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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Uma segunda juventude

blondage

 

No ano passado, Essen Andersen e Pernille Smith-Sivertsen editaram um dos melhores álbuns que quase ninguém ouviu. "Straitjacket", o segundo disco dos Rangleklods, teve alguma repercussão entre os adeptos de música de dança obscura q.b. mas poderia ter ido mais longe - singles como "Lost U", por exemplo, mereciam lugar cativo em sunset parties um bocado mais arriscadas.

 

Ainda assim, a dupla dinamarquesa não dá sinais de parar pelo caminho, mesmo que proponha agora um recomeço. E recomeça logo pelo nome. BLONDAGE, combinação de "blond" e "bondage", traduz de forma mais eficaz a combinação entre inocência e agressividade da música do projecto, justifica o duo. E convenhamos que também será um nome mais facilmente digerível do que o anterior, o que pode ajudar alguma coisa.

 

Essa proximidade mantém-se, aliás, no tema que apresenta a nova fase e o próximo EP, a editar a 16 de Setembro. "DIVE" é mais acessível do que grande parte do que se ouvia nos álbuns dos Rangleklods, com uma viragem house integrada na estrutura de canção pop a abrir caminho para tardes e noites veraneantes. Se Lykke Li fosse remisturada por Jamie XX e depois pelos AlunaGeorge, talvez soasse a este primeiro avanço.

 

O single mergulha de cabeça no hedonismo ("I might be all outta money/ But I do what I want/ If I'm forever high/ They'll never see me low"), mas no videoclip a dupla não se esquece da subversão pela qual também se distinguiu: em vez de acompanhar o ambiente de festa, aposta numa narrativa paralela com farpas à sociedade de consumo - e ao consumo de carne em particular:

 

 

Sexo, drogas e música electrónica

A receita de "SUBURRA" não é nova. O filme de Stefano Sollima não diz nada que não saibamos sobre a promiscuidade entre o poder instituído e o submundo, seja o de Roma ou de outra grande metrópole. Mas nem precisa quando desenha um retrato urbano cinético e vibrante como poucos.

 

suburra

 

Até mais do que o filme, a série "Gomorra" já tinha dado a entender que há nova vida para histórias no pequeno ou grande ecrã centradas na máfia e ancoradas na Itália de hoje. Stefano Sollima, um dos realizadores recorrentes da produção televisiva, contribuiu para deixar um cunho cinematográfico num produto que é mais um argumento a favor de quem defende a idade de ouro da televisão (ou da ficção criada para ela) de há uns anos para cá. Na sua segunda longa-metragem, o autor da também elogiada "Romanzo Criminale" volta a insistir em histórias de corrupção e perdição, mudando-se de Nápoles para Roma, em especial para a zona portuária de Óstia.

 

Na antiguidade, a região que dá nome ao filme não gozava de especial fama, sendo muitas vezes considerada um concentrado de criminalidade, sexo imoral e violência, e o quadro apresentado por Sollima não foge muito a essa herança. Entre ligações perigosas, espirais de matança e traições inevitáveis, há pouco espaço para a redenção entre a galeria de personagens que inclui um político com vida dupla e sangue nas mãos, famílias de narcotraficantes sem grande tolerância para o erro ou mulheres que tanto podem ser vítimas como carrascos.

 

As poucas figuras que resistem a esta tipologia estão longe de ser imunes a falhas de carácter. Em "SUBURRA" não há santos, só pecadores, ainda que o peso dos pecados seja variável. Que Sollima consiga manter o interesse por protagonistas destes ao longo de duas horas é um feito, embora não propriamente inédito. Afinal, já era assim em "Gomorra" e tal como aí estas personagens mostram sempre um rosto assustadoramente humano, mérito de um elenco de alto calibre, dos principais aos secundários - destaque quase inevitável, ainda assim, para Elio Germano, uma das grandes revelações dos últimos anos, italianas ou não, mais uma vez a recusar repetir-se depois de um desempenho quase insuperável como o de "A Nossa Vida".

 

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As experiências anteriores de Sollima, muitas assentes em narrativas em mosaico, terão influenciado um filme que se mostra hábil na conjugação de percursos e personagens - que são muitas, mas nenhuma está aqui por acaso. Enquanto vai fazendo a contagem decrescente para um dia apocalíptico, o filme pede tempo e, às vezes, alguma paciência, mas também vai dando recompensas. A banda sonora, por exemplo, a cargo de M83 e a medir forças com uma chuva quase omnipresente enquanto recurso atmosférico. É verdade que a electrónica etérea do francês Anthony Gonzalez chega a ser intrusiva em alguns momentos, mas na maior parte deles é perfeita para o tom tenso e de emoções exacerbadas desta mistura de drama e thriller. E apesar de tudo, o realizador opta - e bem - por a dispensar numa das melhores sequências do filme, com um tiroteio num centro comercial que é uma masterclass para muitos filmes de acção do outro lado do Atlântico.

 

Se a música contagia, não rouba o peso que Sollima dá às imagens. "SUBURRA" vai deixando algumas na retina, também graças à tremenda fotografia de Paolo Carnera, e embora chege a ameaçar escorregar para o delírio estético, nunca perde a mão da história que tem para contar. Até porque o argumento revela conhecimento de causa, ao adaptar o livro homónimo do juiz Giancarlo De Cataldo e do jornalista de investigação Carlo Bonini. A fina linha que separa a política da máfia, da religião ou da prostituição não surpreenderá muita gente em 2016, mas tem aqui uma variação crua e efervescente, que só esmorece lá para o final, com algumas reviravoltas menos verosímeis. Felizmente, nessa altura o interesse por este universo já está mais do que atiçado e nem sai muito comprometido, o que é uma vantagem quando o filme abre portas para uma série em preparação, agendada para Netflix já em 2017.

 

3,5/5

 

 

 

Verão azul (e verde, rosa ou dourado)

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O flirt de BETH ORTON com a electrónica já vem de longe, desde que a britânica começou por juntar trip-hop e folk nos primeiros álbuns, "Superpinkymandy" (1993) e "Trailer Park" (1996), numa altura em que também deu voz a canções dos Chemical Brothers ou William Orbit. Mas depois da viragem do milénio, os seus discos tornaram-se cada vez mais acústicos, até pastorais, a milhas das influências da música de dança que ajudaram a fazer dela uma das cantautoras a seguir nos anos 90.

 

Embora "Comfort of Stangers" (2006) ou "Sugaring Season" (2012) não tenham sido desilusões, ameaçavam deixá-la demasiado acomodada a um registo menos singular, encaminhando-a para uma evolução na continuidade. Ou assim parecia até ser anunciado "Kidsticks", o novo álbum, agendado para 27 de Maio e co-produzido por Andrew Hung, metade dos Fuck Buttons e mentor do projecto Blank Mass (autor de um dos discos mais recomendáveis do ano passado).

 

"Moon", o primeiro tema de avanço, já tinha mostrado que a colaboração podia ser proveitosa ao apostar num tom mais atmosférico, trocando a guitarra acústica por sintetizadores espaciais. Igualmente promissor, "1973" continua alicerçado na indietronica, mas em moldes mais lúdicos e arejados, apelando à dança enquanto recorda a infância em tempo estival - e essa faceta soalheira chega a lembrar a viragem pop de Cat Power em "Sun" (2012). Também não falta sol no videoclip, filmado na Califórnia (estado no qual o disco nasceu) pela fotógrafa Tierney Gearon, que afasta ainda mais Beth Orton da serenidade folk dos últimos anos:

 

 

Este grito ainda se faz ouvir

Iguais a si próprios, mas ainda capazes de surpreender. Assim estão os PRIMAL SCREAM em "CHAOSMOSIS", 11º álbum movido por  um entusiasmo que falta a muitas estreias.

 

primal-scream

 

Com um pé no rock e outro na música de dança, os Primal Scream andam há mais de 30 anos a consolidar uma discografia que não se contenta em ser versátil. Às vezes Bobby Gillespie e companhia insistem em tornar-se esquizofrénicos e é por aí que "CHAOSMOSIS" segue depois de três álbuns relativamente arrumados - "Riot City Blues" (2006) e "Beautiful Future" (2008), pouco estimulantes, e o mais aconselhável "More Light" (2013).

Neste caso, disparar em todas as direcções até joga a favor dos britânicos. Se a dispersão sonora é evidente, com espaço para revisitações a muitas fases passadas, as letras têm aqui um tom mais pessoal e, mais importante ainda, o alinhamento é dos mais coesos de uma banda habituada a ir do genial ao dispensável.

Sem se candidatar a disco de referência na linha de um "Screamadelica" (1991), o 11º album dos Primal Scream faz ver tanto a alguns novatos como veteranos na altura de cruzar guitarras e sintetizadores, mistura já longe de surpreendente (e que não conhece aqui transformações de maior) mas com uma conjugação eficaz de sabedoria e energia na fórmula do grupo. "Trippin' on Your Love", a abrir, é uma actualização descarada de "Movin' On Up", a convocar house e gospel enquanto convida à festa, mesmo que às tantas pouco mais faça do que mostrar Gillespie a repetir o título do tema ao lado de um coro feminino (composto por umas demasiado discretas HAIM).

 

primal_scream_chaosmosis

 
Melhor é "(Feeling Like A) Demon Again", exemplo de synth pop sinuosa com alma pós-punk, vertigem reactivada na explosiva "100% or Nothing" (mais New Order do que Primal Scream, mas os New Order mais urgentes em anos) ou no disparo "When the Blackout Meets the Fallout" (curtíssima passagem pela farpa industrial de "Evil Heat", de 2002). Menos imponente, "Where the Light Gets In" recruta Sky Ferreira para um dueto que lembra a colaboração com Kate Moss em "Some Velvet Morning", ainda que seja um cartão de visita apenas mediano.

Entre estes momentos dançáveis q.b., "CHAOSMOSIS" vai deixando faixas de descompressão como "I Can Change" ou a bonita balada folk "Private Wars", nas quais Gillespie comprova continuar a acompanhar a versatilidade da música. "I know that there is something wrong with me", repete já perto do fim, em "Golden Rope", tema que condensa a alternância entre calmaria e intensidade do alinhamento enquanto abre a porta a algum psicadelismo. Mas é difícil concordar com ele quando nos leva para o remate desopilante dessa canção, para a euforia de "Carnival of Fools" (talvez o único tema preocupado com o update electrónico) ou a despedida de sabor clássico de "Autumn in Paradise" (com os New Order mais uma vez para aqui chamados, agora em modo melancólico e, passe a redundância, outonal). E deste caos controlado sai o melhor disco dos Primal Scream em muito tempo...   

 

 

 

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