfil glitch, que recusa a estrutura formatada insinuada pelo refrão - e acaba por acompanhar o relato de outra experiência de domínio masculino nos últimos minutos, ainda assim a contornar a vitimização. O resultado é um dos pilares do terceiro e novo álbum dos canadianos, "Deep in the Iris", e Kevan Funk contou à Pitchfork ter-se inspirado na sua "beleza incendiária" e na ideia de controlo da natureza para realizar o videoclip:

 

 

O Verão chega mais cedo com este disco

O título pode enganar: "CALIFORNIA NIGHTS" tem muito pouco de nocturno e até é dos álbuns mais luminosos da temporada. Depois de explorarem décadas anteriores, os BEST COAST resgatam os anos 1990 com uma power pop derivativa mas deliciosa na mesma.

 

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No princípio eram os anos 1960, via surf rock e girl groups devidamente recuperados em "Crazy for You" (2010), a estreia muito elogiada (talvez até com algum exagero) da dupla de Bethany Cosentino e Bobb Bruno. Já o mal amado "The Only Place" (2012) trocou o despojamento lo-fi por uma produção mais polida (cortesia de Jon Brion) e espraiou-se entre a alternative country e o soft rock dos anos 1970.

"CALIFORNIA NIGHTS" é agora, de certa forma, a evolução natural de uma discografia que vai assimiliando e somando influências sem sequer tentar qualquer revolução sonora pelo caminho. Nada contra quando o resultado soa tão bem como neste terceiro álbum. Aliás, o duo californiano soa aqui melhor do que nunca, deixando decididamente para trás as canções artesanais dos primeiros dias.

A troca talvez deite a perder alguma esponteidade, responsável por boa parte do charme inicial, mas este som mais encorpado acaba por valorizar o que os Best Coast têm de melhor: a pontaria para melodias, harmonias vocais e uma mão cheia de refrãos impecáveis - e descaradamente pop, por muito que a produção tentasse disfarçá-lo.

 

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A mudança já tinha sido denunciada, pelo menos em parte, no EP "Fade Away" (2013), que não por acaso tinha nos créditos o mesmo produtor, Wally Gagel, cujo currículo arrancou com os esquecidos Belly e passou por Tanya Donelly, Juliana Hatfield ou Metric, nomes eventualmente sugeridos ao longo de uma audição de "CALIFORNIA NIGHTS".

Mas a cobertura expansiva, musculada e flamejante destas canções lembra ainda mais os Hole da fase "Celebrity Skin" (1998), com um misto de brilho e melancolia que Beth Cosentino concilia, ainda assim, de forma bem distinta (e bem mais vulnerável) do que Courtney Love. E nunca a tínhamos ouvido tão fresca e límpida como aqui, com um carisma capaz de compensar a redundância da escrita (as letras continuam tão monotemáticas como no início, quase sempre agarradas a relações falhadas e ao desalento amoroso da cantora, retratado de forma mais imberbe do que complexa).

 

É verdade que "CALIFORNIA NIGHTS" não mantém, ao longo do alinhamento, a fasquia tão elevada como o terceiro álbum dos Hole, mas ainda deixa várias pérolas reluzentes para este verão. "In My Eyes", gigante, constrói uma muralha de guitarras e bateria a acompanhar Cosentino, mais imponente do que o habitual (atenção às segundas vozes, um mimo). Só é pena que a devastação instrumental do final seja logo rematada em fade out em vez de continuar, embora "When Will I Change" compense ao terminar com uma mudança de velocidade a caminho da distorção, aqui minimamente prolongada.

 

 
Também em modo efervescente, "Feeling OK" não tem tantos desvios e merece ser um single direto às playlists - talvez tivesse mais hipóteses numa de meados dos anos 1990. A dream pop de "Heaven Sent", outra aposta oficial, não destoaria no catálogo da 4AD de há duas ou três décadas. "Run Through My Head" é uma injecção de adrenalina na recta final do álbum, seguida de uma "Sleep Will Never Come" nada soporífera. Já o rock de "Jealousy" não impede que sejamos surpreendidos com um coro devedor dos girl groups dos anos 1960, a fazer a ponte com o disco de estreia dos Best Coast. E se "CALIFORNIA NIGHTS" não é um disco especialmente versátil, deixa outros espaços para a surpresa na faixa título, um raro momento contemplativo em ambiente shoegaze, ou na envolvente "Wasted Time", a fechar o alinhamento entre a folk uma torch song.

No final, fica uma pergunta: o disco deste Verão chegou adiantado?

 

 

Que paródia de férias

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"FORÇA MAIOR" tem suscitado algumas comparações com o estilo de Michael Haneke e até de Lars von Trier ou Stanley Kubrick, e se é verdade que o novo filme de Ruben Östlund chega a sugerir traços desses nomes - sobretudo do primeiro, pela realização clínica e rigorosa a demarcar um olhar seco sobre a natureza humana -, também tempera o drama familiar com um humor que corta parte da frieza emocional.

 

Esse pormenor não é de desconsiderar e ajuda, às vezes muito, a lidar com um retrato a ameaçar tornar-se demasiado distante ou exasperante, ao partir de umas férias em família aparentemente idílicas, numa estância turística nos Alpes franceses, que resultam num teste de resistência quando um susto não causa estragos físicos mas deixa um nervoso miudinho a pairar.

 

Como reagir numa situação limite que também envolve aqueles que nos são mais próximos? O realizador não dá respostas, embora para Ebba, esposa e mãe, a resposta seja óbvia. Óbvia é também a sua desilusão pela reacção de Tomas, o marido, face à situação tensa que instaura o martírio conjugal e consegue, como poucos filmes, deixar o espectador tão desorientado como os protagonistas - ou, no mínimo, a permitir que a dúvida se intrometa em algumas das suas certezas e códigos de conduta ao confrontar instinto, medo e amor.

 

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Do ritmo paciente aos habituais planos fixos de conjunto, alicerçados numa geometria de corpos e cenários, Östlund não deixa nada ao acaso num drama analítico e meticuloso, mas menos sisudo e pessimista do que os de alguns cineastas aos quais tem sido comparado.

Os juízos de valor partem todos das personagens e felizmente nenhuma se destaca como voz óbvia do realizador e argumentista, assim como nenhuma se sujeita a saco de pancada privilegiado de um humor escarninho e incómodo q.b., mas encadeado  num desenvolvimento dramático mais humanista do que parece à partida.

 

Depois de quase duas horas capazes de fintar expectativas, "FORÇA MAIOR" dá-se ao luxo de servir pelo menos dois (bons) finais falsos antes de se decidir por um remate também conseguido, que só peca por ser demasiado conveniente ao forçar o fecho de um círculo, beliscando parte do efeito realista tão bem gerido até aí. Mas tem força suficiente para aguardar com expectativa o próximo filme do seu autor, além de encorajar a descoberta dos três que assinou antes, nenhum com estreia no circuito comercial português. Esta, no entanto, fica já entre as melhores estreias do ano.

 

3,5/5

 

 

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