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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Sensibilidade e bom sexo

A partir da educação emocional e iniciação sexual de um adolescente, "CHAMA-ME PELO TEU NOME" completa a trilogia de Luca Guadagnino dedicada ao desejo. E está entre os (bons) nomeados ao Óscar de Melhor Filme deste ano, mesmo que nem sempre sobressaia face a outros relatos boy meets boy.

 

Chama-me Pelo Teu Nome

 

Depois de "Eu Sou o Amor" (2009) e "Mergulho Profundo" (2015), o novo filme (e nova experiência sensorial, dirão alguns) do italiano Luca Guadagnino adapta o livro homónimo de André Aciman, com argumento trabalhado por James Ivory ("Quarto com Vista sobre a Cidade", "Os Despojos do Dia"), cineasta que quase assinou também a realização deste drama estival. 

 

Ambientado na Itália rural de inícios dos anos 80, "CHAMA-ME PELO TEU NOME" raramente se afasta muito da mansão luxuosa de uma família burguesa, centrando-se em particular no dia-a-dia do filho, Elio, um adolescente de 17 anos, durante as férias. O Verão longo, rotineiro, aparentemente interminável, impõe uma languidez que Guadagnino trabalha visual e emocionalmente a favor da relação que se vai desenvolvendo entre o protagonista e Oliver, um estudante norte-americano de 24 anos que passa alguns meses na sua casa para ajudar o pai, um professor de arqueologia reputado.

 

Se Elio reage aos primeiros contactos com algum distanciamento e desconfiança, aos poucos o par (que acabará por se tornar romântico) estabalece uma cumplicidade intelectual crescente, através de discussões sobre literatura ou música clássica, temas naturais num meio onde a erudição é palpável e a curiosidade é encorajada. Mas a maior lição deste Verão até virá a ser afectiva, quando o protagonista se depara com uma atracção tão repentina como inesperada, que o leva ao despertar amoroso e (homos)sexual.

 

Chama-me Pelo Teu Nome 2

 

Apesar do contexto singular, com um retrato local e de época bem desenhado por Guadagnino, "CHAMA-ME PELO TEU NOME" não se desvia muito, durante grande parte da sua duração, de outros retratos boy meets boy já vistos no grande ecrã. E tendo em conta que a duração até é relativamente longa - ultrapassando as duas horas -, o filme chega a acusar alguma redundância na segunda metade (a viagem na recta final, por exemplo, pouco acrescenta à narrativa e à dinâmica da relação).

 

Também não ajuda que, na sua tentativa de sofisticação formal, este drama afectuoso seja por vezes demasiado afectado (como nas sequências desnecessariamente almofadadas pela folkzinha agridoce de Sufjan Stevens). E infelizmente o cuidado com uma fotografia primorosa (assinada pelo tailandês Sayombhu Mukdeeprom, colaborador habitual de Apichatpong Weerasethakul) não tem correspondência na atenção às personagens secundárias, todas decorativas (com eventual excepção daquela que ganha outro peso numa das últimas sequências, através de uma conversa-chave que deita uma nova luz sobre o que está para trás).

 

Chama-me Pelo Teu Nome 3

 

Por outro lado, ajuda muito que o protagonista seja encarnado por Timothée Chalamet, actor revelação capaz de dar conta desta viagem interior entre a adolescência e a idade adulta, com passagem pelo deslumbramento e frustração do primeiro amor - e pelo desejo, claro, impulsionado pela inércia de dias soalheiros e sem horários. Armie Hammer, na pele de Oliver, não chega a ter um peso emocional comparável, embora o argumento também não se interesse tanto pela sua personagem, que surge como presença mais esquiva e enigmática (mas se o é para Elio, talvez não precisasse de ser para o espectador).

 

Se as opções de Guadagnino nem sempre são certeiras, a escolha de Chalamet é determinante para que a jornada coming of age (e, em parte, coming out) de "CHAMA-ME PELO TEU NOME" seja sedutora - e até refrescante quando finta sinais de homofobia à partida expectáveis.

 

Só é pena que a atenção generalizada de que o filme tem sido alvo, com direito a lugar na corrida às estatuetas douradas, pareça algo desmesurada quando outros relatos LGBTQ comparáveis, e até mais interessantes, tiveram estreias tão discretas há poucos meses. Mas já que não houve grande espaço para "Quando se tem 17 Anos""Corações de Pedra" ou "Homenzinhos", pelo menos é bom ver que o fenómeno "Moonlight", no ano passado, não foi o único caso a conseguir visibilidade global nos últimos tempos.

 

  3/5

 

 

Ainda precisamos dela

Laura Veirs

 

Embora seja uma das cantautoras mais prolíficas deste milénio, LAURA VEIRS já não edita um álbum em nome próprio desde "Warp and Weft", de 2013. É verdade que em 2016 apresentou canções novas no disco que a juntou a Neko Case e k.d. lang, "case / lang / veirs", mas novidades a solo só mesmo daqui a uns meses, a 13 de Abril, data da edição de "The Lookout".

 

Para o 10º álbum, no qual Sufjan Stevens ou Jim James (My Morning Jacket) surgem como vozes convidadas, a norte-americana promete um olhar tanto comunitário como individual, que vai das consequências "do caos pós-eleições e divisões raciais" nos EUA às suas experiências enquanto artista e mãe - e à tentativa de conciliação desses universos.

 

A importância de olharmos uns pelos outros também está entre os pontos de partida e parece ter sido uma das inspirações para "EVERYBODY NEEDS YOU", o primeiro single. Canção electroacústica, é um bom exemplo da vertente mais plácida da música de VEIRS, a meio caminho entre a indie pop e a folk - território que deverá ser dominante no alinhamento do disco. Já o videoclip não tem tanto de bucólico, com uma viagem de táxi estranhamente próxima da que Tracey Thorn faz no vídeo de "Queen", revelado há poucos dias. Tendência a ganhar força em 2018?

 

 

Pais & filhos (do trip-hop e não só)

Young Fathers

 

Habitualmente comparados aos TV On The Radio, Tricky ou Massive Attack (com quem andaram em digressão e colaboraram em "Voodoo in My Blood"), os YOUNG FATHERS não parecem ter abandonado essas influências quando se preparam para editar o próximo álbum - "Cocoa Sugar", agendado para 9 de Março, pela Ninja Tune.

 

Mas se o misto de ambientes trip-hop e acessos hip-hop, soul ou industriais sugere esses e outros nomes, um tema como "IN MY VIEW" mostra que o trio de Edimburgo está mais interessado na descontrução do que no decalque. E até tem neste novo single uma das suas canções mais conseguidas, ao conjugar canto e spoken word, pulsão rítmica (via percussão sincopada) e apelo melódico (amparado em sintetizadores discretos mas determinantes) num óptimo sucessor do já bem satisfatório "Lord" (o primeiro avanço do terceiro álbum, revelado no final do ano passado).

 

Se a música promete, o trabalho de imagem dos (improváveis) vencedores do Mercury Prize em 2014 (com o disco de estreia, "Dead"), não é menos apurado, como o confirma um videoclip centrado em várias stituações tensas e/ou dramáticas, embora talvez não tanto como possam dar a entender ao início:

 

 

No escurinho da TV

Ao chegar à quarta temporada, "BLACK MIRROR" continua igual a si própria: um dos laboratórios de ideias mais efervescentes do pequeno ecrã, que mesmo quando falha (ou não acerta tanto) é mais desafiante do que quase tudo o resto.

 

Metalhead

 

Os mais cépticos com a mudança da criação de Charlie Booker do Channel 4 para a Netflix podem ficar descansados: a quarta temporada da série britânica arranca com um dos seus melhores episódios de sempre, o que aliás também já tinha acontecido com a anterior (a primeira desenvolvida através do serviço de streaming). Por outro lado, "USS CALLISTER" é tão bom que também acaba por impor um patamar que os restantes cinco capítulos desta safra, estreados a poucos dias do final de 2017, não chegam a atingir por completo - mesmo que alguns sirvam sequências ao seu nível.

 

Carta de amor à ficção científica, o episódio dirigido por Toby Haynes ("Doctor Who", "Sherlock") começa como uma homenagem sentida à saga "Star Trek", mas em vez de se ficar pelo pastiche levezinho (como a também recente "The Orville", série de Seth MacFarlane), deixa um retrato mais inventivo e desconcertante que cruza uma história de solidão com limites éticos associados à inteligência artifical.

 

Black Mirror

 

À medida que acompanha o codirector de uma marca de videojogos e a sua rotina quase inescapável entre o trabalho e o lar, "USS CALLISTER" vai desviando, pacientemente, a simpatia do espectador para os seus colegas - até daqueles que à partida pareciam ostracizá-lo -, através de uma combinação de drama urbano, aventura espacial e um sentido de humor que nunca trai a força da vertente mais angustiante deste relato.

 

Esse tom, impecavelmente gerido por Haynes e auxiliado por um elenco imediatamente icónico (com destaque para Jesse Plemons e Cristin Milioti), é talvez o maior trunfo de uma das ideias mais felizes da ficção científica recente, aqui defendida num episódio mais longo do que o habitual (76 minutos) e quase com fôlego de longa-metragem - ou talvez de super-episódio piloto para um spin-off deste universo do qual já se fala...

 

4,5/5

 

Black Mirror

 

Um arranque do calibre de "USS Callister" já justificaria por si só o regresso de "BLACK MIRROR", mas há mais olhares sobre a relação com a tecnologia a motivar o investimento nesta segunda vida na Netflix. "HANG THE DJ", outra aposta na realidade virtual, leva ao limite a dependência das aplicações de encontros num embate contínuo entre romantismo e frustração. Realizado por Tim Van Patten ("BoarDwalk Empire", "Os Sopranos") e protagonizado pelos óptimos Georgina Campbell ("Murdered by My Boyfriend") e Joe Cole ("Peaky Blinders"), que mantêm uma química decisiva para o resultado final, o quarto episódio da temporada é bem capaz de ser a comédia romântica mais contagiante de 2017. não admira que muitos fãs o encarem como descendente espiritual de "San Junipero", capítulo de referência da série (e em modo optimista, uma raridade).

 

 4/5

 

Crocodile

 

Num comprimento de onda completamente diferente, "CROCODILE" é um exemplo das visões mais pessimistas e sufocantes de "BLACK MIRROR", à medida de um realizador como John Hillcoat ("A Proposta", "Dos Homens Sem Lei"), que assina este ensaio sobre culpa sem redenção possível. O que começa com um homicídio involuntário torna-se num ciclo alimentado pelo confronto entre o remorso e a auto-preservação, exercício de suspense de cortar à faca que ameaça cair num calculismo demasiado denunciado mas é salvo, em grande parte, pela excelência da actrizes protagonistas - Andrea Riseborough num papel tão ingrato como marcante, Kiran Sonia Sawar a dar algum capital de simpatia a um dos contos mais negros de Charlie Booker.

 

 3/5

 

Metalhead

 

Negríssimo é também "METALHEAD". Literalmente, até, pela fotografia a preto e branco (com curiosas variações púrpura) a forrar uma abordagem com aura de série B pós-apocalíptica, despachada nuns muito sucintos 41 minutos. Em parte uma variação de "Alien" - protagonista continuamente perseguida por criaturas mortíferas num cenário inóspito -, surge como confirmação algo tardia do que de muito bom se dizia de David Slade na altura do seu primeiro filme, "Hard Candy" (2005), antes de o britânico ter chegado à saga "Twilight". Mas aqui parece ter reencontrado o seu lado primitivo e impiedoso, numa das viragens mais inesperadas da colheita recente de "BLACK MIRROR".

 

 3/5

 

Arkangel

 

Embora estes quatro episódios mostrem a série no seu melhor ou, pelo menos, num patamar recomendável, a nova temporada acaba por ser algo irregular, aliás como as anteriores. "ARKANGEL", drama entre mãe e filha ancorado nas possibilidades e ameaças do controlo parental, segue-se com algum interesse (ter Rosemarie DeWitt entre as protagonistas ajuda), mas Jodie Foster parece não ter mão para levar esta história para territórios tão inexplorados quanto isso. O problema nem é que a tecnologia aqui lembre a do superlativo "The Entire History of You", outro mergulho em memórias alheias avançado por "BLACK MIRROR", antes a forma previsível e até moralista como a realizadora a trabalha - e sobretudo como encerra um drama a caminho do dramalhão -, mesmo que este argumento de Booker também não seja dos mais aventureiros.

 

 2,5/5

 

Black Mirror

 

Pouco entusiasmante é também "BLACK MUSEUM", capítulo ambicioso mas que nunca consegue dar grande densidade às suas personagens. Pelo contrário, é dos casos em que estas são pouco mais do que marionetas de conceitos especialmente extremos, algures entre o terror gráfico q.b. e a sátira escarninha uns tons ao lado. Fechar uma temporada de uma série antológica com uma antologia de três histórias é apenas o ponto de partida do episódio mais auto-referencial de "BLACK MIRROR", assinado por Colm McCarthy ("Peaky Blinders", "Injustice"), embora as piscadelas de olho aos fãs não cheguem a aprimorar uma combinação requentada - com cereja em cima do bolo numa reviravolta final inócua e facilmente antecipável.

 

 2/5

 

As quatro temporadas de "BLACK MIRROR" estão disponíveis na íntegra na Netflix.

 

 

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