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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Transe de uma noite de Verão

Yasmine Hamdan

 

Juntamente com os Mashrou' Leila, YASMINE HAMDAN será a principal artista independente libanesa a ter-se feito notar fora de portas nos últimos anos, com um percurso musical que já tem cerca de duas décadas. Depois de três álbuns com as Soapkills, dupla que formou com Zeid Hamdan na viragem do milénio, editou um disco com Mirwais (produtor de "Music" e "American Life", de Madonna), no projecto Y.A.S., em 2009, antes de apostar numa carreira a solo em 2013, com "Ya Nass" (composto e gravado com Marc Collin, dos Nouvelle Vague).

 

Ainda assim, o seu maior "palco" internacional é bem capaz de ter sido o de "Só os Amantes Sobrevivem" (2013), ao cantar e dançar e dançar numa das cenas-chave desse filme de Jim Jarmusch - mas a ligação ao cinema já vinha de trás, uma vez que é casada com o realizador palestiniano Elia Suleiman e teve alguns trabalhos como actriz.

 

"Hal", a tal canção que fascinou as personagens de Tilda Swinton e Tom Hiddleston, também ficou entre os picos da actuação da libanesa no castelo de Sines, num dos últimos concertos do Festival Músicas do Mundo, no sábado passado. E ao surgir a meio do alinhamento do espectáculo, o tema marcou a viragem entre uma faceta contida e uma postura agreste e intensa, que a obra gravada dificilmente faria antever.

 

Yasmine Hamdan FMM

Foto: FMM

 

Não foi a estreia de YASMINE HAMDAN por cá nem o último regresso - como o confirma o concerto no festival de Paredes de Coura, já a 18 de Agosto -, mas permitiu conhecer melhor uma figura que insiste em manter-se enigmática, tanto pelas poucas vezes em que se dirigiu ao público como por uma música que junta tradição árabe a heranças do trip-hop mais agreste ou de um rock próximo do shoegaze, numa linguagem que parece estar em constante mutação.

 

Esse lado mais encorpado, a milhas do híbrido pop/folk de um disco como "Al Jamilat" (2017), só é possível devido ao formato banda com o qual a cantora se apresenta ao vivo - e prova que continua a saber escolher as companhias, tendo em conta a coesão instrumental e o efeito sempre hipnótico do alinhamento.

 

Yasmine Hamdan FMM2

 

Da belíssima "Assi" às mais sombrias "Cafe" ou "Nediya", passando por um final declaradamente feminista, a fazer lembrar a fase mais aguerrida de uma PJ Harvey, foi uma actuação que vincou um nome a acompanhar, sobretudo num palco - e de preferência ao longo de mais de uma hora.

 

Nos discos também têm surgido novidades. Ao segundo álbum seguiu-se o disco de remisturas "Jamilat Reprise", editado este ano, que sujeita as canções de Hamdam às manobras de gente como Arab Music ou Matias Aguayo. A aposta oficial, no entanto, é a releitura de "DOUSS" por George Bshoum, em modo electroacústico mas a manter o travo sereno do original - uma atmosfera que também passa por um videoclip a conjugar melancolia e esperança:

 

 

Da Austrália ao México, com escala num palco de Sines

Opal Ocean 2018

 

Foram uma das revelações do Festival Músicas do Mundo e tornaram um até então pacato final de tarde à beira-mar, em Sines, num concentrado de desvario e simpatia. Vindos da Austrália, os OPAL OCEAN não precisaram de mais do que duas guitarras acústicas para juntarem e atiçarem uma multidão no sábado passado, com as canções instrumentais do EP de estreia "Terra" (2015) e do álbum "Lost Fables" (2016).

 

Se pelo meio ameaçaram acompanhar um início de noite na linha de uma banda de covers, com uma versão de "We Will Rock You", dos Queen, grande parte do que se ouviu nasceu mais da promiscuidade entre rock e flamenco, combinação que já prometia nos discos mas atinge outros voos ao vivo. Não que seja uma mistura inédita: no concerto, a dupla até agradeceu a outro duo, Rodrigo y Gabriela, a inspiração para o que começou a moldar em 2013, numa cave de Melbourne. E quem viu o projecto do francês Alex Champ e do neo-zelandês Nadav Tabak na Praia Vasco da Gama também terá agradecido por arrasto, ou pelo menos aderiu à descontração destes mestres de cerimónias e à efervescência que teimou em triturar coordenadas, com estilhaços rumba ou metal.

 

Exemplo claro de que menos pode ser mais, as guitarras foram muitas vezes utilizadas como instrumento percussivo e os OPAL OCEAN nem precisaram de nenhum adereço (ou músicos) extra em palco para terem o público na mão - no final, quase todos os espectadores se baixaram, acedendo ao pedido da dupla, para voltarem a ficar de pé quando o ritmo também se impôs. Quem não teve o prazer de os conhecer, tem em "MEXICANA", o novo single, um cartão de visita esclarecedor (e que motivou um dos pontos altos desta estreia em Portugal):

 

 

Foto: FMM

 

Fundo de catálogo (110): Beastie Boys

Hello Nasty

 

22 faixas, mais de uma hora de música e um alinhamento ecléctico como poucos. "HELLO NASTY", o quinto álbum dos BEASTIE BOYS, foi uma surpresa e um triunfo há 20 anos e mantém-se uma ode ao hip-hop de vistas largas.

 

"Intergalactic" fez jus ao título e foi um fenómeno global. "Body Movin", com a ajuda da remistura do então fresquíssimo Fatboy Slim, não lhe ficou muito atrás. Mas se foram sobretudo esses dois singles que inscreveram "HELLO NASTY" na memória colectiva, houve mais a descobrir num discos muito aguardados do Verão de 1998.

 

A adição de Mix Master Mike ao trio de Mike D, MCA e Ad-Rock terá influenciado o desvio dos ambientes agrestes q.b. do antecessor "Ill Communication" (1994) para uma colagem lúdica e versátil, a atirar os nova-iorquinos para territórios que dificilmente se antecipariam. O arranque bombástico, com a sequência imparável de "Super Disco Breakin'", "The Move" e "Remote Control", mostrava uns BEASTIE BOYS iguais a si próprios (e no pico da forma), mas a pop esquizóide de "Song for the Man" propunha, à quarta faixa, uma viragem a confirmar em temas como o devaneio electrónico e orelhudo de "And Me" ou o final, também entre a contenção e a explosão, de "Instant Death".

 

Beastie Boys

 

Essa conjugação mantém-se ao longo de todo o alinhamento de "HELLO NASTY", que tanto disparou cartadas hip-hop com um flow reconhecível, produção igualmente fluída e atenta ao detalhe (cortesia do cúmplice habitual Mario Caldato Jr.) e scratching a rigor - "Just a Test", "Three MCs and One DJ", "The Negotiation Limerick File" - como mostrou uma banda sem medo de arriscar outros cenários.

 

A serenidade e languidez de "I Don't Know", na voz de MCA e coros de Miho Hatori (então das Cibo Matto, mais tarde dos Gorillaz), foi das maiores surpresas ao espreitar a bossa nova. O tempero latino, em modo mais ritmado, também passa por "Song for Junior", com o contributo vocal de Jill Cunniff (das Luscious Jackson, outra contratação da Grand Royal, a antiga editora dos BEASTIE BOYS).

 

"Picture This" propôs um desvio jazzy noir, quase trip-hop, no timbre enigmático de Brooke Williams. E Lee "Scratch" Perry, a fechar a guest list, ocupou-se do episódio dub de "Dr. Lee, PhD", provavelmente o menos aliciante mas que ainda assim não compromete um disco caloroso e generoso, com uma combinação de referências que não acaba numa manta de retalhos. "Hello Nasty, where you been?". Vale a pena voltar a saudá-lo, sobretudo numa tarde de Verão.

 

 

 

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