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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

White, mas negra

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Depois de um ritmo de edição impressionante, com quase um álbum por ano - "Dark Undercoat" (2007), "Victorian America" (2009), "Ode to Sentience" (2010) -, EMILY JANE WHITE tem sido mais comedida na gravação de novas canções. Tanto que "Blood/Lines", o quarto e ainda último disco, data já de 2013 e não chega para matar as saudades desta californiana inspirada por ambientes pouco ensolarados.

 

Mas se não há outros álbuns no horizonte para já, há pelo menos alguns temas. Em "WHAT THE WHITE BOOK SAID", de Matt Bauer, a cantautora oferece a segunda voz e ajuda a reforçar a melancolia de um encontro entre folk e rock indie, que não destoaria muito num dos seus discos - para ver e ouvir no videoclip abaixo.

 

Melhor ainda é escutá-la fora da sua zona de conforto, no projecto paralelo Night Shade, trio que começa a dar os primeiros passos e promete "electro negro e luxuriante". O EP de estreia, "Mother", colocado online há poucos dias, é uma bela forma de inaugurar as edições de 2016, além de revelar que a voz doce de White resulta tão bem com acompanhamento sintético como orgânico. Ouça-se "APATHY", nevoeiro de origem gótica/new wave que Bat for Lashes não desdenharia (sobretudo na fase "Two Suns"). Mais disto ao longo do ano, por favor.

 

 

Fundo de catálogo (103): David Bowie

A descoberta de "Space Oddity" e a festa de "Let's Dance". A experimentação da trilogia berlinense. A elegância e maturidade de "Hours...". O regresso eléctrico de "The Next Day". Ou, claro, o adeus (e não um novo começo, como pensávamos) de "Blackstar". Da imprensa às redes sociais, entre a melancolia e a euforia, não faltam recortes do percurso longo, vasto e, sim, "camaleónico", de DAVID BOWIE na hora da despedida. Menos lembrada é a fase de meados dos anos 90, sobretudo a de "Earthling" (1997), e não será por acaso.

 

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A descida à Terra, com banda sonora de inspiração electrónica, entre o industrial e o drum n' bass, parecia antecipar o futuro mas soa hoje datada, sem a aura das viagens a Marte, essas com lugar entre os clássicos da década de 70. Talvez porque em "Earthling" Bowie tenha tentado abraçar uma segunda juventude, embalada pelo rasgo de discípulos que acabariam por influenciar o mestre - um caso raro na discografia do britânico, mais precursor do que seguidor.

 

Ainda assim, é uma fase que tem os seus momentos e alguns resistem bem ao tempo. No álbum de "Dead Man Walking" ou "Little Wonder" morava também "I'M AFRAID OF AMERICANS", na verdade um tema composto com Brian Eno para o revigorante "Outside" (1995) mas guardado para a banda sonora de... "Showgirls" (!) - muito anos 90, portanto -, surgindo depois no alinhamento do disco de 1997, numa nova versão. E esta não seria a última, já que a mais popular foi produzida por Trent Reznor, na fase áurea dos Nine Inch Nails (ou seja, na ressaca de "The Downward Spiral"), promovida a single oficial.

 

O convite alargou-se ao videoclip, com o autor de "March of the Pigs" a perseguir Bowie num ambiente urbano de paranóia e criminalidade, à medida da obsessão da letra e do nervo da música, em tempos de tensão pré-milénio. Muito anos 90, portanto, embora com uma ressonância mais actual do que a remistura de Photek (um dos arautos do jungle, ao lado de Goldie, com quem Bowie também colaborou, nomes tão aclamados na altura como esquecidos hoje).

 

Além de "Earthling", 1997 foi o ano de "Estrada Perdida", de David Lynch, onde Bowie abria caminho para um desfile de companheiros de aventuras da década, também eles a aliar rock e electrónica negra - Reznor, claro, e ainda Marilyn Manson, Smashing Pumpkins ou uns quase desconhecidos Rammstein. Uma viagem que vale a pena voltar a fazer, conjugada com "I'm Afraid of Americans" e, já agora, pela estrada que acabaria por levar a "Earthling", mais vertiginosa do que o destino: Bowie e os Nine Inch Nails juntos em palco na "Dissonance Tour", em 1995.

 

 

A adorável vida selvagem

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É difícil negar que as SAVAGES têm a lição pós-punk bem estudada, da música à imagem, da atmosfera à pose, com palavras tão negras como a indumentária. Daí a "Silent Yourself" (2013), o álbum de estreia das britânicas, ser motor de epifanias, ainda vai alguma distância - a mesma entre alunas invulgarmente esmeradas, preferíveis a colegas que se limitam a copiar a matéria básica, e professores geniais, quase insuperáveis na sua área.

 

Três anos depois, e já com o segundo disco à vista, o cenário parecia não mudar muito, com os primeiros avanços de "Adore Life" (chega já no dia 22) a abrir caminho com guitarras em ebulição e a voz enfurecida de Jehnny Beth. "The Answer""T.I.W.Y.G." foram petardos com vontade de causar estragos, sobretudo ao vivo, mas dificilmente ficarão como canções capazes de deixar grande rasto.

 

Felizmente, o novo single sugere que o alinhamento do álbum pode trazer mais do que rock tão escorreito como genérico, naquela que é uma das canções mais eloquentes das londrinas. O ambiente continua austero, na linha da estreia, a postura é ainda confrontacional. O que muda? Talvez a cedência de "ADORE" a alguma paz interior, ou a paz interior possível nas Savages, num elogio à vida mais intrigante do que a revolta dos primeiros tempos. O videoclip, minimalista sem deixar de ser elaborado, também ajuda, e o final da canção revela uma banda em estado de graça - e finalmente à altura do estatuto de referência algo precoce. Se "Adore Life" seguir por aqui, temos disco.

 

 

This 70's show

Depois de "Os Simpsons", "Family Guy" ou "Bob's Burgers", ainda há espaço para mais uma família animada no pequeno ecrã? "F IS FOR FAMILY", uma das apostas recentes da Netflix, mostra que sim.

 

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O pai trabalha, a mãe é dona de casa, os filhos, crianças ou adolescentes, debatem-se com os problemas típicos do crescimento. Esta premissa não será propriamente uma novidade, longe disso, mas a série do comediante Bill Burr e do argumentista Michael Price (que escreveu alguns episódios de "Os Simpsons") ainda sabe tirar partido dela, complementando-a com uma mão cheia de idiossincrasias.

 

Uma das diferenças de "F IS FOR FAMILY" face a propostas comparáveis é o facto de se ambientar nos anos 70, o que por si só lhe abre a porta para referências e piadas mais específicas, tanto pelo retrato geral de uma época como pela crónica de costumes familiares - sem com isso abdicar do politicamente incorrecto de outras famílias animadas, antes pelo contrário, como o provam os palavrões que condimentam muitas cenas, recurso que o argumento consegue não tornar gratuito.

 

O contexto, no entanto, não é tudo, nem seria motivo suficiente para acompanhar a série. E se ao primeiro impacto tudo o resto pode parecer algo rotineiro, com personagens desenhadas a traço grosso e relações mais ou menos convencionais, vai havendo um crescendo de intensidade e até originalidade ao longo dos seis episódios da temporada. Parte desse efeito explica-se pela continuidade entre os vários capítulos, com arcos narrativos mais longos do que o habitual em sitcoms (que geralmente os iniciam e fecham no mesmo episódio).

 

Situações como o dilema laboral de Frank, o pai, ou a crise existencial de Sue, a mãe, não se esgotam em vinhetas ocasionais e têm espaço para ganhar outro peso, tão cómico (com humor mais negro do que ligeiro) como dramático (às vezes, invulgarmente desesperado). O mesmo acontece com os subenredos dos filhos, mesmo que o do filho do meio, Bill, alvo de bullying (numa época em que o termo não era moda), seja mais forte do que o da revolta do mais velho, Kevin, ou o da filha, Maureen, a personagem menos explorada do quinteto protagonista.

 

Esta opção narrativa ajuda a fazer de "F IS FOR FAMILY" uma série razoavelmente mais realista do que marcos (e influências) como "Os Simpsons" ou "Family Guy" (estará mais perto do tom de "King of the Hill", por exemplo), o que lhe confere personalidade mas também a afasta da inspiração mais delirante dessas - além de não contar, pelo menos por agora, com personagens tão memoráveis, das principais às secundárias. Apesar disso, começa bem, tem potencial para melhorar e é um óptimo pretexto para uma noite de binge-watching.

 

 

 

Os dias do fim

Até certo ponto, "MINHA MÃE" pode ser visto como um parente próximo de "O Quarto do Filho", outro filme de Nanni Moretti assombrado pelo luto. Só que este drama, além de não focar um pai que lida com a perda do filho mas uma filha que começa a despedir-se da mãe, até sai a ganhar a esse marco na filmografia do cineasta italiano, ao enfrentar a morte sem abdicar de um retrato vívido da protagonista.

 

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Ajuda que o cineasta tenha dado o papel principal a Margherita Buy, embora ele próprio também participe no filme, como actor secundário, na pele de irmão desta. E se ele nem está mal, com uma interpretação (felizmente e surpreendentemente) mais contida do que em experiências anteriores, é por ela que "MINHA MÃE" consegue elevar-se acima de outros olhares sobre o fim da vida, tema tão batido como inevitável e universal, aqui abordado a partir do quotidiano de uma mulher de meia idade.

 

Margherita (nome da actriz e da personagem) é filha, mas também mãe, além de amante (embora pouco, uma vez que termina a relação com o namorado) e profissional bem sucedida. Este último elemento acaba por ser o mais dominante do filme, ou pelo menos o que toma mais tempo ao drama familiar. Tendo em conta que a protagonista é realizadora, torna-se difícil não encontrar nela, e em especial nas muitas cenas da sua rotina nas filmagens, ecos da persona e da obra de Moretti, sobretudo pelo peso das preocupações sociais no seu cinema. Mas se noutros filmes do italiano esse lado politizado acabou por se sobrepor às personagens e aos seus conflitos, aqui é mais uma questão lateral do que centro da narrativa (como numa cena passada no local de trabalho da personagem do realizador, que está lá mais para denunciar o pânico do desemprego nos últimos anos do que para servir a história).

 

A reflexão sobre o cinema, a contrastar com os momentos nos corredores e salas de hospitais, também passa pela participação de John Turturro, aqui um actor norte-americano convidado para o filme que Margherita está a rodar. A postura histriónica da personagem choca de frente com o drama de câmara das sequências da protagonista ao lado da mãe e, mais tarde, da filha, mas também ajuda a tornar "MINHA MÃE" num filme mais solto e arejado, menos plano do que "O Quarto do Filho" ou daquilo que a sinopse pode sugerir à partida.

 

Por muito que o tom oscile entre o realista e o quase paródico, o angustiante e o absurdo, a jornada emocional de Margherita sai favorecida com esse quadro e o filme, ao estar tão dependente dela, também - embora não exclusivamente dela, já que a veterana Giulia Lazzarini é notável no papel da mãe que vai sendo dominada por uma doença terminal. E é um belo filme, um drama maduro sem que isso implique sisudez, até pelo espaço que abre para o humor e a empatia, esquivando-se aí à leveza agridoce de outras receitas - o final negro (como é sempre, em última instância) que o diga, mas até lá... 

 

 

 

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