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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

De corpo e alma

Hercules & Love Affair 2018

 

"Omnion", o quarto álbum dos HERCULES & LOVE AFFAIR, editado no ano passado, continha algumas das canções menos eufóricas do projecto de Andy Butler, mesmo que no geral ainda estivesse direccionado para as pistas de dança. Uma delas foi "ARE YOU STILL CERTAIN?", agora promovida a novo single do disco, que além do ritmo menos festivo do que outros cartões de visita da banda nova-iorquina se destacava pela colaboração com os MASHROU' LEILA.

 

Hamed Sinno, mentor do grupo libanês que tem vindo a ganhar expressão fora de portas, é a voz convidada da canção interpretada em árabe mas cujo apelo se pretende universal, ao partir de discussões sobre islamofobia, espiritualidade e religião para chegar a uma letra que se opõe ao fundamentalismo e a verdades absolutas.

 

O próprio Andy Butler admite que mudou a sua perspectiva sobre o Islão ao aceitar o convite da banda para visitar o Líbano, deixando cair alguns preconceitos sobre a fé através do viu e ouviu por lá. Não admira, por isso, que este seja dos singles dos HERCULES & LOVE AFFAIR que tentam agitar mais o espírito do que o corpo. O videoclip, centrado em Sinno e inspirado nas experiências de migrantes árabes no Ocidente, tem realização a cargo de Butler e Joie Iacono:

 

 

E agora o momento Nine Inch Numan...

NIN 2018

 

Já não é de hoje que Trent Reznor aponta GARY NUMAN como uma das suas principais influências. E a admiração é recíproca, tendo em conta que o britânico também confessou ter sido inspirado pela música do norte-americano nos seus álbuns mais recentes.

 

Os universos de ambos já se tinham cruzado, aliás, de forma mais vincada em "METAL", umas das faixas do disco de remisturas "Things Falling Apart" (2000), dos NINE INCH NAILS, que revia e recontextualizava, à maneira de Reznor, a canção homónima incluída no álbum "The Pleasure Principle" (1979), de Numan. E foi esse o tema que motivou o encontro mais recente da dupla em palco - depois de já o ter revisitado ou ao clássico "Cars" em anos anteriores - numa actuação em Las Vegas há poucas semanas, antes de os Nine Inch Nails terem regressado a Portugal para um dos concertos obrigatórios do NOS Alive.

 

Num alinhamento que contou ainda com uma versão de "Digital", dos Joy Division, e de "I'm Afraid of Americans", de David Bowie (tema que também se ouviu para os lados do Passeio Marítimo de Algés), "METAL" impôs-se como momento-chave, muito por culpa do encontro e do respeito mútuo evidente na colaboração - com Reznor a ceder as atenções a Numan enquanto este interpreta uma versão da sua canção mais próxima dos modelos dos NIN. O momento foi captado, num só take, por Brook Linder, num vídeo a preto e branco a juntar o melhor de dois mundos:

 

 

35 de 2018

2018

 

Nada mau, o balanço da colheita cinematográfica do primeiro semestre de 2018, tão bom ou melhor do que o de alguns finais dos últimos anos. Mas é pena que algumas das maiores surpresas - "A Eterna Desculpa", "Marvin" ou "A Lua de Júpiter" - tenham estreado num registo toca e foge, com distribuição em poucas salas e durante muito poucos dias. Nas séries, "Seven Seconds" ou "Gaycation" pareceram segredos demasiado bem guardados enquanto que "The Americans" soube terminar a tempo de ficar entre as grandes sagas (americanas) dos últimos anos. Já a lista de discos a reter desde Janeiro não é tão numerosa, embora mais por falta de oportunidade de digerir tanta oferta e conseguir dar a devida atenção a cada álbum (a insistência no streaming facilita a dispersão). De qualquer forma, se os próximos meses se mantiverem neste patamar, vale a pena ir estando atento às novidades de 2018:

 

10 FILMES

A Eterna Desculpa

 

"A Eterna Desculpa", Miwa Nishikawa
"A Lua de Júpiter", Kornél Mundruczó
"Como Nossos Pais", Laís Bodanzky
"Custódia Partilhada", Xavier Legrand
"Frantz", François Ozon
"Lady Bird", Greta Gerwig
"Marvin", Anne Fontaine
"Na Síria", Philippe Van Leeuw
"The Florida Project", Sean Baker
"Western", Valeska Grisebach

 

Fora de circuito: "Cuori Puri", Roberto De Paolis (Festa do Cinema Italiano)

 

10 SÉRIES

Gaycation T2


"Album" (T1), DR Fiction/RTP2
"Atlanta" (T2), FX/FOX Comedy
"Dear White People" (T2), Netflix
"EastSiders" (T3), Netflix
"Gaycation" (T2), Viceland/Odisseia
"Glow" (T2), Netflix
"Gomorra" (T3), Sky Italia/RTP2
"Seven Seconds" (T1), Netflix
"The Americans" (T6), FX/FOX Crime
"The End of the F***ing World" (T1), Netflix

 

Série nacional: "Subsolo" (T1), RTP

 

5 DISCOS

Confidence Man 2018

 

"All Nerve", The Breeders
"Confident Music for Confident People", Confidence Man
"Criminal", The Soft Moon
"Le Touch", Slove
"Lies Are More Flexible", GusGus 

 

10 CANÇÕES

Fischerspooner 2018

 

"Catch It", Iceage
"Dark Spring", Beach House
"Don't Beat the Girl Out of My Boy", Anna Calvi

"Floor", Them Are Us Too
"Fuel", GusGus
"Good Girl", Slove
"In My View", Young Fathers
"Oh Rio", Fischerspooner feat. Holly Miranda
"Plaything", Róisín Murphy
"The Animals", Ladytron

 

O imenso adeus

Them Are Us Too

 

Um ano depois de os THEM ARE US TOO terem editado o álbum de estreia, "Us Now" (2015), um dos elementos da dupla californiana contou-se entre as vítimas mortais de um incêndio num armazém em Oakland, durante uma festa de música electrónica.

 

Cash Askew tinha apenas 22 anos e encontrava-se a preparar um novo disco com Kennedy Wenning, que ficou assim inacabado mas que pode agora ser ouvido, pelo menos parcialmente, em "Amends". Resultado da colaboração da vocalista com alguns familiares e amigos do multi-instrumentista, o registo junta algumas canções já gravadas pelo duo a temas novos num alinhamento que, como não poderia deixar de ser, tem a morte e a despedida como ponto de partida.

 

Produzido por Joshua Eustis (dos Telefon Tel  Aviv), o disco segue os passos do antecessor ao retomar influências de alguma dream pop (os Cocteau Twins continuam a ser uma das inspirações evidentes), aqui com um tom mais denso e solene a atravessar o alinhamento. Há apenas uma excepção entre faixas de um ritmo tendencialmente lento e etéreo: "FLOOR", acesso propulsivo que atira a música dos THEM ARE US TOO para cenários industriais e góticos, eventuais pistas a seguir num futuro entretanto interrompido (até porque Wenning já avançou para o projecto a solo SRSQ). É uma das melhores canções da dupla e um requiem efervescente, servido num videoclip apropriadamente vestido de negro:

 

 

Depois da tristeza infinita da adolescência, a noite escura da idade adulta

adore

 

O fim do início? O início do fim? 20 anos depois, "ADORE" mantém-se entre os maiores momentos de viragem da história dos SMASHING PUMPKINS. E é certamente o mais subestimado.

 

Pouco depois de chegar aos escaparates, no Verão de 1998, foi geralmente acolhido, no seu melhor, como uma curiosa nota de rodapé depois do opus "Mellon Collie and the Infinite Sadness" E no seu pior, enquanto disco que mostrou uma banda quase irreconhecível num álbum inesperadamente contido e sombrio. As reacções a quente até concediam uma vantagem considerável à segunda hipótese.

 

Foi um papel ingrato, esse, o de suceder aos discos que são apontados, de forma quase unânime, como obras-primas de uma das bandas mais vitais do rock dos anos 90: o famigerado e ambicioso álbum duplo de 1995 e o antecessor, "Siamese Dream", de 1993, ambos alianças inabaláveis entre banda, público e crítica.

 

Depois desses gritos da adolescência, os SMASHING PUMPKINS entraram sem aviso prévio na idade adulta num disco que, mais do que nascido de um Billy Corgan a olhar para o umbigo, o encontrava a lidar com o final do casamento e, de forma ainda mais angustiada, com a morte da mãe. Junte-se a isso o facto de "ADORE" ter sido gravado sem o baterista, Jimmy Chamberlin, e torna-se evidente que este é o álbum mais dominado pelos fantasmas do vocalista até então. 

 

Smashing Pumpkins 1998

 

Não por acaso, a primeira (e até aqui) única aventura de Corgan a solo ("The Future Embrace", 2005) deve alguma coisa a estes ambientes menos efervescentes nos quais os sintetizadores vão ganhando espaço às guitarras - e quando estas se ouvem tendem para o formato acústico. A revolta de "Bullet With Butterfly Wings" não tem lugar aqui, apesar do acesso agreste de "Tear", e o deslumbramento maior do que a vida na linha de "Tonight Tonight" também fica por repetir, mesmo que haja espaço para os encantos (sóbrios) de "Once Upon a Time" ou "The Tale of Dusty and Pistol Pete".

 

"Perfect" surge como sequela (muito bem-vinda) da perfeição agridoce de "1979", é verdade, mas boa parte de "ADORE" faz-se da mágoa das belíssimas "Crestfallen", "Shame" ou "Blank Page", baladas nocturnas ao piano que convivem com a rispidez irrepetível de "Ava Adore" (um cartão de visita algo enganador), a vertigem melódica de "Daphne Descends" ou o mergulho na synthpop sonhadora de "Appels + Oranjes". Outro caso de excelência electrónica, "Pug" parece prosseguir onde "Eye" (gravada para a banda sonora de "Estrada Perdida", de David Lynch) tinha ficado, terminando com um dos melhores remates de sempre da discografia do quarteto de Chicago (aqui reduzido a trio, mantendo James Iha na guitarra e D'arcy no baixo, ao lado do mentor do grupo).

 

20 anos volvidos, e sabendo da história dos SMASHING PUMPKINS entretanto, "ADORE" é mais do que um momento de viragem. Fica mesmo como o último momento de inspiração assinalável da banda, e com várias canções que até envelheceram melhor do que algumas das que estão para trás (até porque não foram sujeitas ao desgaste dos "clássicos"). O título não é nada descabido, a capa (belíssima) também não engana: continua a estar aqui um dos grandes álbuns da década de 90.