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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Entre Brighton e o Cartaxo

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O look retro não é casual. Os NOVELLA estão mesmo mais interessados em esgravatar o passado do que em antecipar o futuro e não há nada de mal nisso quando, depois de se juntarem há cinco anos, chegam a um disco de estreia como "Land".

 

Com um pé na década de 60 e outro na de 90, via psicadelismo e shoegaze, respectivamente, o quinteto de Brighton partilhou palcos com outros revisionistas indie - das Dum Dum Girls aos Veronica Falls - e a digressão mais recente até inclui uma passagem por cá, a 28 de Agosto, no Reverence Valada, em Valada do Ribatejo.

 

Se seguir os moldes do álbum, o concerto dará uma boa amostra de harmonias vocais lado a lado com guitarras esvoaçantes, apelo pop e ocasionais heranças krautrock, em canções que trazem memórias dos saudosos Lush, das Electrelane (por onde andam, a propósito?) ou dos portugueses (e praticamente esquecidos) Supernova antes de se entregarem à electrónica.

 

Além de alguns ritmos e texturas resgatarem o shoegaze, a postura dos britânicos ao vivo também aplica os ensinamentos dessa escola. Ou pelo menos é o que acontece no videoclip de "LAND GONE", no qual boa parte do grupo não desvia muito o olhar do chão. Pose ou timidez? O mistério talvez seja desvendado no festival do Cartaxo, daqui a umas semanas...

 

 

30 de 2015

Cada vez mais estreias, cada vez menos filmes que deixam marca? Mesmo com as omissões habituais (agravadas pelo pouco tempo em sala de algumas propostas), acaba por ser esse o balanço do primeiro semestre. Tanto que se tornou particularmente difícil, mais do que em anos anteriores, escolher uma dezena de filmes a reter (daí a lista ter ficado pelos cinco). Melhor foi a oferta musical, por muito que o formato álbum esteja em desuso - felizmente, há excepções que confirmam a regra e não seria complicado acrescentar mais uma ou outra aos "keepers" dos últimos seis meses. A lista de séries também podia ser maior, embora seja mais prudente esperar para ver como acabam algumas temporadas ("Borgen" já tem uns anos, é verdade, mas como só chegou há poucos meses à televisão nacional, ainda entra nestas contas). Para saber mais sobre cada filme, disco, canção ou série, é só clicar abaixo:

 

5 FILMES

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"As Vozes", Marjane Satrapi
"Divertida-Mente", Pete Docter e Ronaldo Del Carmen
"Força Maior", Ruben Östlund
"O País das Maravilhas", Alice Rohrwacher
"Os Combatentes", Thomas Cailley

Maior perda de tempo: "Ascensão de Júpiter", Andy e Lana Wachowski/ "Vício Intrínseco", Paul Thomas Anderson

 

10 DISCOS

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"California Nights", Best Coast
"Vulnicura", Björk
"Dumb Flesh", Blanck Mass
"The Magic Whip", Blur
"I Don't Want to Grow Up", Colleen Green
"FROOT", Marina and the Diamonds
"Mar Aberto", MEDEIROS/LUCAS
"Deeper", The Soft Moon
"Foil Deer", Speedy Ortiz
"Viet Cong", Viet Cong

Desilusão do semestre: "Rebel Heart", Madonna
Ansiosamente à espera de: "Destroyer", Telepathe (7 de Agosto)

 

 10 CANÇÕES

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"Notget", Björk
"Cruel Sport", Blanck Mass
"Miniskirt", Braids
"Deeper Than Love", Colleen Green
"Storm's End", Leftfield
"Savages", Marina and the Diamonds
"Hotel", Nocturnal Sunshine
"Meet Your Maker", Shlohmo
"Tira Bilhete", Smix Smox Smux
"Euadaemonia", Them Are Us Too

Canção do Verão: "Milk-Choc", Kazaky

 

 5 SÉRIES

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"A Guerra dos Tronos", HBO
"Borgen", DR1
"House of Cards", Netflix
"Looking", HBO
"The Americans", FX

Melhor primeira impressão: "Mr. Robot", USA Network
Melhor última impressão: "Como Defender um Assassino", ABC

 

O lado lunar de Luis Vasquez

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A última noite do festival Paredes de Coura deste ano já seria recomendável só por Lykke Li e Ratatat, mas a organização esteve ainda melhor ao escolher THE SOFT MOON para fechar o palco After Hours.

 

Dificilmente se imagina cenário e horário mais propício para acolher a estreia do projecto de Luis Vasquez, que ao terceiro disco volta a deixar uma nova carta de amor (com canções de raiva e ódio) ao lado mais negro dos anos 80 e, desta vez, também de parte dos 90.

 

"Deeper" é um regalo para quem passou noites a ouvir Nine Inch Nails, Nitzer Ebb ou a faceta turva dos Depeche Mode, influências tão presentes que chega a ser tentador acusar o seu autor de plágio. Mas mais do que obra de copista, estas canções soam a disco de fã dedicado, com a escola toda nas cadeiras de gótico, industrial, cold wave, EBM ou pós-punk e capaz de lhes acrescentar capítulos do seu inferno pessoal.

 

Numa esclarecedora reportagem do Electronic Beats, o cantor, compositor, multi-instrumentista e produtor californiano nem se importa de acumular também alguns clichés do artista torturado, a exorcizar traumas e angústias na música em busca de paz anterior. Tanto melhor para quem o ouve, e provavelmente também para quem o vê. Vasquez considera The Soft Moon mais um projecto artístico do que apenas uma banda e não menoriza o lado visual face ao sonoro. A união pode comprovar-se nos videoclips abaixo (80s e 90s novamente, via David Lynch ou Cronenberg) e no palco minhoto a 22 de Agosto:

 

 

 

 

Bom dia, tristeza

Ainda há esperança para o cinema quando um dos grandes filmes do ano (e provavelmente o melhor do primeiro semestre) é também um dos maiores êxitos de bilheteira - por cá ou nos EUA.

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Não será por acaso: "DIVERTIDA-MENTE" revela-se uma proposta irrecusável para um público dos 7 aos 77 (pelo menos), capaz de funcionar a níveis diferentes junto de miúdos e graúdos.

Já seria legítimo esperar o melhor de Pete Docter, o autor de "Monstros e Companhia" e "Up - Altamente", que regressa à realização ao lado de Ronaldo Del Carmen (este a estrear-se nessa função numa longa-metragem depois de uma vasta experiência na animação no pequeno e grande ecrã). Ainda assim, e depois de alguns filmes menos memoráveis da Pixar, é bom reencontrá-lo numa obra que volta a elevar a fasquia dos estúdios e traz um concentrado de criatividade que não se tem visto muito em blockbusters - e até consegue conjugá-lo com temas e abordagens bem mais complexas do que muita produção norte-americana dirigida a adolescentes e adultos.

Viagem à cabeça de uma pré-adolescente de 11 anos, "DIVERTIDA-MENTE" centra-se nas cinco emoções que gerem o seu dia-a-dia: Medo, Repulsa, Raiva, Alegria e Tristeza. As duas últimas têm atenção especial quando um incidente as atira para os confins do cérebro, impondo um ambiente de estado de emergência numa altura decisiva para o destino de Riley, que muda de casa com os pais de uma localidade do Minnesota para São Francisco e demora a adaptar-se à nova rotina.

A partir daqui, a dupla de realizadores desenha uma jornada à qual não falta aventura e humor, num sortido de peripécias pelos meandros dos sonhos ou do subconsciente, suficientemente dinâmica para prender a atenção dos mais novos e com doses estimáveis de inteligência, sensibilidade e subtileza para também ter efeito em quem já tenha vivido a infância e a adolescência. Enquanto a missão de Alegria e Tristeza vai passando por várias etapas, o filme vai acrescentando camadas a um retrato melancólico do crescimento e do poder (e falhas) da memória.

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O equilíbrio difícil, mas muito conseguido, de optimismo e angústia acaba por compensar o lado por vezes demasiado funcional do argumento, às vezes reduzido a uma sucessão de níveis e obstáculos. E se também é verdade que algumas personagens poderiam ter sido mais exploradas, o contraste entre as duas emoções dominantes e as cenas com Riley e os pais já têm uma força emocional incomum, com apelo universal sem se tornarem genéricas nem se munirem de facilitismos dramáticos.

A nível visual, "DIVERTIDA-MENTE" nem é das obras mais ambiciosas da Pixar, mesmo que o patamar de qualidade não seja beliscado. De qualquer forma, além de esta viagem ter um coração ainda maior do que a vastidão do cérebro, deixa umas quantas sequências de antologia, com destaque para uma especialmente abstracta, outra que se despede de uma personagem com tanto de cómico como de trágico ou uma delirante piscadela de olho a Hollywood.

Depois de "O Filme Lego" ou "Toy Story 3" terem captado tão bem o adeus à infância nos últimos anos, a nova proposta da Pixar volta a dar vontade de ir à cave, à arrecadação ou a um baú esquecido resgatar brinquedos e memórias. E não poderia haver melhor desfecho, por muito triste que seja voltar à alegria de outros tempos.

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