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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

A vida é um jogo

Oscar_2018

 

Passar de nível, ganhar uma nova vida, recomeçar. Pode ser a lógica de um videojogo, mas foi também o meio que OSCAR Scheller encontrou para dar a volta aos seus períodos de ansiedade e depressão. E agora o britânico junta as duas vertentes em "1UP", o novo single de um percurso que começou de forma promissora com um EP seguido de um álbum, há dois anos, mas do qual não resultaram notícias nos últimos tempos.

 

O regresso mantém a pop vitaminada, embora melancólica q.b., de "Cut and Paste", e acrescenta-lhe uma camada electrónica com pulsão 8-bit - um condimento natural num tema inspirado no universo gamer. O videoclip não foge a essa herança e oferece um desfile, devidamente pixelizado, por memórias de videojogos old school, de "Super Mario" a "Street Fighter", com piscadelas de olho a algum anime, entre "Dragon Ball" e "Pokémon". E lá mais para o final ainda há espaço para Sarah Midori Perry, a vocalista dos Kero Kero Bonito, que vem reforçar a carga despretensiosa e geek. Próximo nível: segundo álbum? Talvez não, mas pelo menos há mais música a caminho.

 

 

Uma mulher num mundo de homens

St Vincent

 

ST. VINCENT já se tinha revelado mais pop do que nunca em "MASSEDUCTION", o seu quinto álbum, editado no ano passado. Mas parece que mesmo assim ainda não era o suficiente, tendo em conta que um dos temas mais recatados do alinhamento, "Slow Disco", ganhou uma nova versão, "FAST SLOW DISCO" (produzida a meias com Jack Antonoff), que conforme o título indica apostou num ritmo mais acelerado - e festivo, apesar da letra melancólica q.b..

 

Não surpreende, então, que o videoclip desse novo single tenha uma pista de dança como cenário, embora talvez seja mais inesperado encontrar Annie Clark como a única mulher entre vários homens em tronco nu e movimentos insinuantes, a sua forma de celebrar o mês do orgulho gay.

 

O resultado de dezenas de corpos atiçados pela música fica algures entre o de "All the Lovers", de Kylie Minogue, mas em ambiente nocturno e quase 100% masculino, e uma versão menos atrevida de "TopBrazil", dos Fischerspooner, e mais descontraída do que o recente "Don't Beat the Girl Out of My Boy", de Anna Calvi. E se também por isso não ganha muitos pontos pela originalidade, é um passo de gigante para reforçar o lugar da norte-americana na lista de novas divas LGBT. A propósito, seria pedir muito podermos vê-la por cá num Arraial Pride?

 

 

O escritor fantasma

Uma das melhores estreias deste Verão cinematográfico é também das mais discretas. Primeira obra da japonesa Miwa Nishikawa a chegar às salas nacionais, "A ETERNA DESCULPA" revela-se um pequeno grande filme entre o luto e a redenção enquanto apresenta uma realizadora a descobrir.

A Eterna Desculpa

Miwa Nishikawa está longe de ser uma novata e não falta quem a aponte como um dos nomes a seguir do cinema nipónico actual, mas apesar de contar com vários filmes no currículo ainda nenhum tinha chegado ao circuito comercial português. "A ETERNA DESCULPA", o mais recente, até estreia por cá com dois anos de atraso, embora ainda venha a tempo de se juntar às maiores surpresas da temporada. E dá vontade de ir espreitar os seis que estão para trás, provas de um percurso prolífico que arrancou no princípio do milénio.

O universo do conterrâneo Hirokazu Koree-da pode ser uma boa porta de entrada, não só porque Nishikawa se iniciou no cinema como assistente de realização do autor de "Ninguém Sabe" e "O Meu Maior Desejo", mas também porque, a julgar por "A ETERNA DESCULPA", a realizadora e argumentista tem predilecção por dramas subtis e intimistas, em torno de relações familiares atribuladas e credíveis. E pelo menos no seu filme mais recente, a cineasta pode orgulhar-se de ser tão ou mais envolvente do que o mentor num dia inspirado.

O resultado até se mostra, aliás, francamente preferível a "O Terceiro Assassinato", o desapontante e incaracterístico filme de Koree-da que estreou em Portugal este ano. Em vez de se preocupar com malabarismos do argumento, Nishikawa aposta num estudo de personagens encabeçado por um escritor mediático e egocêntrico, que se vê obrigado a reconsiderar o seu lugar no mundo depois da morte da mulher num acidente.

A Eterna Desculpa 2

Mas se este ponto de partida pode sugerir estar aqui mais um filme sobre a dor do luto, "A ETERNA DESCULPA" arrisca mais do que outros ao seguir um protagonista que não mendiga a simpatia do espectador. Pelo contrário: no momento em que o autocarro da sua mulher se despenhava, Sachio estava em casa com a amante. E a notícia da morte não o abala tanto como as suas entrevistas televisivas dão a entender, num contraste que dá logo conta do jogo entre pespectiva compreensiva da realizadora e o cinismo (continuamente retratado) da personagem principal.

Embora Nishikawa exponha as falhas de carácter e contradições do protagonista, nunca se coloca acima dele nem se limita a adocicar uma figura pouco empática numa história de auto-descoberta e redenção de unir os pontos. E se aos poucos o quotidiano de Sachio se vai abrindo a algum altruísmo, à medida que a tragédia o leva a conhecer uma nova família, a espessura emocional de "A ETERNA DESCULPA" não se contenta com epifanias fáceis nem perde de vista o que é, acima de tudo, um olhar complexo (às vezes até inesperadamente duro) sobre a solidão.

A Eterna Desculpa 3

Ainda assim, é um olhar mais esperançoso do que pessimista, complementado por uma perspicácia e atenção ao detalhe capaz de integrar um retrato das clivagens sociais, do fosso entre a vida pública e privada ou da forma como a vida alimenta a arte (ou como a "persona" mais aberta do escritor pode ser só uma jogada oportunista, sobretudo em fase de bloqueio criativo). Torna-se legítimo que o espectador fique de pé atrás em relação às motivações do protagonista, mas torna-se igualmente difícil não aderir às cenas deste com as duas crianças que acabam por ir fazendo parte do seu dia-a-dia sem pedirem licença.

Essas sequências domésticas, as mais prosaicas, são também as mais comoventes (e/ou espirituosas) de um drama muito bem defendido por uma realizadora sempre capaz de encontrar o tom certo (o facto de adaptar aqui o seu próprio romance, homónimo, talvez ajude) e de um elenco que lhe dá vida e autenticidade logo ao primeiro impacto (com destaque para o protagonista, Masahiro Motoki, num daqueles desempenhos que decide se o filme triunfa ou falha, e para a jovem revelação Kenshin Fujita, um adolescente obrigado a crescer muito em pouco tempo). Belíssima estreia, portanto - e limitações da distribuição à parte, não há mesmo desculpa para a perder...

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