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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Uma mulher num mundo de homens

St Vincent

 

ST. VINCENT já se tinha revelado mais pop do que nunca em "MASSEDUCTION", o seu quinto álbum, editado no ano passado. Mas parece que mesmo assim ainda não era o suficiente, tendo em conta que um dos temas mais recatados do alinhamento, "Slow Disco", ganhou uma nova versão, "FAST SLOW DISCO" (produzida a meias com Jack Antonoff), que conforme o título indica apostou num ritmo mais acelerado - e festivo, apesar da letra melancólica q.b..

 

Não surpreende, então, que o videoclip desse novo single tenha uma pista de dança como cenário, embora talvez seja mais inesperado encontrar Annie Clark como a única mulher entre vários homens em tronco nu e movimentos insinuantes, a sua forma de celebrar o mês do orgulho gay.

 

O resultado de dezenas de corpos atiçados pela música fica algures entre o de "All the Lovers", de Kylie Minogue, mas em ambiente nocturno e quase 100% masculino, e uma versão menos atrevida de "TopBrazil", dos Fischerspooner, e mais descontraída do que o recente "Don't Beat the Girl Out of My Boy", de Anna Calvi. E se também por isso não ganha muitos pontos pela originalidade, é um passo de gigante para reforçar o lugar da norte-americana na lista de novas divas LGBT. A propósito, seria pedir muito podermos vê-la por cá num Arraial Pride?

 

 

O escritor fantasma

Uma das melhores estreias deste Verão cinematográfico é também das mais discretas. Primeira obra da japonesa Miwa Nishikawa a chegar às salas nacionais, "A ETERNA DESCULPA" revela-se um pequeno grande filme entre o luto e a redenção enquanto apresenta uma realizadora a descobrir.

 

A Eterna Desculpa

 

Miwa Nishikawa está longe de ser uma novata e não falta quem a aponte como um dos nomes a seguir do cinema nipónico actual, mas apesar de contar com vários filmes no currículo ainda nenhum tinha chegado ao circuito comercial português. "A ETERNA DESCULPA", o mais recente, até estreia por cá com dois anos de atraso, embora ainda venha a tempo de se juntar às maiores surpresas da temporada. E dá vontade de ir espreitar os seis que estão para trás, provas de um percurso prolífico que arrancou no princípio do milénio.

 

O universo do conterrâneo Hirokazu Koree-da pode ser uma boa porta de entrada, não só porque Nishikawa se iniciou no cinema como assistente de realização do autor de "Ninguém Sabe" e "O Meu Maior Desejo", mas também porque, a julgar por "A ETERNA DESCULPA", a realizadora e argumentista tem predilecção por dramas subtis e intimistas, em torno de relações familiares atribuladas e credíveis. E pelo menos no seu filme mais recente, a cineasta pode orgulhar-se de ser tão ou mais envolvente do que o mentor num dia inspirado.

 

O resultado até se mostra, aliás, francamente preferível a "O Terceiro Assassinato", o desapontante e incaracterístico filme de Koree-da que estreou em Portugal este ano. Em vez de se preocupar com malabarismos do argumento, Nishikawa aposta num estudo de personagens encabeçado por um escritor mediático e egocêntrico, que se vê obrigado a reconsiderar o seu lugar no mundo depois da morte da mulher num acidente.

 

A Eterna Desculpa 2

 

Mas se este ponto de partida pode sugerir estar aqui mais um filme sobre a dor do luto, "A ETERNA DESCULPA" arrisca mais do que outros ao seguir um protagonista que não mendiga a simpatia do espectador. Pelo contrário: no momento em que o autocarro da sua mulher se despenhava, Sachio estava em casa com a amante. E a notícia da morte não o abala tanto como as suas entrevistas televisivas dão a entender, num contraste que dá logo conta do jogo entre pespectiva compreensiva da realizadora e o cinismo (continuamente retratado) da personagem principal.

 

Embora Nishikawa exponha as falhas de carácter e contradições do protagonista, nunca se coloca acima dele nem se limita a adocicar uma figura pouco empática numa história de auto-descoberta e redenção de unir os pontos. E se aos poucos o quotidiano de Sachio se vai abrindo a algum altruísmo, à medida que a tragédia o leva a conhecer uma nova família, a espessura emocional de "A ETERNA DESCULPA" não se contenta com epifanias fáceis nem perde de vista o que é, acima de tudo, um olhar complexo (às vezes até inesperadamente duro) sobre a solidão.

 

A Eterna Desculpa 3

 

Ainda assim, é um olhar mais esperançoso do que pessimista, complementado por uma perspicácia e atenção ao detalhe capaz de integrar um retrato das clivagens sociais, do fosso entre a vida pública e privada ou da forma como a vida alimenta a arte (ou como a "persona" mais aberta do escritor pode ser só uma jogada oportunista, sobretudo em fase de bloqueio criativo). Torna-se legítimo que o espectador fique de pé atrás em relação às motivações do protagonista, mas torna-se igualmente difícil não aderir às cenas deste com as duas crianças que acabam por ir fazendo parte do seu dia-a-dia sem pedirem licença.

 

Essas sequências domésticas, as mais prosaicas, são também as mais comoventes (e/ou espirituosas) de um drama muito bem defendido por uma realizadora sempre capaz de encontrar o tom certo (o facto de adaptar aqui o seu próprio romance, homónimo, talvez ajude) e de um elenco que lhe dá vida e autenticidade logo ao primeiro impacto (com destaque para o protagonista, Masahiro Motoki, num daqueles desempenhos que decide se o filme triunfa ou falha, e para a jovem revelação Kenshin Fujita, um adolescente obrigado a crescer muito em pouco tempo). Belíssima estreia, portanto - e limitações da distribuição à parte, não há mesmo desculpa para a perder...

 

4/5

 

 

Entre a Eurovisão e o apocalipse

Daisy Mortem

 

São de Bordéus, editaram este ano o seu segundo EP, "La vie c'est mort", e descrevem-no como "a banda sonora de um sonho erótico que termina com um assassinato numa discoteca obscura". Ou "uma pop fora das normas, entre a Eurovisão e o apocalipse", feita de estilhaços new wave, electro, punk, góticos e noise.

 

Não é uma introdução desajustada para o que se ouve ao longo das cinco novas canções dos DAISY MORTEM, sucessoras do EP de estreia "Better!Better!Better!" (2016), e a aposta recente do trio na língua materna (que substituiu a escolha do ingês na fase inicial) até ajuda a consolidar uma identidade que se afasta de uns The Faint ou The Presets enquanto aceita contaminações dos tempos cáusticos dos Soft Cell, dos Indochine ou dos mais esquecidos Taxi Girl (que revelaram Mirwais, mais tarde produtor de Madonna, e foram pioneiros da estética New Romantic na pop francesa durante a viragem para os anos 80).

 

A mistura é explosiva e sombria q.b. em disco, mas diz quem viu que se torna mais febril e robusta ao vivo, em actuações de euforia sonora e visual que já passaram por palcos portugueses (no Lounge, em Lisboa, ou no Maus Hábitos, no Porto, há poucos meses). Enquanto não há um regresso agendado, fica o novo videoclip, mesmo que se arrisque a ficar aquém da experiência in loco. "L'AMOUR, LE SIDA" começa como homenagem aos videojogos dos primórdios e termina com uma festa de esqueletos na pista de dança, mas vale sobretudo por dar novo fôlego a um dos temas mais potentes e aconselháveis do grupo:

 

 

Um anjo na Terra

Do realismo social ao realismo mágico, com passagens pelo filme de super-heróis, thriller, alegoria religiosa ou buddy movie... "A LUA DE JÚPITER", de Kornél Mundruczó, nem sempre conjuga estes universos de forma muito coesa, mas é das aventuras mais delirantes que chegaram às salas nos últimos tempos.

 

A Lua de Júpiter

 

Depois de ter imaginado um mundo pós-apocalíptico literalmente entregue aos bichos - no caso, aos cães - no seu filme anterior, "Deus Branco" (2014), Kornél Mundruczó mostra-se tão ou mais idiossincrático no seu novo empreendimento. E mais uma vez, o realizador húngaro volta a colocar em jogo temas "actuais" sem cair no realismo árido, para não dizer sisudo e pesadão, de alguns autores contemporâneos - não é preciso ir mais longe do que outra estreia recente, o tão redundante "Uma Mulher Doce", de Sergey Loznitsa, mais um diagnóstico pessimista e esquemático da sociedade russa.

 

Não é que o retrato que "A LUA DE JÚPITER" faz da Hungria actual seja o mais abonatório, pelo contrário. O filme até é bastante frontal na denúncia de um sistema corrupto, da intolerância a vários níveis à troca de favores descarada, que se torna ainda mais frágil quando tem de lidar com a crise de refugiados dos últimos anos. Mas não só Mundruczó ainda vai conseguindo encontrar alguns raios de luz entre esse mal-estar como o faz com uma audácia narrativa atípica - e só por si já digna de nota - que consegue chegar a bom porto.

 

A Lua de Júpiter 2

 

A sequência de abertura, trepidante, acompanha Aryan, um jovem sírio (a escolha do nome não será acidental numa história marcada pela xenofobia) que tenta passar a fronteira para a Hungria e é baleado por um guarda. Mas o que aparentava ser um drama cru sobre migrantes ilegais rapidamente muda as regras quando o protagonista, além de sobreviver aos disparos, descobre que consegue levitar. E depois de entrar em cena um médico de moral dúbia que promete ajudá-lo, "A LUA DE JÚPITER" propõe um jogo do gato e do rato com uma narrativa de sinais reconhecíveis (não anda assim tão longe de muitos policiais) mas condimentos bem peculiares.

 

Se as capacidades especiais de Aryan abrem caminho para uma aventura de super-heróis, o resultado não poderia estar mais longe das ficções da Marvel ou da DC. A abordagem de Mundruczó terá mais em comum, quando muito, com as sugestões de realismo de "O Protegido", de M. Night Shyamalan, ou "Crónica", de Josh Trank, ainda que esta atmosfera seja mais suja e palpável. E como o realizador é particularmente selecto nas cenas em que o protagonista usa o seu "superpoder", a capacidade de maravilhamento acaba por sair reforçada nas sequências de antologia que o filme oferece: seja aquela que segue a lenta descida de um prédio do protagonista, enquanto o espectador vislumbra os moradores à janela (descendência do também incrível videoclip de "Protection", dos Massive Attack, assinado por Michel Gondry?), seja a que vira um apartamento do avesso sem repetir a estratégia até que o efeito se esgote (como às vezes acontecia em "A Origem", de Christopher Nolan).

 

Momentos como esse ou como outros, mais habituais, em que o protagonista levita em planos aéreos dominados por arranha-céus, são um belo contraste com a descida à terra de "A LUA DE JÚPITER", em modo mais nervoso e sufocante, na qual o argumento nem sempre é tão inspirado (a dinâmica entre um Aryan "puro" e o médico anti-herói acaba por ser previsivível q.b.), embora o olhar de Mundruczó consiga torná-lo empolgante.

 

A Lua de Júpiter 3

 

As cenas aladas podem ser das mais fortes, mas o realizador é capaz de captar um cenário urbano vivo e sinuoso, não faltando sequer uma excelente perseguição automóvel no final - e das mais minimalistas, já que só precisa de uma câmara e tira dela o maior partido para uma das injecções de adrenalina mais fortes. Alguns momentos anteriores já tinham confirmado, de resto, que o cineasta se sente à vontade nos planos-sequência, e essa energia visual acaba por compensar largamente algumas limitações - como a da dobragem mal disfarçada de uma das figuras principais, ironicamente o pormenor que mais compromete a suspensão da descrença de uma história com liberdades narrativas consideráveis.

 

Apesar desta mistura de géneros poder não ser para todos os gostos, ajuda que as personagens sejam de carne e osso e os actores também. E se Zsombor Jéger, a fazer lembrar um Gabriel Garcia Bernal mais jovem, é competente e empático como Aryan, os maiores trunfos do elenco serão os veteranos Merab Ninidze, com ecos de fura-vidas de um film noir promovido a anjo da guarda, e György Cserhalmi, o incansável vilão de serviço com mais zonas de sombra (e luz) do que os que têm chegado dos lados de Hollywood.

 

É para os EUA, aliás, que Mundruczó segue já no próximo filme - "Deeper", com Bradley Cooper e Gal Gadot - e não é nada improvável que "A LUA DE JÚPITER" ganhe uma versão norte-americana um dia destes. Mais um motivo para ver agora a original, então, que de oferta requentada já estão muitas salas cheias...

 

3,5/5

 

 

"A Lua de Jupiter" fica disponível em DVD, nos videoclubes das televisões e no Filmin a 14 de Junho.

 

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