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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Um grande regresso num pequeno filme

É um bocado injusto reduzir "MA MA" a mero veículo para Penélope Cruz, mas embora tenha outros méritos, o melhor do novo filme de Julio Medem é, de longe, o desempenho da actriz principal (a acumular aqui a função de produtora).

 

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A espanhola costuma ser mais memorável em produções conterrâneas - e quase sempre esquecível em estrangeiras - e este drama não é excepção, interrompendo um hiato mantido desde 2009, com "Abraços Desfeitos", o último filme rodado no seu país natal em que participou.

Mas Magda, a sua nova personagem, até lembra mais a protagonista de outro filme de Almodóvar, a Raimunda de "Volver - Voltar". Quem tinha saudades de Cruz no papel de mãe coragem tão generosa como desbocada ganha uma digna aproximação nesta professora que, além de lidar com o desemprego e a ausência do marido, descobre ter um cancro na mama.

A premissa mete-se a jeito para "MA MA" ser mais um filme dedicado ao triunfo sobre a adversidade, com mensagem optimista e inspiradora, e em parte segue mesmo por aí. E até nem se sai mal nesse domínio numa primeira metade em que o drama é relativamente enxuto, Medem gere a narrativa com desenvoltura e elegância visual e a protagonista é uma personagem de corpo inteiro que enche o ecrã, não aceitando sujeitar-se a exemplo de uma condição.

O problema é que, a certa altura, o realizador de "Os Amantes do Círculo Polar" ou "Lúcia e o Sexo" parece não se contentar em ter aqui um drama seguro e reforça o tom simbólico já sugerido em alguns momentos iniciais, talvez para evitar cair no formato de telefilme caso da vida.

 

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Entre planos despropositados de um coração a bater e imagens recorrentes, em modo onírico, de uma menina russa, uma espécie de personagem ausente, Medem vai condimentando o drama (e alguma comédia) com floreados estilísticos tão ostensivos como a banda sonora de um Alberto Iglesias longe dos seus dias mais inspirados (a partitura instrumental, ao piano, tem o bom gosto de não convidar à lágrima fácil, mas acaba por ser um adorno dispensável de demasiadas cenas).

Não ajuda muito que a recta final do filme se torne mais rocambolesca, comprometendo a verosimilhança do arranque e desperdiçando o elenco. Penélope Cruz está magnífica, mas é tão dominante que as personagens secundárias, como a do também óptimo Luis Tosar, ficam sem grande espaço para crescer (e é incompreensível que a tragédia familiar do novo companheiro da protagonista não seja minimamente explorada ao longo de quase duas horas).

O resultado é um filme irregular e hesitante, incapaz de gerir a pulsão emocional e um distanciamento cerebral, com alguns episódios comoventes (os de Magda com o filho ou muitas cenas no hospital, graças a um humor desarmante) e outros em que o calculismo e olhar clínico do realizador esbarram com essa sinceridade. Para um filme à altura da actriz, o melhor é voltar mesmo a "Volver", portanto...

"MA MA" é um dos filmes da Cine Fiesta 2015 - Mostra de Cinema espanhol e tem estreia nacional a 8 de Outubro.

 

 

 

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