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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Mulher moderna

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Do open space à pista de dança. As canções mais recentes de LITTLE BOOTS têm feito quase sempre esse percurso, ou não fosse o terceiro álbum da britânica, "Working Girl", uma ode à resiliência feminina, sobretudo num contexto laboral.

 

A nova aposta promocional, "GET THINGS DONE", não foge à regra e volta a eleger o escritório como cenário depois de o videoclip de "No Pressure" já ter passado por lá. Mas em vez de se perder em queixumes sobre o muito trabalho que tem para fazer, Victoria Hesketh opta pelo pragmatismo e deita mãos à obra num hino workaholic - e com refrão a lembrar a faceta mais disco de Kylie Minogue.

 

Além de servir para fazer a festa (possível) entre secretárias, a canção é um aquecimento convidativo para deixar a to-do list de lado e ir abraçando o fim de semana:

 

 

Canção do mar

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Enquanto não apresentam canções novas, os RÖYKSOPP continuam a dar-nos motivos para voltar a "The Inevitable End", um dos bons discos do ano passado.

Depois de "I Had This Thing", com a voz de Jamie McDermott, dos The Irrepressibles, a nova chamada de atenção para o quinto album da dupla norueguesa é "RUNNING TO THE SEA", interpretada pela conterrânea Susanne Sundfør.

Na verdade, o tema já não era novidade quando chegou ao alinhamento do álbum, uma vez que surgiu em 2012, mas ganha outro impulso com o videoclip, criado a partir de um concurso lançado pela banda e o site Genero.

Ao fim de mais de 200 propostas, a vencedora foi a de Lauren Rothery, que torna a canção ainda mais gélida ao seguir um homem isolado numa floresta coberta de neve, atormentado por memórias da filha - e com o mar a comandar os acontecimentos, seguindo de perto a letra do tema. Uma abordagem mais escandinava era difícil:

 

 

Viver e morrer em Los Angeles

Precisávamos mesmo de um spin-off de "The Walking Dead"? Nos seus melhores momentos, "FEAR THE WALKING DEAD" responde com um "nim". Nos piores, acusa o desgaste (criativo) do filão dos zombies.

 

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Em equipa que ganha não se mexe, mas pode sempre arranjar-se outra para o mesmo efeito. Ou pelo menos tentar. E não vem grande mal ao mundo pela expansão da saga de Robert Kirkman no pequeno ecrã, justificada pela boa recepção tanto do público como da crítica ao mundo pós-apocalíptico ameaçado por walkers.

Face a essa popularidade, é compreensível que a prequela "FEAR THE WALKING DEAD" fosse aguardada com alguma expectativa, até por apresentar a explicação para o que levou ao cenário inóspito com que Rick Grimes, Michonne ou Daryl têm de lidar.

Só que este recuo de alguns anos na acção, que parte do quotidiano de um casal de professores de Los Angeles e dos seus filhos, perde por não conseguir ganhar grande autonomia face à saga matriz e dificilmente teria uma atenção comparável se não estivesse associado a ela. Se por um lado a coerência com o universo de "The Walking Dead" faz todo o sentido (até se desculpa o exagero de filtros dourados de boa parte das cenas), os seis episódios da primeira temporada não oferecem variações suficientes quer em relação essa saga quer a outras dominadas por zombies.

Os adeptos mais acérrimos do género talvez não reclamem muito, sobretudo porque tecnicamente "FEAR THE WALKING DEAD" cumpre e conta com algumas cenas de tensão conseguidas. Mas isso também era o mínimo exigível a uma aposta que tem um legado considerável e não parece dar grandes sinais de querer reinventar-se.

 

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O ângulo da família disfuncional até poderia correr bem, mesmo que esse conceito também esteja longe de ser novidade na televisão ou cinema dos últimos anos. E se os protagonistas, Travis e Madison, são personagens interessantes, com o argumento a aproveitar o dilema moral que a ameaça dos zombies acaba por ir acentuando no casal, os filhos adolescentes não mostram grande carisma.
Entre um toxicodependente cuja dependência varia em função das necessidades da narrativa, uma irmã mais ou menos decorativa e um rapaz que só parece existir para funcionar como contraste de temperamento com o pai, a galeria fica muito aquém das personagens icónicas de "THE WALKING DEAD". É certo que meia dúzia de episódios também não permite desenvolvê-las muito, mas o próprio elenco não ajuda, com actores que reforçam as limitações das personagens.

Pior ainda é a família latina que acompanha os protagonistas, que não escapa a clichés culturais e parece copiada a regra e esquadro de uma da (também recente) segunda temporada de "The Strain" (pai autoritário, mãe conformada, filha rebelde q.b.). A série criada por Guillermo Del Toro, sem ser brilhante, consegue, aliás, seguir o início de uma praga (não de zombies, mas de vampiros que se parecem com eles) com mais frescura e ousadia, tanto pelo tipo de personagens como pelas situações em que as coloca ou até na componente visual das criaturas assassinas.

O melhor de "FEAR THE WALKING DEAD" acabam por ser algumas cenas domésticas dos momentos iniciais, como as de um episódio piloto eficaz (com humor na gestão do suspense e inversão das expectativas) em que os protagonistas ainda não compreendem o caos circundante. Mas nem aí este arranque resulta sempre, tanto por algumas atitudes disparatadas das personagens (até certo ponto aceitáveis, mas o argumento estica demasiado a corda) como pela sucessão quase sempre óbvia de figuras que vão sendo despachadas pelo caminho (até a morte em destaque no ultimo episódio, a mais marcante, é praticamente telegrafada no primeiro, desperdiçando uma das escolhas mais fortes do elenco).

Embora o status quo do final da temporada se aproxime mais do cenário da série-mãe do que da premissa, ainda há por aqui algum potencial. Victor Strand, personagem introduzida nos últimos capítulos e destinada a ter um papel mais preponderante, rouba logo todas as cenas em que entra, em parte pela interpretação desenvolta de Colman Domingo, em parte pela forma como influencia a dinâmica do núcleo central. Caso consiga injectar mais vida em alguns protagonistas, a viagem da segunda temporada (já confirmada para 2016, com 15 episódios) pode ir bem mais longe... até porque a primeira mal chega a arrancar. 

 

 

Uma estreia com sangue azul

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Podia limitar-se a replicar boa parte da programação do Queer Lisboa 19 que já não seria mau, mas a primeira edição do QUEER PORTO, que arranca esta quarta-feira, é mais vincada por apostas inéditas. Apostas como o filme da sessão de abertura, o drama familiar "Sangue Azul", do brasileiro Lírio Ferreira, que chega cá depois de ter sido distinguido como Melhor Filme no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro e de ter inaugurado a secção Panorama da última edição da Berlinale.

 

Até dia 10, a extensão do Festival Internacional de Cinema Queer à Invicta tem mais 27 filmes LGBT em destaque, com passagem pelo Teatro Municipal Rivoli. A Mala Voadora (dedicada a curtas-metragens e instalações), a Galeria Wrong Weather (palco da vídeo instalação "The Golden Age of American Male"), o Maus Hábitos e a Casa do Livro são os outros espaços a abrir portas à estreia do evento. Ao contrário do Queer Lisboa, por enquanto há apenas uma secção competitiva, que junta 12 longas-metragens de ficção e documentários. E dessa lista, há pelo menos três que parecem justificar a visita ao Auditório Isabel Alves Costa:

 

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"DÓLARES DE ARENA": Filmes da República Dominicana por cá são uma raridade, até porque o país é mais conhecido pela oferta turística do que pela produção cinematográfica. Não admira, por isso, que este drama de Israel Cárdenas e Laura Amelia Guzmán tenha as férias no centro da narrativa, ao seguir um casal jovem e a relação da rapariga com uma mulher mais velha, francesa e solitária, que parece surgir como solução óbvia para problemas financeiros. Só que a ligação comercial também pode deixar consequências emocionais, nesta terceira longa-metragem da dupla de realizadores que tem colhido elogios pelo realismo dos ambientes e interpretações das protagonistas.

 

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"MARIPOSA": Marco Berger não será um nome estranho para boa parte do público do Queer Lisboa. O festival já apresentou alguns dos filmes mais celebrados do argentino, como os recomendáveis "Plano B" ou "Ausente" (premiado com o Teddy Award da Berlinale), e se este ano não o incluiu na programação, guardou-o como um dos trunfos da estreia no Porto. Em vez dos dramas relativamente simples e lineares desses antecessores, esta nova (e já sétima) longa-metragem atira-se a duas realidades distintas centradas no mesmo casal, embora numa a dupla seja composta por irmãos e noutra tome a forma de um homem e uma mulher. Relatadas tanto em separado como em simultâneo (através de split screens), as peripécias deverão estar entre as experiências mais curiosas da selecção do festival.

 

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"THE NIGHT": Com apenas 21 anos, Zhou Hao assina e protagoniza a sua estreia nas longas-metragens depois de duas curtas. O jovem realizador chinês encarrega-se ainda da banda sonora deste drama de iniciação amorosa e sexual em ambientes nocturnos, centrado em dois prostitutos e numa paixão inesperada por uma rapariga que se desenha entre o hedonismo. A julgar por algumas reacções em festivais internacionais, Hao está mais interessado na vertente sensorial e poética do que na solidez do argumento, mas a temática e as imagens promocionais sugerem um cruzamento de Wong Kar-wai e Xavier Dolan, o que até pode ter alguma graça.

 

História da avozinha (para a geração Skype)

Além de marcar o regresso à forma de M. Night Shyamalan, "A VISITA" é um dos grandes divertimentos a passar pelas salas este ano. E esse lado lúdico não se mostra nada incompatível, antes pelo contrário, com o filme de terror que esta proposta também é.

 

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Shyamalan, volta que estás perdoado por "O Último Airbender" e "Depois da Terra" (e, para alguns, os mal acolhidos mas interessantes "A Senhora da Água" e "O Acontecimento")? Depois de ver "A VISITA", será difícil não saudar o cineasta que foi tão aplaudido na viragem do milénio como apupado e quase esquecido poucos anos depois.

Longe das grandes produções que dominaram as suas últimas obras, o indiano radicado nos EUA sai-se agora com um filme inesperadamente modesto nos meios, sem nomes sonantes no elenco e até a dispensar conceitos tão ambiciosos e singulares como os de outros tempos - do sobrevalorizado "O Sexto Sentido" ao tremendo "A Vila".

A premissa é simples - dois irmãos adolescentes vão visitar os avós que nunca conheceram, esperando reconciliá-los com a mãe - e a execução sabe tirar partido de um cruzamento de imaginários - dos contos infantis aos clássicos da casa amaldiçoada - tornando a contenção de recursos numa porta aberta para a imaginação.

A aposta no found footage, modelo a acusar esgotamento em filões como "Actividade Paranormal" e afins, revela-se aqui estratégica para construir uma atmosfera de nervoso miudinho, alguns sustos bem orquestrados e, mais do que isso, equacionar os mecanismos do cinema e os limites entre a percepção e o voyeurismo, deixando ainda um olhar ambíguo sobre as formas de comunicação modernas (e uma cultura jovem dependente de telemóveis e internet).

 

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Não por acaso, a protagonista é aspirante a realizadora e um eco óbvio de algumas considerações éticas e formais de Shyamalan, mas felizmente não se limita a ser uma cabeça falante e existe enquanto personagem. Aliás, sem a química dela com o irmão, "A VISITA" perderia grande parte do seu efeito, já que deve à dupla muita da sua empatia, atrevimento e risco.


Além do talento do cineasta, reconheça-se o das revelações Olivia DeJonge e Ed Oxenbould, este último hilariante (as referências a cantoras pop são de antologia) e instigador dos momentos mais cómicos de um filme que consegue inquietar logo a seguir a esses - um equilíbrio difícil, mas aqui gerido com um savoir faire em falta noutras propostas do género recentes.

Se às vezes, sobretudo pelas cenas com a protagonista, o tom arrisca ser demasiado irónico e auto-consciente, quase presunçoso, essa faceta vai dando lugar a uma vertente dramática - mais pela relação dos miúdos com os pais do que com os avós - muito bem rematada num final que consegue ir a todas sem nunca trair o espectador nem os protagonistas (e no qual o twist, quase inevitável em Shyamalan, só funciona porque o drama familiar, tão ou mais caro ao realizador, também está bem alicerçado).

Quem procurar aqui outro "A Vila" ou "O Protegido" vai ao engano: este é claramente outro campeonato, com outros resultados em vista. Mas dentro das balizas que estabelece, "A VISITA" é mesmo o triunfo de Shyamalan que já fazia falta há uns anos.