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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Laços de sangue

Drama familiar, filme de tribunal, thriller psicológico? "CUSTÓDIA PARTILHADA" não fica refém de nenhum desses formatos, mas o que mais surpreende é a segurança com que o actor Xavier Legrand se move entre eles na sua primeira longa-metragem atrás das câmaras.

 

Custódia Partilhada

 

Do título ao trailer, passando pelas imagens promocionais, "CUSTÓDIA PARTILHADA" sugere uma variação contemporânea e europeia de "Kramer Contra Kramer" (1979), de Robert Benton, ao confrontar um casal que lida com a disputa legal de um dos filhos durante um processo de divórcio conturbado. Mas essa aproximação cedo se revela enganadora, na primeira de muitas pistas de um filme que não tem medo de pisar territórios inesperados enquanto retrata uma dinâmica familiar na qual nem tudo é o que parece à partida.

 

Depois da curta "Avant que de tout perdre" (2013), Xavier Legrand retoma na sua primeira longa-metragem como realizador e argumentista o tema da violência doméstica, fazendo notar a ambição de fintar lugares comuns de outros olhares ficcionais. E a ambição é tanta que "CUSTÓDIA PARTILHADA" chega a ser, por vezes, demasiado seco e cerebral, com o exercício de estilo a ameaçar sobrepor-se à assinalável carga dramática nascida, sobretudo, da relação entre o pai e o filho - e do jogo de forças, segredos e mentiras que se vai desenhando ao longo de uma hora e meia com um nervoso miudinho em crescendo.

 

Thomas Gioria

 

Felizmente, o realizador francês também mostra ser mais do que um experimentador formal engenhoso, já que a direcção de actores é tão ou mais convincente. E numa história com estes contornos esse é um elemento especialmente decisivo, ao impedir que as personagens se fechem em retratos óbvios e prontos a servir. Os protagonistas são antes figuras esquivas, que o argumento leva o seu tempo a ir revelando e ainda assim deixa zonas de incerteza mesmo depois de um final de antologia (aí com Legrand a deixar uma pequena masterclass de gestão do espaço e do som, com o filme finalmente numa situação-limite).

 

Até Julien, o rapaz de 11 anos cuja custódia é disputada, é uma personagem mais ambígua do que a de outros relatos tematicamente próximos. O espectador pode vê-lo como vítima, mas dificilmente o reduz a esse papel quando o encontra tão integrado numa lógica familiar vincada pela repressão e manipulação. Mérito de Thomas Gioria, pequeno grande actor-revelação, capaz de conferir camadas a uma figura que noutras histórias poderia ser só uma marioneta, mas também de um argumento que não o torna alvo de simpatia imediata e obrigatória.

 

Léa Drucker e Denis Ménochet, na pele da mãe e do pai, respectivamente, também são inatacáveis: ela com uma frieza e distância difíceis de descortinar, mas afinal justificadas; ele bastante mais impulsivo ao nem tentar disfarçar o caos emocional entre a carência e a desconfiança. Já a filha, apesar de bem interpretada por Mathilde Auneveux, parece ficar algo desamparada num argumento que talvez resultasse mais coeso sem parte das suas cenas. Nada que comprometa, ainda assim, a força de uma primeira obra que tem dado que falar - com o Leão de Prata de Melhor Realizador e o Prémio Luigi de Laurentiis no último Festival de Veneza entre as muitas (e merecidas) distinções.

 

 3,5/5

 

 

Animais nocturnos (ou só mais uma festa em São Paulo)

Ladytron The Animals

 

Os LADYTRON podem ter estado sete anos sem gravar, mas parecem ter conseguido captar o espírito dos tempos no regresso. Na semana em que Lula da Silva volta a gerar manchetes um pouco por todo o lado, o quarteto britânico estreia o videoclip de "THE ANIMALS", o seu novo single (revelado em Fevereiro), inspirado no clima de tensão que se tem vivido no Brasil.

 

Filmado em São Paulo, cidade de eleição de Daniel Hunt nos últimos anos (onde entretanto formou o projecto paralelo Tamoios), o vídeo percorre vários espaços emblemáticos locais enquanto acompanha três jovens amigos, partindo das suas experiências para desenhar um retrato simultaneamente "violento, sensorial e lúdico" que expõe contrastes "culturais, de género, espirituais e identitários", diz o grupo.

 

Entre a festa e o caos, sobressai um olhar que insinua a intolerância e homofobia de alguns meios embrulhado numa energia visual a remeter para ambientes de Gregg Araki ou Xavier Dolan (não por acaso, dois nomes associados ao cinema queer). Essa sensibilidade, aliada ao lado narrativo, talvez ajude a explicar porque é que a banda apresenta o resultado como uma curta-metragem - assinada por Fernando Nogari, que se estrou no formato depois da realização de videoclips com "What Young People Call Music" (2017), obra de contornos documentais que já conjugava cultura juvenil e musical.

 

"THE ANIMALS" é, para já, o único inédito do sexto álbum dos LADYTRON revelado, até porque o disco ainda não foi gravado e só deverá chegar mais para o final do ano. Mas se a canção já tinha dado a entender que o quarteto continua a fazer música confiável, é bom ver que a gestão da imagem também se mantém sedutora:

 

 

Quatro por quatro

Little Boots 2018

 

Quatro canções, quatro convidadas e uma sonoridade negra e dançável, com letras mais directas e confessionais. É assim que LITTLE BOOTS apresenta "Burn", o seu novo EP, a editar esta sexta-feira - que traz os primeiros originais da britânica desde o terceiro álbum, "Working Girl" (2015).

 

Inspirada por um contacto reforçado com a vida nocturna depois de um percurso paralelo como DJ no ano passado, Victoria Hesketh parece cada vez mais longe da synthpop borbulhante de "Hands" (2009), estreia que apesar de tudo já tinha as pistas de dança na mira. E regressa ao lado de várias convidadas, numa tentativa de dar maior visibilidade a artistas femininas da cena electrónica.

 

Joyce Muniz, Lauren Flax, Planningtorock e Cora Novoa acompanham-na nas quatro novas faixas, que tiveram em "Shadows" o primeiro cartão de apresentação e contam com "PICTURE" como sucessora. O tema alude ao final de um relacionamento amoroso e ao papel da tecnologia, outros dois pontos de partida para o EP, e resulta da parceira com Flax. A realização do videoclip também foi entregue a uma mulher, Marion Bergin, que já tinha dirigido o do single anterior e salta agora de ambientes hedonistas para os de uma (eventual) instalação:

 

 

Primavera de destroços

Beach House

 

Quem acusava os BEACH HOUSE de alguma redundância ao fim de seis álbuns talvez mude de opinião com a chegada do sétimo. As primeiras amostras, pelo menos, revelam a dupla de Baltimore menos fechada em si mesma e decidida a explorar um lado mais eléctrico e até vertiginoso, sem deixar os ambientes oníricos através dos quais se distingiu desde a estreia homónima, em 2006.

 

"Lemon Glow" e "Dive", apresentadas nos últimos meses, já deixavam boas pistas, e agora "DARK SPRING" volta a sugerir uma viragem para domínios shoegaze em modo mais acelerado, com uma efervescência de sintetizadores, guitarras e percurssão temperada pelos sussurros de Victoria Legrand. Enquanto não chega a confirmação - "7", assim se chama o disco, está agendado para 11 de Maio - fica o videoclip trepidante q.b., realizado por Zia Anger:

 

 

Corações puros, praias anti-crise ou uma Cinderela alternativa

SICILIAN GHOST STORY

 

Mais de 50 filmes em quase 20 cidades, com clássicos e (sobretudo) inéditos, a partir desta quarta-feira e até meados do Verão.

 

A FESTA DO CINEMA ITALIANO arranca a 11ª primeira edição esta noite, no Cinema São Jorge, em Lisboa, e mantém-se na capital até 12 de Abril, com sessões que se estendem à Cinemateca Portuguesa e ao UCI Cinemas - El Cortes Inglés.

 

A abertura fica a cargo de "Sicilian Ghost Story", o novo filme da dupla de Antonio Piazza e Fabio Grassadonia, realizadores do curioso "Salvo" (2013), que também chegou a Portugal através da Festa em 2014 e também já misturava amor e crime - embora o sucessor dê um passo que não se previa no universo fantástico e tem alimentado comparações aos ambientes de "O Labirinto do Fauno", de Guillermo del Toro.

 

Já a sessão de encerramento em Lisboa é "The Place", de Paolo Genovese, nome mais conhecido por cá pelo sucesso inesperado de "Amigos Amigos, Telemóveis à Parte" (2016). Mas além desses dois destaques habituais e dos ícones a relembrar este ano (da retrospectiva de Marco Ferreri a reposições de "Cinema Paraíso", "O Carteiro de Pablo Neruda" e "A Melhor Juventude"), há muitos inéditos menos sonantes ainda que não necessariamente menos interessantes a espreitar. Abaixo ficam cinco sugestões iniciais, com a promessa de ir apresentando mais descobertas por aqui nos próximos dias:

 

Cuori puri

 

"CUORI PURI", de Roberto De Paolis: Um dos filmes mais promissores da secção competitiva é esta primeira obra que acompanha uma adolescente de 17 anos e um rapaz de 25, cuja relação amorosa tem a (o)pressão religiosa da família dela e a marginalidade das origens dele entre os obstáculos. Bem acolhido em Cannes no ano passado, é um exemplo de realismo social que contrasta com a oferta (mais expressiva e até ofuscante) de comédia popular e ligeira da Festa.

 

Gatta Cenerentola

 

"GATTA CENERENTOLA", de Ivan Cappiello, Marino Guarnieri, Alessandro Rak, Dario Sansone: E se "Cinderela" tivesse uma versão negra, futurista e não tão aconselhável para os mais novos? O resultado pode ver-se nesta animação que venceu o Festival Monstra deste ano e tem dado que falar pela combinação de 2D e 3D enquanto se move entre a fantasia, o thriller e a ficção científica. Ancorada num navio do porto de Nápoles, a história parte do casamento de conveniência entre uma jovem rebelde e um traficante de droga com planos pouco abonatórios para a cidade.

 

Hannah

 

"HANNAH", de Andrea Pallaoro: Embora tenha dividido opiniões, este drama sobre o desespero de uma mulher que tenta lidar com a ausência do marido tem na interpretação de Charlotte Rampling um dos seus elementos consensuais. Premiada em Veneza pelo papel protagonista, a actriz britânica conduz um retrato da solidão e da alienação que pode ser tão intrigante como hermético - o que não espanta tendo em conta que o filme anterior do realizador, "Medeas" (2013), com Catalina Sandino Moreno, já tinha sido descrito como atmosférico e opaco.

 

Happy Winter

 

"HAPPY WINTER", de Giovanni Totaro: Um filme vincado pela crise também pode ser soalheiro, como o comprova este documentário encenado que olha com optimismo e humor para os milhares de banhistas que se fixam numa praia de Palermo durante todo o Verão, elegendo-a como residência estival. Além da curiosidade da premissa, o retrato tem sido elogiado pela forma como conjuga as dificuldades e partilha entre uma comunidade improvisada, do contraste de costumes a novos hábitos. É capaz de merecer um mergulho...

 

Set del film "L'Intrusa" di Leonardo di Costanzo..Nella foto Raffaella Giordano..foto di Gianni Fiorito.Questa fotografia è solo per uso editoriale, il  diritto d'autore è della società cinematografica e del fotografo assegnato dalla società di produzione

 

"L’INTRUSA", de Leonardo di Costanzo: Apesar de não faltarem histórias sobre a Camorra no pequeno e grande ecrã, neste drama a perspectiva é a de uma assistente social que trabalha num centro de crianças desfavorecidas de Napóles. Mas como o título do filme indica, esse espaço habitualmente protegido torna-se menos seguro ao acolher a mulher e os filhos de um criminoso local. A experiência de Leonardo di Costanzo no documentário terá ajudado a explicar o efeito realista da sua nova obra, aclamada em festivais como os do Cairo ou de Munique.

 

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