Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Onde o tempo faz a curva

Juntar Gérard Depardieu e Isabelle Huppert é logo motivo para gerar curiosidade, e é sobretudo por isso que "VALE DE AMOR" tem sido falado. Mas o filme de Guillaume Nicloux, embora dê todo o espaço aos actores, sabe aproveitar a presença e disponibilidade da dupla a favor de um retrato envolvente do luto e do envelhecimento. 

vale_de_amor

Se há actores que se destacam pelo underacting, no seu novo filme Guillaume Nicloux parece ser um caso de underdirecting. Isto porque o realizador francês, autor de "O Concílio de Pedra" ou "O Rapto de Michel Houellebecq", entrega de bandeja "VALE DE AMOR" aos seus dois actores principais, que calham ser duas das figuras mais emblemáticas do cinema europeu (e não só) das últimas décadas.

Este encontro de Gérard Depardieu e Isabelle Huppert tem um interesse adicional ao ser o primeiro desde "Loulou", de Maurice Pialat, estreado em 1980, e será tentador encarar as personagens que ambos agora interpretam como uma eventual descendência (simbólica) do jovem casal desse filme.

O exercício de contraste pode ter a sua graça, à semelhança do paralelismo do percurso dos actores com o dos protagonistas de meia-idade, também eles chamados Gérard e Isabelle, que voltam a encontrar-se depois de um divórcio que os afastou durante vários anos. Ele até é mais grosseiro e terra-a-terra nos modos e temperamento, a contrariar (ou a conjugar-se com) a postura mais distante e enigmática dela. 

vale_de_amor_2

O jogo de espelhos ficção/realidade traz para este drama um lado de metaficção assumido, mas que felizmente nunca se torna ostensivo nem ofusca o essencial: um olhar amadurecido sobre a perda, a solidão, a culpa e a reconciliação, com a passagem do tempo a demarcar-se enquanto fardo pesado sem com isso cortar um atalho para alguma esperança. É a esperança, afinal, que motiva a ida dos protagonistas para o Vale da Morte, na Califórnia, seguindo as coordenadas das cartas que o filho lhes enviou na altura do seu suicídio, seis meses antes dos eventos do filme. 

Esse embate com a morte, aqui especialmente prematura, e com o que ficou por dizer é trabalhado por Nicloux com uma inteligência e subtileza que merecem ser reconhecidas e não vivem apenas da óbvia entrega dos seus actores. Se a química de Depardieu e Huppert é palpável, tanto nos momentos mais espirituosos como nos de maior gravidade, o realizador consegue aproveitar essa energia ao mover a acção entre vários estados emocionais e tons difíceis de conciliar.

Pelo caminho, "VALE DE AMOR" foge aos passos mais esperados dos dramas sobre o luto ou das convenções do road movie e até arrisca aventurar-se por um esoterismo inicialmente questionável, mas rematado com sobriedade. E depois há a vastidão do deserto norte-americano, cenário particularmente cinematográfico ao qual Nicloux dá outro fôlego quando o cruza com a música de Charles Ives, tão comovente e inquietante como o filme.

3/5

Com que voz(es)

adult_shannon

 

Já passaram cinco anos desde que os Light Asylum juntaram estilhaços darkwave e synth pop (facção nada reluzente) no álbum de estreia homónimo, ainda sem sucessor à vista. Mas um disco como "Detroit House Guests", o novo dos ADULT., permite, pelo menos, voltar a ouvir a vocalista de uma das bandas mais intempestivas de Brooklyn.

 

Shannon Funchness é uma das muitas convidadas do alinhamento - que inclui também as vozes de gente como Michael Gira (Swans) ou Douglas J McCarthy (Nitzer Ebb) - e até tem direito a duas colaborações com a dupla de Adam Lee Miller e Nicola Kuperus.

 

Em "Stop (and Start Again)", o seu timbre gutural e possante conduz uma marcha pós-punk alimentada por baixo e sintetizadores. "WE CHASE THE SOUND", mais ríspida e assente numa pulsão EBM, está entre os outros poucos momentos directos de um álbum no qual nem sempre é fácil ir entrando. A canção destaca-se também como nova aposta oficial para o disco, depois de "They're Just Words", e o videoclip encontra Funchness e os ADULT. em ambiente raver, consideravelmente alucinado, assombrado e excêntrico:

 

 

É sempre um prazer

feist

 

28 de Abril: é neste dia que chega "Pleasure", o novo álbum de FEIST e o quinto da canadiana. Mas "PLEASURE", a canção, já tem algumas semanas e tem sido difícil (quase impossível?) ouvi-la sem pensar logo nos primeiros discos de PJ Harvey. Nada contra, uma vez que Polly Jean tem andado com outras preocupações ultimamente e há sempre espaço para mais vozes femininas que não tenham medo de olhar para a intimidade com esta crueza bluesy.

 

A amostra inicial do álbum leva mais longe a depuração do distante "Metals" (de 2011, já?), com um minimalismo quase só de voz e guitarra a vincar um crescendo lento, mas intrigante, entre o tom introspectivo dos primeiros minutos e o remate com direito a palmas. Igualmente lo-fi é o videoclip, muito longe de prodígios visuais como "My Moon My Man" ou "1234", parecendo contentar-se em apresentar uma nova imagem de FEIST ou das suas demonstrações de air guitar. O gesto é coerente com a aridez que também passa por "Century", o outro inédito entretanto revelado e ao qual nem a colaboração de Jarvis Cocker traz especial pompa - nem é necessária quando este rock pele e osso vai tão bem assim mesmo.

 

  

Os limites do controlo

Andy_Butler

 

Os HERCULES & LOVE AFFAIR já marcaram 2017, por cá, com a actuação no Lisboa Dance Festival há poucas semanas. Além de clássicos de álbuns anteriores, um dos temas que fez a festa foi o primeiro avanço do próximo, "CONTROLLER", acolhido sem grandes hesitações pelo público da LX Factory.

 

Colaboração com Faris Badwan, vocalista dos The Horrors e Cat's Eyes (um dos muitos convidados do novo registo), o single mantém a mistura de house e disco habitual no projecto de Andy Butler mas é consideravelmente mais negro do que alguns antecessores, ao mergulhar numa espiral de dominação e submissão com moldura rítmica tão ou mais insinuante.

 

Faz sentido, por isso, que o videoclip também partilhe essa atmosfera, através de olhares sobre vários quartos cujos ocupantes são alvo de sugestões S&M ou de variações sobre alguns filmes e séries claustrofóbicos q.b. (de "Poltergeist" a "Quarto", passando por "American Horror Story"). Esses ambientes, mais densos do que eufóricos, parecem ser mesmo a marca da nova fase da banda nova-iorquina: já tinha sido assim nas canções inéditas do último concerto lisboeta e Butler tem reconhecido o momento de viragem do álbum que deverá chegar em Julho. Por agora, a curiosidade está devidamente atiçada: