Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Top of the pop(per)s

Fischersponer

 

Os FISCHERSPOONER já tinham avisado que o próximo álbum iria abordar os relacionamentos queer na era digital, e de forma mais despudorada do que qualquer outro do seu percurso. Mas se os videoclips dos singles anteriores - "Have Fun Tonight""Togetherness" - já eram consideravelmente crus na abordagem à sexualidade, a banda nova-iorquina vai bem mais longe nas imagens que acompanham a nova amostra de "SIR", disco a editar a 16 de Fevereiro.

 

O duo de Warren Fischer e Casey Spooner tem descrito o videoclip de "TOPBRAZIL" como o mergulho numa estética pop "tipicamente reservada para o arquétipo feminino", orgulhando-se de avançar aqui com um retrato que "liberta a forma masculina para ser sexual, expressiva e destemida".

 

A Out Magazine concorda e chega a defender que as danças, coreografias e cenas de sexo quase explícitas entre dezenas de homens numa sauna, dirigidas por Tom C J Brown (realizador vindo do cinema de animação queer), são uma representação "sem precendentes" da homossexualidade masculina nos media mainstream (afirmação discutível quando uns Kazaky ou Cazwell, por exemplo, percorreram terreno comparável há uns anos).

 

 

Já dezenas de reacções na página de Youtube do vídeo não têm sido tão entusiastas. Boa parte são mesmo assumidamente homofóbicas, incluindo as de utilizadores brasileiros ofendidos com o título da canção, e outras das maiores críticas apontam a representação estereotipada de homens gay, uma vez que todos os recrutados são jovens e atléticos.

 

Mas para o melhor e para o pior este é um sério candidato a videoclip mais comentado dos FISCHERSPOONER, embora talvez seja demasiado trangressor para vir a ser distinguido por referências LGBTQ como os GLAAD Awards (muito pouco inclusivos na categoria musical das nomeações da edição deste ano, convenhamos).

 

E a canção em si? É relativamente menos arrojada, num acesso electropop eficaz com produção de Michael Stipe (também co-compositor do álbum) e Stuart White, talvez mais convincente do que o single anterior, "Butterscotch Goddam", e na linha do primeiro avanço do álbum, "Have Fun Tonight", sem chegar a ser tão infeccioso. De qualquer forma, neste caso seria difícil que a música não acabasse por ser dominada pela imagem...

 

A rainha da noite

Tracey Thorn

 

Além de eterna voz dos Everything but the Girl ou de várias colaborações, TRACEY THORN tem-se destacado por um percurso em nome próprio com lançamentos ocasionais. Desde que a dupla que compunha com Ben Watt disse adeus na viragem do milénio, a britânica assinou três álbuns (dois de originais e um natalício), sucessores da mais longínqua estreia a solo "A Distant Shore", de 1982.

 

O próximo chega este trimestre, a 2 de Março, seis anos depois de "Tinsel and Lights", e deverá aprofundar a filiação numa pop electrónica dançável, à qual THORN é geralmente associada (apesar de uma fase inicial mais próxima da folk).

 

"QUEEN" dá o mote de forma directa e pulsante q.b., embora nem os sintetizadores nem a guitarra que se intromete a meio cheguem a ameaçar o protagonismo vocal, numa canção que convida Sella Mozgawa e Jenny Lee Lindberg, das Warpaint, para a percussão e baixo, respectivamente.

 

Corinne Bailey Rae e Shura são os outros nomes já confirmados para "Record", disco que promete aliar o feminismo à pista de dança em faixas como "Smoke", "Guitar" ou "Dancefloor". Nada contra quando o aperitivo é um exemplo de synthpop redondinha e orelhuda, defendida por uma voz sem grandes paralelos no género:

 

 

O rock não morreu e ainda merece ser abraçado

Moaning

 

Foi desta que o rock morreu? A popularidade inegável do hip-hop junto do público mais jovem (e não só), o acomodamento de muitos veteranos ou a enésima réplica de glórias antigas no ADN de uma nova banda levam muitos a garantir que sim, mas convém não arrumar já as guitarras. Pelo menos enquanto continuarem a surgir revelações como uma das últimas apostas da (insuspeita) Sub Pop.

 

É verdade que não serão os MOANING a salvar, por si só, um género cuja morte tem vindo a ser decretada há décadas, até porque não trazem nenhuma novidade de maior nas suas primeiras canções. E se também é certo que a sua música convoca várias escolas em tempos tidas como alternativas - dos Joy Division aos Nirvana, passando pelo lado mais agreste dos Smashing Pumpkins -, há por aqui um sentido de urgência e uma coesão instrumental que tem faltado a muitas promessas.

 

Parte do efeito do power trio de Los Angeles nasce da forma como consegue juntar elementos pós-punk, góticos ou grunge na mesma canção, assim como sugestões de algum shoegaze (ou não fossem os Slowdive uma das influências assumidas), o que dá às primeiras amostras uma combinação equilibrada de familiaridade e imprevisibilidade.

 

A experiência em palco terá ajudado, já que Sean Solomon (voz e guitarra), Pascal Stevenson (baixo) e Andrew MacKelvie (bateria) têm tido presença regular na cena independente local nos últimos dez anos, desde que se conheceram na adolescência e aliaram a amizade à colaboração em projectos fugazes. Mas parece ser com os MOANING que irão mais longe, com um álbum de estreia em preparação desde 2014 e que conhece finalmente a luz do dia a 2 de Março.

 

O disco, homónimo, é produzido por Alex Newport (At The Drive-In, The Melvins, Bloc Party) e tem em "The Same", "Don't Go" e no mais recente "Artificial" três singles que sugerem estar aqui uma das surpresas de 2018 - além de revitalizante q.b. no campeonato das guitarras: 

 

 

 

 

Quando o sonho comanda a vida

Candidato húngaro a Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, "CORPO E ALMA" é um belo retrato de duas solidões partilhadas captado pela veterana Ildikó Enyedi. Entre o real e o onírico, está aqui um dos dramas românticos mais curiosos e sensíveis dos últimos tempos.

 

Corpo e Alma

 

Há quase 20 anos sem assinar uma longa-metragem - a mais recente até agora era "Simon mágus", de 1999 -, Ildikó Enyedi dedicou-se este milénio à realização de dezenas de episódios da série "Terápia" e de duas curtas, quando parecia deixar para trás um dos percursos mais celebrados do cinema húngaro contemporâneo (e com maior expressão internacional a partir de finais da década de 80).

 

Mas se o regresso ao grande ecrã demorou, não tem passado despercebido: "CORPO E ALMA" foi dos títulos europeus mais elogiados de 2017, contou com o Urso de Ouro do Festival de Berlim entre as muitas distinções e está bem colocado na corrida ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, sendo um dos nove finalistas. E traz de volta a obra da cineasta a salas nacionais, onde teve distribuição irregular ao longo dos anos.

 

O regresso também se faz sem pressas na própria acção do filme. Enyedi leva o seu tempo a apresentar as personagens e sobretudo a interligá-las com as sequências centradas em veados numa floresta, à partida pouco mais do que separadores do olhar sobre o quotidiano de um matadouro nos arredores de Budapeste. O director financeiro da empresa, um homem reservado de meia-idade, e a recém-chegada inspectora de qualidade, ainda mais circunspecta e tímida, além de algumas décadas mais nova, são alvo de especial atenção num drama assente na esfera laboral e pessoal - que se tornam cada vez mais próximas pelas viragens oníricas da narrativa.

 

Corpo e Alma

 

Ao acompanhar a rotina diurna e nocturna da dupla protagonista, "CORPO E ALMA" vai movendo um par improvável entre a solidão e a comunhão, com os avanços e recuos que não andam longe da dinâmica de uma comédia romântica. Só que aqui o humor é quase sempre tão árido e subtil como o drama e o romance nunca se instala como uma solução fácil e milagrosa para a inadaptação quase irredutível das personagens.

 

Se noutras mãos o cruzamento de um tom clínico com aproximações ao realismo mágico poderia resultar indigesto, Enyedi prova saber sempre como quer apresentar e para onde quer levar esta história, num retrato nem impossivelmente esperançoso nem demasiado desesperado. Talvez não precisasse de duas horas para a contar: a meio o filme acusa alguma redundância, em cenas como as muitas dos protagonistas nos seus apartamentos, à noite, nas quais a solidão parece ser a única companhia para a vida. Mas o último terço confirma que quem sabe nunca esquece, em particular numa sequência ao som de um tema de Laura Marling, provavelmente a mais perturbante (e na qual o filme poderia autodestruir-se se conduzido por uma cineasta menos capaz).

 

Muito bem defendido pelos desempenhos de Géza Morcsányi, sexagenário que se estreia aqui na interpretação, e da mais jovem Alexandra Borbély, uma revelação num papel ainda mais extremo mas que nunca cai numa amostra de tiques, este estudo de personagens e das suas dificuldades de socialização justifica a (re)descoberta de uma realizadora e, por arrasto, de uma cinematografia que bem podia passar mais vezes por cá. Talvez a noite dos Óscares até acabe por ajudar desta vez...

 

 3/5

 

 

Rastilho para um regresso

Keep Razors Sharp

 

Em equipa que ganha não se mexe e a dos KEEP RAZORS SHARP mantém-se intacta, quatro anos depois do álbum de estreia (que continua a poder ser ouvido e descarregado gratuitamente aqui).

 

Afonso (Sean Riley & The Slowriders), Rai (The Poppers), Bráulio (ex-Capitão Fantasma) e Bibi (Pernas de Alicate) voltaram a juntar-se para um dos discos a aguardar entre a produção nacional de 2018, ainda sem data de lançamento mas já com uma pista do que aí vem.

 

"ALWAYS AND FOREVER", o single de apresentação, retoma a efervescência do grupo num portento psicadélico de travo shoegaze, directo e propulsivo, com o contraste de vozes e guitarras a levar a uma vertigem de três minutos (e a mostrar potencial para sair ampliada ao vivo). O refrão orelhudo também ajuda, mesmo que não seja tão pegajoso como o de um tema na linha de "Can't Get You Out of My Head" (sim, a canção de Kylie Minogue que teve direito a uma tremenda versão da banda).

 

O videoclip, realizado por Leonor Bettencourt Loureiro, foi filmado nos Blacksheep Studios, em Mem Martins, mas a música atira-nos mais facilmente para o deserto norte-americano num dia agreste q.b. e com eventual mergulho em demónios interiores. Para começar a aquecer o ano enquanto abre caminho para o álbum, não está nada mal: