Será que os JAMIROQUAInão são, afinal, uma memória devidamente arrumada nos anos 90? Quando álbuns como "Dynamite" (2005) e "Rock Dust Light Star" (2010) pouco fizeram pela história do grupo de Jay Kay, os britânicos voltam à forma dos seus melhores singles com uma das primeiras surpresas de 2017, a abrir caminho para o oitavo disco de originais.
"AUTOMATON" é editado a 31 de Março e a primeira amostra é o enérgico tema homónimo, exemplo de uma banda aparentemente mais sintonizada com o presente do que a olhar para trás. O reforço da carga electropop não compromete as ondulações funk mais habituais no grupo, que vão tomando conta da canção lado a lado com uma voz reconhecível e a conseguir moldar-se, como há duas décadas, a um ritmo contagiante.
O videoclip reforça as sugestões de ficção científica do single e acompanha Jay Kay em modo robótico num planeta pós-apocalíptico, entre túneis, desertos e florestas sem ninguém por perto, na primeira pista para um álbum centrado na tecnologia e com a inteligência artificial em destaque. Se o que aí vem for tão impressionante como o novo chapéu/capacete do mentor do grupo, temos regresso (e com versão ao vivo por cá a 5 de Agosto, no MEO Sudoeste):
Mais do que a crise de fé na qual se centra, "SILÊNCIO" expõe a crise criativa de Martin Scorsese naquele que é o seu pior filme desde "Kundun" - e quase tão académico e arrastado como esse outro olhar sobre a religião.
Era legítimo esperar (muito) mais daquele que tem sido anunciado como o projecto de vida do realizador de "Taxi Driver" ou "Casino", mantido na gaveta há cerca de três décadas e consecutivamente adiado. Não é difícil de perceber a espera, tendo em conta que a abordagem mais directa de Scorsese ao catolicismo tinha sido o controverso "A Última Tentação de Cristo" e que o mergulho seguinte na religião - aí através do budismo - resultou naquele que será talvez o seu pior filme, o falhado "Kundun" (1997).
Mas se a fase mais recente do cineasta já não era das mais memoráveis, "SILÊNCIO" consegue destacar-se como a sua obra mais decepcionante em 20 anos, raramente conseguindo agarrar a complexidade temática ancorada na dúvida e na fé a partir do livro homónimo do japonês Shusaku Endo. Em vez de uma discussão teológica adulta e ambivalente, este relato da jornada de dois padres jesuítas portugueses no Japão do século XVII quase nunca se asfasta de um tom simplista e didáctico, desperdiçando as questões intrigantes colocadas em jogo.
A voz off quase constante, sobretudo a do protagonista, o Padre Ferreira de Andrew Garfield, é logo um problema. Em vez de convidar à reflexão sugerida pelo título, o filme atropela o espectador com os pensamentos e inquietações do sacerdote. Mas mais do que constante, essa opção é repetitiva no que tem para dizer, centrando-se quase sempre no preço que os missionários católicos têm de pagar caso renunciem (ou não) à fé numa sociedade oriental implacável com quem demonstre crer em Cristo.
Que "SILÊNCIO" perca quase três horas a revisitar questões e situações sem com isso propor uma variação consequente é apenas uma das fragilidades de um filme plano e esquemático, que além da falta de economia narrativa nunca consegue desenhar personagens de corpo inteiro e limita-se a reforçar estereótipos. Os japoneses são reduzidos ao papel de vítimas ingénuas ou de opressores sem escrúpulos, exceptuando uma figura que entra e sai de cena sem nunca ganhar espessura dramática - está lá, como as outras, para fazer a história avançar. Os padres jesuítas não são muito mais interessantes, já que Liam Neeson e Adam Driver têm poucas oportunidades de mostrar o que valem quando o protagonismo é entregue a um Andrew Garfield esforçado, mas incapaz de dar corpo à experiência visceral que a sua personagem ultrapassa (os monólogos e diálogos que lhe entregam também não lhe fazem grandes favores, admita-se).
Quando o filme chega à recta final, tenta desfazer algum do maniqueísmo do retrato ao colocar em causa a missão dos jesuítas e o seu suposto altruísmo, sobretudo através de um reencontro que passou grande parte do tempo a preparar. Mas essa viragem não só chega demasiado tarde como continua a privilegiar, ainda assim, a visão ocidental, mantendo o olhar meio pitoresco sobre os japoneses e chegando a escorregar no kitsch quando alterna tragédia e comédia (às vezes é difícil de dizer se a segunda é ou não voluntária, com a dicção das poucas palavras portuguesas referidas a contribuir para o constrangimento).
Salvam-se alguns belos cenários naturais e a recriação competente (embora indistinta) de época, muito pouco quando nem a realização está à altura do nome (o campo-contracampo habitual nas cenas de diálogos podia ter a assinatura de um qualquer tarefeiro de Hollywood e só reforça a sensação de estarmos perante um telefilme no grande ecrã). De resto, quem quiser ficar a par da presença jesuíta no Oriente sairá mais bem servido com um dos inúmeros artigos de jornal publicados a propósito do filme. "SILÊNCIO" não é particularmente esclarecedor na contextualização (passa ao lado, por exemplo, do sincretismo praticado num Japão religiosamente menos tirânico do que Scorsese sugere) e cumpre ainda menos na dramatização destes acontecimentos.