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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Quem é David Haller?

legion

 

Mesmo quem não seja fã do universo dos X-Men deve dar uma oportunidade a "LEGION". A primeira série de imagem real inspirada nos mutantes da Marvel estreou esta semana em Portugal, na FOX, e a julgar pelo episódio piloto é das variações mais inventivas das histórias de super-heróis dos últimos tempos, como escrevo neste artigo do SAPO Mag. E tendo em conta este arranque promissor, deixo mais sugestões de outras personagens dos X-Men a adaptar para TV.

 

Fundo de catálogo (106): Blur

blur-1997

 

Há 20 anos, os BLUR disseram adeus aos trompetes. O quinto álbum dos britânicos, editado a 10 de Fevereiro de 1997, não é homónimo por acaso, ao ter surgido no período da ressaca da fama acumulada sobretudo por "Parklife" (1994) e "The Great Escape" (1995). Depois desses dois marcos da euforia britpop, o risco de a banda ficar refém de um público adolescente (entretido pela guerra com os Oasis alimentada por alguma imprensa) impôs um virar de azimutes de parto doloroso que redefiniu a identidade do projecto.

 

Graham Coxon propunha fazer um disco que ninguém quisesse ouvir. Damon Albarn não queria abdicar da melodia, mas acedeu ao interesse do guitarrista por algum rock alternativo norte-americano (o dos Pavement, Dinosaur Jr. ou Beck). E dessa influência resultou um álbum surpreendentemente agreste e enxuto, com uma sensibilidade lo-fi a milhas da pompa orelhuda de outros tempos. No Reino Unido, a crítica vaticinou o suicídio comercial, mas o primeiro single, "Beetlebum", teve resposta imediata e o segundo, "Song 2", tornou-se um clássico instantâneo e fez a ponte com o outro lado do Atlântico que o grupo tentava há muito:

 

 

Ouvido à distância de duas décadas, "BLUR" soa menos datado do que os antecessores e tem algumas das alianças mais desafiantes entre composição e produção do quarteto. O devaneio spoken-word de "Essex Dogs", a fechar, abre a porta à electrónica exploratória que teria mais peso no sucessor, o ainda melhor "13" (1999). A atmosfera entre o críptico e o melancólico de "Death of a Party" já deixava pistas do lado mais sombrio dos Gorillaz (basta contrastá-la com "Tomorrow Comes Today") enquanto que "Chinese Bombs" antecipava a faceta punk da banda cartoon. Já a discreta "You're So Great" encorajou o profícuo percurso a solo de Graham Coxon e ainda está entre as suas canções de antologia, tão simples como desarmante - e um dos momentos mais corajosos de um álbum que não se esgota nos singles.

 

 

Amores imaginários

formation

 

"Moonlight" numa carruagem do metro? Com o filme de Barry Jenkins ainda fresco nas salas de cinema, é difícil não pensar nele ao ver o videoclip de "A FRIEND", o novo single dos FORMATION, que parece ensaiar uma versão muito condensada de alguns elementos desse drama.

 

Em pouco mais de três minutos, esbate-se a fronteira entre a amizade e o amor na relação destrutiva (e fisicamente violenta) de dois rapazes, com alusões ao bullying e à homofobia - aqui não numa comunidade afro-americana, como no filme, mas presumivelmente no centro de Londres.

 

Will Ritson, o vocalista da banda britânica, é um dos protagonistas do vídeo e tem referido que as imagens tornam mais óbvia a diluição entre o papel de amigo e amante sugerida pela letra, vertigem consolidada pelo início acelerado do tema, com cowbell a marcar o ritmo, e um refrão eufórico e galvanizante. O resultado é um pedaço enérgico de indietrónica que não destoaria ao lado dos melhores singles de uns Friendly Fires ou The Shoes e abre caminho para o álbum de estreia do quinteto, "Look at the Powerful People", que chega a 24 de Março:

   

 

Manifesto sobre rodas

Wild_Beasts

 

"ALPHA FEMALE" é dos melhores momentos de "Boy King", o álbum mais recente dos WILD BEASTS, e dos que reforçam a viragem electrónica da banda ao longo do alinhamento. E agora é também a nova aposta oficial para o quinto disco dos britânicos, editado no Verão passado.

 

Momento electropop com balanço funky e voz menos expansiva do que o habitual no grupo até aqui, é um tema dançável que não compromete uma leitura política, aspecto que o realizador Sasha Rainbow aprofundou no videoclip. Captadas nas ruas de Bangladore e centradas nos elementos da Girl Skate India, as imagens são uma homenagem ao colectivo que tem contribuído para esbater as fronteiras de género, idade e classe associadas a algumas actividades (no caso desportivas), num manifesto ágil e despretensioso contra o sexismo e a favor do empoderamento feminino fora do mundo ocidental. 

 

O contacto com esta pequena comunidade até levou o realizador a querer voltar à Índia para filmar um documentário em torno das histórias e universo destas raparigas nos próximos meses, tendo o skate como ponto de partida. Para já, o videoclip dá um primeiro salto confiante e sugestivo:

 

 

A cor azul

Homofobia, bullying ou toxicodependência num cenário de pobreza (quase) extrema e sem fim à vista. Parece a receita perfeita para um dramalhão, mas "MOONLIGHT" consegue encontrar alguns oásis no meio do caos - e atira Barry Jenkins para a lista de realizadores a acompanhar no cinema norte-americano.

 

moonlight

 

Oito nomeações para os Óscares (incluindo Melhor Filme e Melhor Realizador) e o Globo de Ouro de Melhor Filme Dramático são apenas algumas das distinções que tornam a segunda longa-metragem de Barry Jenkis numa das mais aclamadas da temporada. Depois do menos visto "Medicine for Melancholy" (2008), o realizador norte-americano adapta agora a peça de "In Moonlight Black Boys Look Blue", de Tarell Alvin McCraney, inspirada em factos verídicos e rica em temas fracturantes que explicam parte da atenção mediática da qual o filme tem sido alvo.

 

Mas ao contrário de outros relatos inspiradores de superação da adversidade, presenças habituais na corrida às estatuetas douradas, "MOONLIGHT" vale também (e até mais) pelo olhar de cinema de Jenkis e pelas nuances de um retrato que não fica sufocado pelas muitas problemáticas sociais que vai conjugando. Mais do que um ensaio dado a generalizações fáceis, esta é a história de Chiron, ou pelo menos parte dela, uma vez que o filme a conta através de três capítulos - percorrendo a infância, adolescência e idade adulta -, recorrendo a elipses em vez de a servir de bandeja ao espectador.

 

moonlight_2

 

Há quem compare a estrutura narrativa a "Boyhood: Momentos de uma Vida", mas as experiências destas personagens de um bairro pobre de Miami, habitado por uma grande comunidade afro-americana, terão poucos paralelismos com o drama agridoce de Richard Linklater. "MOONLIGHT" não faz cedências ao mergulhar na solidão exasperante de um jovem negro e tímido, com uma insegurança sublinhada à medida que vai sendo obrigar a reprimir quaisquer sinais da sua orientação sexual - num contexto em que a homofobia se insinua desde os primeiros anos e rapidamente resulta em acessos de violência física.

 

Durante dois terços da sua duração, o filme mostra um realizador seguro no desenho de uma atmosfera realista, dos locais às pessoas, com o calvário de Chiron a tornar-se tão credível como familiar. Tão familiar que o segundo capítulo, talvez o mais agressivo, ameaça escorregar na vitimização e nos lugares comuns de que violência gera violência de outros casos da vida. Felizmente, o terceiro acto permite que o protagonista respire no segmento mais solto e fluído de "MOONLIGHT", a reforçar a languidez pontual das sequências na praia (reais ou oníricas, à noite, forradas com uma fotografia em tons azulados) e a tirar partido do peso dramático que está para trás sem cair no determinismo sugerido em alguns episódios.

 

moonlight_3

 

Jenkins deixa o final em aberto e confirma aí que tanto evita julgar como desculpabilizar as suas personagens, tentando compreendê-las sem forçar a empatia do espectador. Ajuda que tenha escolhido um elenco inatacável, desde os três actores que interpretam Chiron em várias fases da vida (e nem precisam de ter feições especialmente similares para fazerem nos acreditar que encarnam a mesma pessoa) a secundários como Janelle Monáe e Naomie Harris (esta a tornar verosímil uma mãe toxicodependente que no papel não se afasta muito do estereótipo). Só é pena que Mahershala Ali não mantenha uma presença tão regular como se esperava, já que tem a seu cargo uma das personagens mais interessantes (e avessa a clichés de retratos sobre dealers), além de um desempenho que sedimenta os de séries como "House of Cards" ou "Luke Cage".

 

A solidez do elenco compensa algumas opções formais discutíveis, da realização por vezes a forçar a nota na tentativa de crueza (via câmara rodopiante ou epiléptica sem grande critério aparente) à banda-sonora que também teima em impor um tom grave (e às vezes soa a falta de confiança noutros recursos). Hesitações como essas deixam "MOONLIGHT" uns degraus abaixo do estatuto de obra-prima (consideravelmente apregoado, embora não de forma unânime) e quem passou, por exemplo, pelas últimas edições do IndieLisboa ou do QueerLisboa terá visto dramas comparáveis tão bons ou até melhores ("Spa Night" será dos casos mais óbvios e não contou com um décimo da atenção). Ainda assim, se estiver aqui o grande vencedor da próxima edição dos Óscares, será das escolhas mais certeiras da Academia em muitos anos...

 

3,5/5

 

 

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