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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Cidade by night

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"NEW AGE THRILLER" era uma das canções mais cinematográficas do último álbum das U.S. GIRLS, "Half Free", editado no ano passado. Por isso, não admira que o videoclip do tema vá buscar inspiração a "Alphaville", de Jean-Luc Godard, enquanto propõe uma viagem nocturna por Toronto.

 

O passeio não é necessariamente turístico, ao incluir ruas abandonadas ou edifícios à beira da demolição, cenários entrecruzados com cenas de um casal, também a preto e branco, mais directamente ligadas aos relatos de experiências femininas (e não muito espirituosas) que marcam o disco.

 

A canção, tão sombria como as imagens, desvia-se das reminiscências dos girl groups dos anos 60, quase sempre presentes no projecto de Meghan Remy, para avançar duas décadas, até à atmosfera gótica de uns Siouxsie and the Banshees - ou das mais recentes Dum Dum Girls, que também alargaram a herança pós-punk no último álbum. Um bom motivo para voltar ao disco e, sobretudo, para marcar na agenda o concerto da banda no NOS Primavera Sound, no Porto, a 9 de Junho:

 

 

Uma segunda juventude

blondage

 

No ano passado, Essen Andersen e Pernille Smith-Sivertsen editaram um dos melhores álbuns que quase ninguém ouviu. "Straitjacket", o segundo disco dos Rangleklods, teve alguma repercussão entre os adeptos de música de dança obscura q.b. mas poderia ter ido mais longe - singles como "Lost U", por exemplo, mereciam lugar cativo em sunset parties um bocado mais arriscadas.

 

Ainda assim, a dupla dinamarquesa não dá sinais de parar pelo caminho, mesmo que proponha agora um recomeço. E recomeça logo pelo nome. BLONDAGE, combinação de "blond" e "bondage", traduz de forma mais eficaz a combinação entre inocência e agressividade da música do projecto, justifica o duo. E convenhamos que também será um nome mais facilmente digerível do que o anterior, o que pode ajudar alguma coisa.

 

Essa proximidade mantém-se, aliás, no tema que apresenta a nova fase e o próximo EP, a editar a 16 de Setembro. "DIVE" é mais acessível do que grande parte do que se ouvia nos álbuns dos Rangleklods, com uma viragem house integrada na estrutura de canção pop a abrir caminho para tardes e noites veraneantes. Se Lykke Li fosse remisturada por Jamie XX e depois pelos AlunaGeorge, talvez soasse a este primeiro avanço.

 

O single mergulha de cabeça no hedonismo ("I might be all outta money/ But I do what I want/ If I'm forever high/ They'll never see me low"), mas no videoclip a dupla não se esquece da subversão pela qual também se distinguiu: em vez de acompanhar o ambiente de festa, aposta numa narrativa paralela com farpas à sociedade de consumo - e ao consumo de carne em particular:

 

 

Sexo, drogas e música electrónica

A receita de "SUBURRA" não é nova. O filme de Stefano Sollima não diz nada que não saibamos sobre a promiscuidade entre o poder instituído e o submundo, seja o de Roma ou de outra grande metrópole. Mas nem precisa quando desenha um retrato urbano cinético e vibrante como poucos.

 

suburra

 

Até mais do que o filme, a série "Gomorra" já tinha dado a entender que há nova vida para histórias no pequeno ou grande ecrã centradas na máfia e ancoradas na Itália de hoje. Stefano Sollima, um dos realizadores recorrentes da produção televisiva, contribuiu para deixar um cunho cinematográfico num produto que é mais um argumento a favor de quem defende a idade de ouro da televisão (ou da ficção criada para ela) de há uns anos para cá. Na sua segunda longa-metragem, o autor da também elogiada "Romanzo Criminale" volta a insistir em histórias de corrupção e perdição, mudando-se de Nápoles para Roma, em especial para a zona portuária de Óstia.

 

Na antiguidade, a região que dá nome ao filme não gozava de especial fama, sendo muitas vezes considerada um concentrado de criminalidade, sexo imoral e violência, e o quadro apresentado por Sollima não foge muito a essa herança. Entre ligações perigosas, espirais de matança e traições inevitáveis, há pouco espaço para a redenção entre a galeria de personagens que inclui um político com vida dupla e sangue nas mãos, famílias de narcotraficantes sem grande tolerância para o erro ou mulheres que tanto podem ser vítimas como carrascos.

 

As poucas figuras que resistem a esta tipologia estão longe de ser imunes a falhas de carácter. Em "SUBURRA" não há santos, só pecadores, ainda que o peso dos pecados seja variável. Que Sollima consiga manter o interesse por protagonistas destes ao longo de duas horas é um feito, embora não propriamente inédito. Afinal, já era assim em "Gomorra" e tal como aí estas personagens mostram sempre um rosto assustadoramente humano, mérito de um elenco de alto calibre, dos principais aos secundários - destaque quase inevitável, ainda assim, para Elio Germano, uma das grandes revelações dos últimos anos, italianas ou não, mais uma vez a recusar repetir-se depois de um desempenho quase insuperável como o de "A Nossa Vida".

 

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As experiências anteriores de Sollima, muitas assentes em narrativas em mosaico, terão influenciado um filme que se mostra hábil na conjugação de percursos e personagens - que são muitas, mas nenhuma está aqui por acaso. Enquanto vai fazendo a contagem decrescente para um dia apocalíptico, o filme pede tempo e, às vezes, alguma paciência, mas também vai dando recompensas. A banda sonora, por exemplo, a cargo de M83 e a medir forças com uma chuva quase omnipresente enquanto recurso atmosférico. É verdade que a electrónica etérea do francês Anthony Gonzalez chega a ser intrusiva em alguns momentos, mas na maior parte deles é perfeita para o tom tenso e de emoções exacerbadas desta mistura de drama e thriller. E apesar de tudo, o realizador opta - e bem - por a dispensar numa das melhores sequências do filme, com um tiroteio num centro comercial que é uma masterclass para muitos filmes de acção do outro lado do Atlântico.

 

Se a música contagia, não rouba o peso que Sollima dá às imagens. "SUBURRA" vai deixando algumas na retina, também graças à tremenda fotografia de Paolo Carnera, e embora chege a ameaçar escorregar para o delírio estético, nunca perde a mão da história que tem para contar. Até porque o argumento revela conhecimento de causa, ao adaptar o livro homónimo do juiz Giancarlo De Cataldo e do jornalista de investigação Carlo Bonini. A fina linha que separa a política da máfia, da religião ou da prostituição não surpreenderá muita gente em 2016, mas tem aqui uma variação crua e efervescente, que só esmorece lá para o final, com algumas reviravoltas menos verosímeis. Felizmente, nessa altura o interesse por este universo já está mais do que atiçado e nem sai muito comprometido, o que é uma vantagem quando o filme abre portas para uma série em preparação, agendada para Netflix já em 2017.

 

3,5/5

 

 

 

Verão azul (e verde, rosa ou dourado)

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O flirt de BETH ORTON com a electrónica já vem de longe, desde que a britânica começou por juntar trip-hop e folk nos primeiros álbuns, "Superpinkymandy" (1993) e "Trailer Park" (1996), numa altura em que também deu voz a canções dos Chemical Brothers ou William Orbit. Mas depois da viragem do milénio, os seus discos tornaram-se cada vez mais acústicos, até pastorais, a milhas das influências da música de dança que ajudaram a fazer dela uma das cantautoras a seguir nos anos 90.

 

Embora "Comfort of Stangers" (2006) ou "Sugaring Season" (2012) não tenham sido desilusões, ameaçavam deixá-la demasiado acomodada a um registo menos singular, encaminhando-a para uma evolução na continuidade. Ou assim parecia até ser anunciado "Kidsticks", o novo álbum, agendado para 27 de Maio e co-produzido por Andrew Hung, metade dos Fuck Buttons e mentor do projecto Blank Mass (autor de um dos discos mais recomendáveis do ano passado).

 

"Moon", o primeiro tema de avanço, já tinha mostrado que a colaboração podia ser proveitosa ao apostar num tom mais atmosférico, trocando a guitarra acústica por sintetizadores espaciais. Igualmente promissor, "1973" continua alicerçado na indietronica, mas em moldes mais lúdicos e arejados, apelando à dança enquanto recorda a infância em tempo estival - e essa faceta soalheira chega a lembrar a viragem pop de Cat Power em "Sun" (2012). Também não falta sol no videoclip, filmado na Califórnia (estado no qual o disco nasceu) pela fotógrafa Tierney Gearon, que afasta ainda mais Beth Orton da serenidade folk dos últimos anos: