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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

A cantora que veio do frio

Susanne_Sundfør

 

Já colaborou com M83, Kleerup ou Röyksopp (em "Running to the Sea", que ganhou videoclip recentemente), mas além das canções de terceiros SUSANNE SUNDFøR tem dado voz a dezenas de temas seus. Os últimos encontram-se em "Ten Love Songs", o quinto álbum da norueguesa, editado em Fevereiro e ainda a tempo de ser (re)descoberto por estes dias cinzentos.

 

A sua pop negra, barroca e com uma dívida óbvia aos anos 80 tem-lhe rendido comparações a Kate Bush ou a sucessoras como Florence + the Machine e Austra, passando pelo lado mais dançável e exuberante de uns Goldfrapp. Às vezes, Sundfør nem acrescenta muito ao que esses nomes já fizeram. Noutros casos vai além da competência e oferece algumas pérolas como "ACCELERATE", o novo single, que arranca na via de muitas cantautoras da indietrónica actual antes de se aventurar por caminhos mais idiossincráticos - mérito de um refrão luminoso e pegajoso capaz de compensar o negrume à volta, entre a percussão obsessiva e um órgão que se intromete, e bem, a meio.

 

O videoclip, acabado de estrear, mantém o jogo de luz e sombra e a alternância entre introspecção e explosão sem que as imagens tentem ofuscar a voz e os instrumentos - até porque nem seria lá muito fácil:

 

 

Mulher moderna

little_boots_2

 

Do open space à pista de dança. As canções mais recentes de LITTLE BOOTS têm feito quase sempre esse percurso, ou não fosse o terceiro álbum da britânica, "Working Girl", uma ode à resiliência feminina, sobretudo num contexto laboral.

 

A nova aposta promocional, "GET THINGS DONE", não foge à regra e volta a eleger o escritório como cenário depois de o videoclip de "No Pressure" já ter passado por lá. Mas em vez de se perder em queixumes sobre o muito trabalho que tem para fazer, Victoria Hesketh opta pelo pragmatismo e deita mãos à obra num hino workaholic - e com refrão a lembrar a faceta mais disco de Kylie Minogue.

 

Além de servir para fazer a festa (possível) entre secretárias, a canção é um aquecimento convidativo para deixar a to-do list de lado e ir abraçando o fim de semana:

 

 

Canção do mar

royksopp_2015

 

Enquanto não apresentam canções novas, os RÖYKSOPP continuam a dar-nos motivos para voltar a "The Inevitable End", um dos bons discos do ano passado.

Depois de "I Had This Thing", com a voz de Jamie McDermott, dos The Irrepressibles, a nova chamada de atenção para o quinto album da dupla norueguesa é "RUNNING TO THE SEA", interpretada pela conterrânea Susanne Sundfør.

Na verdade, o tema já não era novidade quando chegou ao alinhamento do álbum, uma vez que surgiu em 2012, mas ganha outro impulso com o videoclip, criado a partir de um concurso lançado pela banda e o site Genero.

Ao fim de mais de 200 propostas, a vencedora foi a de Lauren Rothery, que torna a canção ainda mais gélida ao seguir um homem isolado numa floresta coberta de neve, atormentado por memórias da filha - e com o mar a comandar os acontecimentos, seguindo de perto a letra do tema. Uma abordagem mais escandinava era difícil:

 

 

Viver e morrer em Los Angeles

Precisávamos mesmo de um spin-off de "The Walking Dead"? Nos seus melhores momentos, "FEAR THE WALKING DEAD" responde com um "nim". Nos piores, acusa o desgaste (criativo) do filão dos zombies.

 

fear_the_walking_dead_pic

 

Em equipa que ganha não se mexe, mas pode sempre arranjar-se outra para o mesmo efeito. Ou pelo menos tentar. E não vem grande mal ao mundo pela expansão da saga de Robert Kirkman no pequeno ecrã, justificada pela boa recepção tanto do público como da crítica ao mundo pós-apocalíptico ameaçado por walkers.

Face a essa popularidade, é compreensível que a prequela "FEAR THE WALKING DEAD" fosse aguardada com alguma expectativa, até por apresentar a explicação para o que levou ao cenário inóspito com que Rick Grimes, Michonne ou Daryl têm de lidar.

Só que este recuo de alguns anos na acção, que parte do quotidiano de um casal de professores de Los Angeles e dos seus filhos, perde por não conseguir ganhar grande autonomia face à saga matriz e dificilmente teria uma atenção comparável se não estivesse associado a ela. Se por um lado a coerência com o universo de "The Walking Dead" faz todo o sentido (até se desculpa o exagero de filtros dourados de boa parte das cenas), os seis episódios da primeira temporada não oferecem variações suficientes quer em relação essa saga quer a outras dominadas por zombies.

Os adeptos mais acérrimos do género talvez não reclamem muito, sobretudo porque tecnicamente "FEAR THE WALKING DEAD" cumpre e conta com algumas cenas de tensão conseguidas. Mas isso também era o mínimo exigível a uma aposta que tem um legado considerável e não parece dar grandes sinais de querer reinventar-se.

 

fearthewalkingdead

 

O ângulo da família disfuncional até poderia correr bem, mesmo que esse conceito também esteja longe de ser novidade na televisão ou cinema dos últimos anos. E se os protagonistas, Travis e Madison, são personagens interessantes, com o argumento a aproveitar o dilema moral que a ameaça dos zombies acaba por ir acentuando no casal, os filhos adolescentes não mostram grande carisma.
Entre um toxicodependente cuja dependência varia em função das necessidades da narrativa, uma irmã mais ou menos decorativa e um rapaz que só parece existir para funcionar como contraste de temperamento com o pai, a galeria fica muito aquém das personagens icónicas de "THE WALKING DEAD". É certo que meia dúzia de episódios também não permite desenvolvê-las muito, mas o próprio elenco não ajuda, com actores que reforçam as limitações das personagens.

Pior ainda é a família latina que acompanha os protagonistas, que não escapa a clichés culturais e parece copiada a regra e esquadro de uma da (também recente) segunda temporada de "The Strain" (pai autoritário, mãe conformada, filha rebelde q.b.). A série criada por Guillermo Del Toro, sem ser brilhante, consegue, aliás, seguir o início de uma praga (não de zombies, mas de vampiros que se parecem com eles) com mais frescura e ousadia, tanto pelo tipo de personagens como pelas situações em que as coloca ou até na componente visual das criaturas assassinas.

O melhor de "FEAR THE WALKING DEAD" acabam por ser algumas cenas domésticas dos momentos iniciais, como as de um episódio piloto eficaz (com humor na gestão do suspense e inversão das expectativas) em que os protagonistas ainda não compreendem o caos circundante. Mas nem aí este arranque resulta sempre, tanto por algumas atitudes disparatadas das personagens (até certo ponto aceitáveis, mas o argumento estica demasiado a corda) como pela sucessão quase sempre óbvia de figuras que vão sendo despachadas pelo caminho (até a morte em destaque no ultimo episódio, a mais marcante, é praticamente telegrafada no primeiro, desperdiçando uma das escolhas mais fortes do elenco).

Embora o status quo do final da temporada se aproxime mais do cenário da série-mãe do que da premissa, ainda há por aqui algum potencial. Victor Strand, personagem introduzida nos últimos capítulos e destinada a ter um papel mais preponderante, rouba logo todas as cenas em que entra, em parte pela interpretação desenvolta de Colman Domingo, em parte pela forma como influencia a dinâmica do núcleo central. Caso consiga injectar mais vida em alguns protagonistas, a viagem da segunda temporada (já confirmada para 2016, com 15 episódios) pode ir bem mais longe... até porque a primeira mal chega a arrancar.